Eleições

Ódio e preconceito

Ódio e preconceito
O anúncio do resultado da eleições presidenciais desencadeou uma onda de preconceitos e ataques aos nordestinos. Eleitores de Serra, frustrados pela derrota, se apressaram a culpa-luz por todas as agruras do país. Quem se deu ao trabalho de abrir os olhos às redes sociais, blogs e salas de discussão da internet pode ver milhares de falas como nordestinos não são gente, bando de burros filhos da puta, porcos imundos, mate um… Não há novidades, o preconceito do sul contra o norte é antigo e não são poucos aqueles que não fazem nenhuma questão de esconde-lo. Pelo menos a cada dois anos esse preconceito soma-se outro, o de classe, aquele que diz que os pobres não sabem dos seus interesses, que são facilmente manipulados e que, por isso, não deveriam participar da vida política. O que ninguém está disposto a assumir é que esses preconceitos são profundamente enraizados e que eles evidenciam uma sociedade em que seus membros não se enxergam como iguais; é mais fácil fingir que são casos isolados e deixar que tudo fique por isso mesmo.


Balcão de negócios

Balcão de negócios
Mesmo com ampla maioria no legislativo e com uma conjuntura econômica favorável, em seu mandato Dilma deverá enfrentar mais problemas do que Lula. Devido à alta dispersão partidária, mesmo saindo o partido maior representação, sozinho o PT elegeu apenas 17% dos deputados federais e precisa de aliados para conquistar maioria. A coalizão de partidos que apoiou a presidente eleita foi formada na base do é dando que se recebe e vencida a eleição passará a cobrar ministérios e cargos relevantes dentro do governo e na burocracia. Para os partidos alguns segundos no horário eleitoral e o apoio nas votações valem cargos e isso nada tem a ver com interesse público, com ideologias ou programas, o governo será loteado num leilão. Tudo indica que mais uma vez o governo enfrentará mais problemas com o chamado fogo amigo do que com a fraca oposição que se desenha no Congresso, o Executivo terá que acalmar o apetite voraz dos aliados com cargos e comissões; ainda que pragmática, Dilma parece não ter o jogo de cintura e a afabilidade sem escrúpulos de Lula, pela sua personalidade o que se desenha é um governo menos disposto a negociatas e por conta disso com maiores problemas.

O ocaso da estrela vermelha

O ocaso da estrela vermelha
Em algum momento do passado o PT foi visto como o partido da ética, seus eleitores pensavam que sua chegada ao poder representaria uma profunda mudança na política nacional. Após oito anos de governo, mensalões, aloprados, escândalos e alianças sórdidas, não sobrou pedra sobre pedra, a estrela vermelha evidenciou-se como mais um entre outros. A democracia partidária sumiu na sobra do grande líder carismático, a esquerda saiu ou foi expulsa do partido e o atual eleitorado lulista não quer socialismo, quer mais assistencialismo e a manutenção do status quo e sabe que isso o PT faz bem. Alegando tratar de questão de governabilidades, os petistas se curvaram ao grande capital internacional e para se garantir no poder se aliaram aos velhos oligarcas e coronéis dos quatro cantos do país, os mesmos que sempre estiveram ao lado dos governos sejam eles quais forem. Paradoxalmente, a eleição de Dilma revela a fraqueza do partido que sem lideranças, sem militância e sem a mesma infiltração nos movimentos populares se submete mansamente ao poder do líder Lula. Se o partido não aprende com seus erros, seu eleitorado tradicional tem aprendido e se perguntado o quanto os fins podem justificar os meios, cabe agora ao PT repensar seu futuro sem a figura do seu líder carismático.

Sem nada a dizer

Sem nada a dizer
‘Então vamos combinar três coisas: eu vou continuar o que está dando certo, eu vou corrigir o que está dando errado e vou acelerar o que está devagar‘. Vindo do Tiririca essa frase seria motivo de piada, parece afinal coisa de palhaço sem talento, mas o ridículo é maior, essas palavras saíram da boca de José Serra e é o eixo da sua campanha no segundo turno. Não à toa. José Serra não é um candidato de oposição, chegará ao fim da campanha eleitoral sem apresentar um programa de governo e sem dizer a que veio e precisa dos votos daqueles que apóiam o governo Lula. Em nenhum momento sua candidatura mostrou que busca uma inflexão na trajetória do país e pretende ganhar votos atacando a turminha do mal petista; é muito pouco. Os escândalos na Casa Civil e a guerra dos dossiês não foram suficientes para nocautear o governo e o tucano resolveu apelar para o voto conservador e apostar no populismo mais baixo: aumento no salário mínimo e nas aposentadorias e décimo terceiro salário para o bolsa família. Não vai dar, quem quer se apresentar como alternativa precisa ter coragem para tocar em feridas e mostrar que o rumo deve ser mudado e não ficar beijando santinhos como se fosse um ingênuo coroinha.

Intelectuais e poder

Os intelectuais e a partilha do poder
Pouca coisa me causa tanto espanto quanto a apaixonada irracionalidade de parte da intelectualidade brasileira, me assusta como alguns dos mais importantes e renomados pensadores mergulham de olhos fechados no lamaçal das disputas eleitorais. Sem constrangimentos, criam conceitos, hipótese e teses para, no fim das contas, desqualificar adversários e enaltecer aliados num maniqueísmo tosco e raso. Com o status que conquistaram ao longo de décadas destilam bobagens sem pés nem cabeças. Não se trata simplesmente de tomar partido, de evidenciar idéias ou participar do debate público, o que seria mais que razoável, mas de servir de instrumentos legitimadores de idéias rasas em disputas grosseiras. Isso se explica não apenas por paixões mas por disputas pessoais, interesses e busca de poder – político ou simbólico; pouco se questiona, o negócio é aderir.”Quem se dedica à política, ou seja, ao poder e à força como meios, faz um contrato com as potências diabólicas, e pela sua ação sabe-se não ser certo que o bem só possa vir do bem e o mal possa vir do mal, ocorrendo com frequência exatamento o contrário. Quem deixar de perceber isso é, na realidade, um ingênuo em política”. Max Weber

Hormônio feminino

Hormômio feminino
Dilma Roussef é uma mulher! Se isso é óbvio? Talvez nem tanto. Não falo obviamente do fato, mas das dimensões e conseqüências que ainda não foram estimadas; não se sabe, por exemplo, qual a porcentagem de eleitores que votam ou principalmente que deixam de votar nela por conta disso. A sociedade brasileira é profundamente machista e não se pode descartar as implicações disso; como não há casos mais relevantes de mulher no poder na região sudeste, lembro que as ex-prefeitas de São Paulo, Erundina e Marta, sofreram preconceitos os mais diversos e que, nas eleições para governador, as duas únicas candidatas à reeleição sairão derrotadas após enfrentarem enormes dificuldades. Minha pouca memória não registra grandes sucessos de popularidade mas lembra que a vida privada delas é explorada de modo que as exigências que lhes cobram são sempre maiores. Se há uma percepção de que a mulher seja menos corrupta, para muitos ainda é forte a crença de que a mulher é menos capaz, menos apta e menos inteligente; resta saber o peso disso.


Entre fotos e fatos

Entre fotos e fatos
Capa da Veja, Aécio Neves é o queridinho da oposição, o cara boa pinta que pode ser capaz de se contrapor a Lula; qualquer semelhança com Collor não é mera coincidência. Diz o ditado que a esperança é a última que morre mas a realidade é que o ex-governador está bem distante do sonho que ser alimentar. Há quem acredite o mineiro pode levar os tucanos ao palácio da Planalto mas Aécio está longe de ter a relevância que lhe atribuem; ele não tem o tamanho que lhe dão e no senado pode se tornar ainda menor. O fato é que ele desistiu de disputar a presidência quando se viu diante da evidência da derrota, Aécio não é bobo, se acreditasse minimamente na possibilidade de vitória teria encarado Dilma e Lula, se não o fez é porque temia que a derrota lhe custaria prestígio e teria um custo desnecessário. Com a recusa ele se torna maior que seus rivais de partido, Serra e Alckmin, ambos derrotados por Lula. Mas sua votação em Minas gerais nada tem de extraordinária; para o status que lhe dão conquistar 68% dos votos para senador não é coisa do outro mundo – e é menos ainda quando se leva em conta que cada eleitor vota em dois candidatos.



Fogo no inferno

Fogo no inferno
Tivemos um primeiro turno aparentemente morno. Como não havia grandes divergências programáticas, parecia que todos estavam do mesmo lado. Para piorar, o marketing político e as pesquisas de opinião levaram os candidatos a uma falsa polidez e a um discurso baseado naquilo que o eleitor quer ouvir. Mas se na superfície o mundo parece tranqüilo, no inferno a coisa está fervendo, se partidos e candidatos não se dispõem a fazer política, nos meios de comunicação e, sobretudo, nas discussões virtuais a panela de pressão está prestes a explodir. Imagino eu que desde anos sessenta não há tanta radicalização política no país. A chegada do PT ao governo, com o seu pragmatismo e seus escândalos de corrupção, por um lado levou uma parcela da esquerda a romper com o partido e lhe fazer uma oposição radical e barulhenta, e por outro, evidenciou uma direita conservadora, preconceituosa e raivosa. É a política do Fla-Flu, não há argumentos, há disputas e torcidas. Nesse cenário não há debates possíveis, os dois lados se acreditam portadores da razão e da verdade e vêem o outro lado como inimigos as serem exterminados. A internet é o maior palco dos contrates, é onde as novas tecnologias servem para a volta do velho maniqueísmo que ganha força plantando suas conhecidas sementes totalitárias.


Quem mais perdeu?

Quem mais perdeu?
A grande vitória eleitoral é, sem dúvida, do presidente Lula; mas que é o principal derrotado? Não vejo que sejam os tucanos, eles ainda estarão no jogo por um bom tempo, acredito que a derrota mais vexatória será a da imprensa; toda ela. O segundo turno e a remota possibilidade de virada levaram a imprensa a mais descarada parcialidade. Com isso não quero buscar qualquer ingenuidade perdida para crer em neutralidades mas afirmar que, talvez, nunca antes na história recente desse país ocorreu tanto engajamento e manipulação de informações para ajudar um ou outro candidato. A imprensa perdeu não pelo apoio a determinado programa ou candidato, que pode até ser explícito, ou por construir versões menos factíveis, mas por simplesmente esquecer os fatos e se pautar por interesses sem qualquer vergonha. Quem ainda dará alguma credibilidade a empresas que desavergonhadamente colocam seus interesses acima da busca de qualquer objetividade?


Propaganda não resolve

Propaganda não resolve
Repetidas vezes ouvi frases do tipo: segundo turno é outra eleição! Não é! E não é por uma questão simples, existe racionalidade no voto e as campanhas e propagandas políticas influeciam no voto muito menos do que se imagina. Demorei anos para compreender isso, ainda que um grosso coro de cientistas políticos tente evidenciar isso a todo instante; e para isso não preciso trabalhar com modelos matemáticos. Claro que a propaganda tem algum efeito e as informações que circulam são relevantes, mas o eleitor, como homem racional, compreende o mundo a partir de certas crença e escolhe o seu voto a partir de certos valores; nesse sentido ele apenas escolhe aquele que entre as opções dadas mais se encaixa ao perfil desejado. Os eleitores não mudam suas convicções em poucas semanas e muito raramente mudam sua percepção sobre os candidatos depois de lhe ter deixado seu voto na urna. Como já disse antes, a não ser ser que ocorra uma hecatombe de proporções extraordinárias, Serra não tem nenhuma chance de vencer, o que ele pode tentar é uma derrota digna.

A vitória de Lula

A vitória de Lula
A vitória de Dilma no segundo e não no primeiro turno, como se imaginava, e a vitória tucana em São Paulo e Minas Gerais, serviu para tornar menos evidente a grandeza da vitória do lulismo. O presidente conseguirá eleger uma candidata, sem nenhum carisma, que não apenas foi fabricada como conduzida por ele. O lulismo, que se afastou do petismo, elegeu a maioria dos governadores e conseguiu grande maioria na câmara e no senado; mas mais do que isso o que chama a atenção não é a redução numérica da oposição, é a derrota de alguns dos mais importantes críticos do governo. Caciques tucanos e demos perderam feio, caso de Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB, e de Marco Maciel, vice-presidente de Fernando Henrique, entre outros. Para presidente, os tucanos conseguiram com Serra menos votos que Alckmin, quatro anos atrás; na comparação, Marina ganhou votos tucanos e não petistas. A vitória pessoal de Lula é também uma vitória contra o PT que por anos se negou a negociações partidárias e à abrir mão de ser cabeça de chapa. Tudo isso mostra de uma lado a força pessoal de um mito mas também a fragilidade das instituições políticas, sobretudo a dos partidos que, sem infiltração na sociedade e sem bandeiras que façam as multidões se mexerem, continuam reféns da popularidade de seus líderes.


Serra Malafaia x Dilma Macedo

Serra Malafaia x Dilma macedo
Nunca antes na história desse país houve uma campanha presidencial tão ridícula: os sacripantas estão dominando o debate. A disputa que interessa não é Dilma contra Serra, é Edir Macedo e poder universal contra Silas Malafaia e o poder mundial. De um lado o interesse da Igreja Universal na continuidade do governo petista e a possibilidade de neutralizar o poderio da Rede Globo, de outro o ministro Malafaia e os pastores de diversas igrejas-empresas, aparecem ao lado de Serra, querendo impor à sociedade valores do ultra-conservadorismo cristão. Dilma leva ao seu programa uma leva de pastores para mostrar que não é do mal. Evidente que não se trata de uma guerra santa; política é, como se sabe, coisa do capeta! A questão não é religiosa é política e os pastores de um e outro lado sabem que fazem parte de um jogo sujo. O ridículo está no centro do debate: a discriminalização do aborto. Evidente que essa não é a questão, é apenas o argumento pobre para arrebanhar votos de pessoas facilmente manipuláveis.


Fator bobagem

Fator bobagem
Fala-se na imprensa de um tal fatos Marina, que seria uma suposta capacidade da candidada para transferir seus votos para Serra ou Dilma no segundo turno. Bobagem. Nem Marina e muito menos o PV possuem esse poder, o partido não tem poder porque não existe e Marina não tem esse poder não exatamente porque não diz a que veio mas porque seus eleitores não apresentam nenhuma homogeneidade. Uma parcela dos votos verdes efetivamente tem alguma relação tosca e mal lapidada com uma vaga preocupação ambiental, é o voto que veio das classes médias urbanas que se veem como engajadas, preocupadas e descoladas; outra parcela se encaixa no que há de mais conservador no país, o voto dos evangélicos pobres viram na candidata uma possibilidade de reserva moral na defesa dos valores supostamente cristãos. Óbvio que no segundo turno o partido salada não pode apoiar um ou outro candidato, racharia ao meio e seria ainda menor e mais fraco, ainda assim certamente estará pronto para, de bom grado, receber quantos cargos o vencedor lhe puder oferecer. Marina que talvez tenha saído candidata verde mais por oportunismo que por convicção partidária, não tem mais o que dizer [pois quando teve oportunidade não disse a que veio] e não pode ir além da busca de apoio de Dilma e Serra para a questão ambiental. Palavras ao vento como se sabe, mas que pode render alguns votos; não à toa Serra vem nos primiros dias da campanha do segundo turno vestido de verde e se dizendo ambientelista de longa data. Não podia ser mais patético.


Estado totalitário!

Estado totalitário!
O Brasil tem um Estado totalitário, nesse Estado ninguém pode pensar ou discordar daqueles que estão no seu poder! Repito para que você leitor lembre-se disso em algum momento: o Brasil tem um Estado totalitário, nesse Estado ninguém pode pensar ou discordar daqueles que estão no seu poder! Não sou mais um desses quadrúpedes leitores da Veja a papaguear o seu besteirol contra o governo, esse quadrúpede que agora se põe a escrever fala de um outro Estado, falo de O Estado de São Paulo, o jornal marrom a serviço do pensamento conservador das elites brasileiras. Para quem não lembra é o jornal que já foi o mais vendido e influente do país, o mesmo que defendeu o Golpe de Estado e a ditadura militar, o mesmo que apoiou Collor e por aí vai… A última do Estadão totalitário foi a demissão da articulista Maria Rita Kehl; o seu grande pecado foi escrever um artigo chamado Dois Pesos, no qual ela discute o vale tudo eleitoral e a desqualificação do voto da população mais pobre. É um artigo extraordinário, desses para se guardar, mas as suas reflexões desagradaram os dono do poder, digo os dono do jornal. É estarrecedor que isso possa ocorrer, que alguém seja demitido por pensar e dizer o que pensa, é mais amedrontador ainda quando sabemos que a psicanalista teoricamente havia sido contratada justamente para escrever coisas que nos fizessem pensar. O Estadão parece gostar de um certo namoro com a censura, quem sabe agora no lugar da coluna da Kehl eles não resolvam publicar receitas de bolo!
Leia o texto: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/dois-pesos%E2%80%A6-maria-rita-khel-diz-tudo
“A repressão é a condição para a obediência.
Quem não sabe o que quer, quer aquilo que lhe dizem que ele deve querer.”

Um turno prorrogado

Um turno prorrogado
Dilma não venceu a eleição presidencial no primeiro turno, o que parecia o mais provável quinze dias atrás. Eu tinha poucas dúvidas disso nas últimas duas semanas, escrevi nesse espaço pelo menos três textos que talvez ajudam a entender o fato. O voto conservador-religioso, os ataques violentos que correram na internet e a partidarização de boa parte da imprensa somam-se aos escândalos na Casa Civil e ao comodismo petista no oba-oba do já ganhou. O fato é que situação e oposição teriam mais quatro semanas para fazer o que por incompetência e medo não fizeram até agora: discutir os rumos do país; mas como podemos prever, isso não acontecerá. Nem tucanos nem petistas estão dispostos a serem claros e objetivos, eles sabem que os brasileiros não costumam aceitar pessoas com opiniões que lhes são contrárias, não querem polêmicas… enfim, preferem viver na sua passividade bovina. A única questão polêmica real, a descriminalização do aborto já deu pano pra manga e ambos agora se apresentam como contrários à mudanças na atual legislação, adotando assim a cartilha ditada pela Igreja Católica e polos evangélicos conservadores. Os tucanos se acovardam e os petistas se renegam diante da opinião dos setores mais retrógrados da sociedade e com isso se tornam cada vez mais farinha do mesmo saco e se apequenam diante da opinião mais rasa do senso comum. Para que política nesses termos? Para nada! Dizem que para eleger administradores ou gerentes, mas no fundo é para sustentar interesses mesquinhos de grupinhos sedentos por poder.


Imprensa parcial e voto

Parcialidade da imprensa e voto
A imprensa brasileira apoiou o golpe militar de 1964, defendeu a ditadura e também apoiou e elegeu Fernando Collor em 1989. Hoje, ironicamente, essa mesma imprensa se coloca como a defensora da república e qualquer crítica à sua atuação é taxada de autoritária e antidemocrática. Menos mal, mas é difícil acreditar. A grande imprensa apóia grandes grupos políticos e econômicos pelo simples fato de pertencer a eles e por conta disso a tão propagada imparcialidade passa longe. Interessante ver as grandes revistas semanais às vésperas das eleições; a Veja, como sempre faz a cada edição, se coloca em ataque direto ao governo Lula e ao PT; a Istoé traz na capa matéria sobre a onda vermelha, explicando porque o voto no continuísmo federal é vantajoso para o país; a Carta Capital critica a oposição direitista a mídia que a sustenta acusando-a de tentar resgatar velhos fantasmas que empurraram o país para o Regime militar. Entre os eleitores da Veja, cerca de 85% votam no Serra, entre os eleitores da Carta Capital, cerca de 85% votam em Dilma. O ombusdman da Folha de S. Paulo acusa o próprio jornal de favorecer Serra e o Estadão traz em editorial seu apoio explícito. Não vem ao caso dizer quem está certo ou errado mas de evidenciar que a imprensa tem lados e faz escolhas para favorecer aqueles a quem apóia, menos mal que alguns deles ao menos tenham a dignidade de dizer quem estão apoiando. Não existe imparcialidade isso é óbvio, o que não é óbvio é que se possa acusar qualquer pessoa de autoritária por decordar desse fato.

O voto dos sacripantas

O voto dos sacripantas
O resultado dessas eleições depende da força dos grupos religiosos mais conservadores, aqueles que acreditam que o Estado deve estar submetido às suas crenças. Pesquisa Ibope mostra que a queda nas intenções de voto da candidata Dilma Rousseff vem se dando principalmente entre o eleitorado evangélico e eu diria, sem provas, que também entre os católicos mais fervorosos. Não foram os escândalos na Casa Civil ou as quebras de sigilo que tiraram votos da petista, foram as acusações de que ela era atéia, de que defendia o aborto e de havia dito que nem Cristo tiraria sua vitória em primeiro turno que moveram centenas de milhares de pessoas e a fizeram perder grande parte da vantagem que tinha. Comentei aqui outro dia o jogo sujo da campanha na internet, nenhuma campanha foi mais afetada que a de Dilma, a ponto da candidata ter que reunir e vir a público com pastores e religiosos católicos para desmentir as acusações. Tarde demais, o estrago estava feito. Quem é a favor da união civil entre pessoas do mesmo sexo, a favor da descriminalização das drogas e do aborto e quem não é cristão é tudo feio, malvado, sujo, degenerado e comunista; com esses não se tem dialogo. O fato é que não há projetos políticos em jogo e o conservadorismo cristão tem um peso gigantesco no país, comprometendo o debate essencial acerca das liberdades civis e das relações entre Estado e indivíduo.

Marina Silva para quê?

Marina Silva para quê?
O Partido Verde efetivamente não existe para além da sua sigla; é um partido que se alia ora com tucanos ora com petistas, não tem um programa que vá muito além das questões ambientais mais óbvias. Marina Silva pela sua trajetória pessoal representa aquilo que o PV sempre quis ter e não tinha, uma cara popular que o desligasse da figura classe média aburguesada de um Fernando Gabeira cada dia mais conservador e atucanado. Só que Marina é essencialmente petista, ajudou a fundar o partido no Acre, foi petista toda a sua vida, foi ministra do governo Lula até a pouco e só saiu do partido a muito custo, com a promessa de que seria candidata a presidência. Isso significa que Marina só está fora do PT porque lá não havia espaço para suas ambições pessoais e que o PV a convidou antes de mais nada para arrebanhar votos. Pois bem, a que veio Marina? O mesmo discurso da ética do velho PT, a mesma idéia de aliança de classes do velho PSDB e o samba de uma nota só da proteção ambiental. A coisa poderia ser diferente, se ela e o partido realmente tivessem propostas de mudança ela poderia trazer novos temas e, como franco-atiradora, fazer repensar os rumos do país, tal como tentou fazer o Plínio; mas ela não trouxe nada de novo. Ainda assim conquistou uma parcela do eleitorado que não quer os partidos do palco principal, resta saber se após conquistar o público com seu carisma Marina ainda terá algo a mostrar, além do seu samba de uma nota só.

Rede de canalhices

Rede de canalhices
A eleição de Barack Obama parecia ser um divisor de águas nos processos eleitorais mundo afora, o intenso uso de novas tecnologias de informação, tendo a internet como centro, indicava um novo momento – dizia a lenda que o azarão havia chegado lá contando com a grande mobilização popular impulsionada por canais de interatividade. Quando lá é inverno aqui é verão. O que lá se apresentava como sonho aqui se mostra como pesadelo. A internet é para a política brasileira o lugar do vale-tudo, do jogo sem regras e da mais vil cafajestice. Em blogs, sites e mensagens, uma descarada guerra de informações falsas, boatos, acusações sem provas e infundadas. É difícil avaliar o alcance dessa guerra de contra-informações, mas num país em que enormes parcelas da população não têm o menor interesse pelas questões públicas e, portanto, pouco conhecimento sobre o ocorre no mundo da política talvez não seja muito difícil de se conquistar alguns milhares de votos acusando os adversários de serem ateus, macumbeiros, veados, pró-aborto ou torcedores da Argentina.


Política agonizante

Política agonizante.
Política, que política? A poucos dias das eleições, imagina-se que um país deveria estar discutindo seus rumos e destinos, que partidos e candidatos pudessem estar pensando problemas e propondo respostas, que grupos ou classes estivessem organizados na defesa de seus interesses,que hajam divergências e debates. Nada disso! Por essas bandas ninguém está nem aí;  em geral, a população não está alheia a tudo, e não com certa razão. As discussões não vão além das picuinhas, futricas e obviedades; partidos e candidatos não têm o que dizer, ninguém tem qualquer projeto de nação; ninguém quer mudanças significativas. É fácil e patético o discurso vazio do investimento nisso e naquilo, das prioridades em educação, saúde, segurança…  O óbvio! Os principais candidatos à presidência são caricaturas rasas, não têm o que dizer, querem agradar a todos e não agradam ninguém. Quem sabe dizer o que os separam ou em quais pontos os dois maiores rivais realmente se colocam em campos opostos? Na falta do que discutir, na falta de projetos relevantes, sobra blá-blá-blá com apelos afetivos. Se a política ainda não está completamente despolitizada, o fato é que ela agoniza.


O palhaço e os abestados.

O palhaço e os abestados.
Espera-se de Francisco Everaldo Oliveira da Silva que ele seja um fenômeno de votos. Para quem não liga o nome à figura esse é o nome do Tiririca. Nada contra ou a favor, melhor ter palhaços que se fazem de políticos que políticos que nos fazem de palhaços. Com seus segundos no horário eleitoral o abestado alcançou um sucesso que nunca teve, é de se entender: como palhaço ele é sem graça e como político é um desgraçadinho. Deve ser o candidato a deputado mais marcante de São Paulo em todo o horário eleitoral, tem tudo para o ser. Ele não está lá por acaso, não surgiu do nada, não foi contratado para fazer comédia. Tiririca é nada menos que a principal aposta de um partido político institucionalizado. Não é o primeiro e não será o último caso de famoso falido que decide ganhar dinheiro, a lista de é grande passa por Maguila, Sérgio Mallandro e Gretchen e se enche com dezenas de radialistas, atletas aposentados e filhos dos outros. Tiririca é diferente desses, ele não é coadjuvante é o puxador de votos do partido e é o cara que zomba do sistema, ele não finge falsa seriedade; justamente por isso vai receber uma enormidade de votos, será a escolha não de quem o admira nem que quem acredita nas suas boas intenções, é o voto de quem não acredita no jogo político, nem nos partidos, nem nas instituições.


Tiririca e o expresso 2222

Tiririca e o expresso 2222
Tiririca irá receber mais que os votos que seriam aleatoriamente distribuídos entre tantos outros famosos e desconhecidos, receberá o apoio de muitos daqueles que anulariam o voto e daqueles que acham que uma ou outra escolha dá no mesmo. O seu partido, o Partido da República, não é uma sigla qualquer surgida do nada, é a soma do Prona do finado Enéias com o Partido Liberal, aquele que elegeu o atual vice-presidente José Alencar, e Tiririca é sua maior aposta, nele investiu boa parte dos seus recursos, cerca de seiscentos mil reais. O eleitor do abestado, pensando estar protestando contra a palhaçada do sistema político, acabará por eleger e sustentar pessoas, de colarinho branco, que não medem esforços para conquistar poder e vantegens. Talvez esse seja o estelionato eleitoral: o eleitor que ingenuamente pensa estar praticando um ato de protesto contra o sistema na verdade está ajudando a eleger e sustentar senhores de colarinho branco interessados em outras patuscadas e pantomimas. No passado parcelas da população já votou em macaco e até ‘elegeu’ um rinoceronte, mas o protesto era válido ou pelo menos singelo: nem um nem outro poderia ser eleito; aquele que se traveste de palhaço pode e os votos do senhor Francisco Everaldo deverão levar para o Congresso mais alguns pastores e empresários; eles sabem, é só pegar o bonde, afinal já começou a circular o expresso 2222.


Para onde vai a oposição?

Para onde vai a oposição?
A oposição está prestes a perder muito mais que uma eleição. Ouso dizer que, consumada a vitória de Dilma ainda no primeiro turno, o PT deverá continuar com a presidência do país nos próximos doze anos e, muito provavelmente, com a maioria do Congresso Nacional. Sem ter maior relevo no plano nacional, ao PSDB sobrará a tarefa de manter os governos estaduais em estados importantes como São Paulo e Minas Gerais. Os Demos provavelmente serão extirpados, jogados pra escanteio, perderão importância. Menor que a oito ou quatro anos a oposição tem a perder do que o seu tamanho, tem a perder o seu rumo. Quem terá força para se opor com firmeza ao próximo governo? A resposta, obviamente, dependerá da aprovação do governo, mas não deve-se esperar isso dos governadores Alckmin e Anastasia, mais propensos a ficar na aba do governo federal esperando migalhas; não se deve esperar isso do senador Aécio, este tucano que melhor que qualquer outro se equilibra e se esconde encima do muro e não também não se pode esperar isso de Serra que poderá sair da disputa em frangalhos e permanecer sem cargo público relevante por um bom tempo. Mas ainda que haja tempestades e que estas tragam bons ventos à oposição ainda restará ao bloco situacionista a possibilidade da volta de Lula à presidência. Diante desse quadro todos aqueles menos convictos deverão por questões estratégicas e pragmáticas sair do barco que está afundando para a balsa que os carregue para o porto seguro.

Com a faca e o queijo na mão

Com a faca e o queijo na mão
A menos que ocorra uma hecatombe ou uma tragédia de proporções apocalípticas, Dilma Roussef deve ser eleita a primeira presidente do país. Pelo menos um ano atrás já se discutia que isso seria quase o mais provável: ela teria o queijo e a faca na mão, só não ganharia se fizesse muito esforço para isso. A equação é muito mais simples do que qualquer previsão de mãe de santo: o governo Lula tem tachas de aprovação extraordinárias, apenas cerca de cinco por cento do eleitorado percebe seu governo como ruim ou péssimo; o atual presidente é o político mais carismático da história recente e, mais que isso, é talvez o maior mito vivo de que se tem notícia na América do Sul – Maradona talvez seja seu único concorrente. Soma-se a isso o fato de não ter havido, efetivamente, oposição ao governo nos dois últimos mandatos e a vantagem de ele ter sido antecedido por um governo que terminou em crises, inclusive de popularidade. Lula poderia eleger um fusca amarelo? Não se pode duvidar! O certo é que Dilma  e o  PT só poderia m perder para eles mesmos e todas as canalhices, abusos e bobagens dos petistas parecem ser ainda insuficientes para isso.