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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contra os idiotas

Contra os idiotas

Somos todos prisioneiros, embora tenhamos penas diferentes ninguém escapa de suas celas. A vida cotidiana representa a clausura do indivíduo preso às futilidades cotidianas onde o homem torna-se espectador do mundo, refém das necessidades imediatas ditadas pela lógica das relações de produção e do consumo. Isso seria óbvio se não nascesse de um paradoxo, nunca fomos tão livres. Ocorre que a liberdade do indivíduo que caracteriza a modernidade traz em si um avanço ambíguo. Nela os indivíduos já não estão presos a laços sociais hierárquicos, a amarras religiosas ou morais; é inteiramente de cada indivíduo a responsabilidade de criar a si mesmo, o homem é o responsável por instituir ou validar os valores sob os quais pode e quer viver; mas isso é uma possibilidade que não se concretiza. Sabemos que o mundo não trás em si nenhum sentido e se nenhum valor é transcendente, universal ou divino, eles só podem ser estabelecidos na luta entre os homens, como arma e resultado de processos de dominação. O esfacelamento da moral cristã como denominador comum do mundo ocidental dá ao indivíduo a possibilidade de criar e recriar os valores sob os quais pretende viver mas isso exige uma racionalidade que é cada vez mais rara. Continue lendo: 


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Minhas aulas com Haddad

Minhas aulas com Haddad

'Qual o primeiro dever de um homem? A resposta é simples: ser ele mesmo!' Por anos acreditei nisso, essa resposta me marcou desde que li Peer Gynt, a frase é dele, devia ter uns quinze anos e essa ilusão ainda combinava bem com meus outros sonhos. Ibsen havia plantado uma fraude em mim; era mentira, um engodo, nós não podemos ser nós mesmos, somos o que mundo faz de nós. As circunstâncias é que constroem os homens e raros são os que escolhem seus destinos. As ruas escolhem os nossos passos e os relógios dominam o tempo atropelando nossas escolhas como um demônio que nos manipula como marionetes, com a diferença de sermos fantoches capazes de buscar prazer e glória: por elas vendemos a alma ao diabo das circunstâncias. Parece ter acontecido algo assim com Fernando Haddad: conheci um que foi meu professor, o homem do conhecimento que desejava usar o saber para reconstruir o mundo; agora conheço um outro, o que agora é o prefeito da cidade, o que se dedica à política e ao poder, aquele que pela prática terá que saber que o bem poderá vir do mal e que o mal poderá vir do bem, o Haddad que abdicou de ser ele mesmo para ser uma personagem para si mesmo. Continue lendo:


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fezes honestas

Fezes honestas

O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves, afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o outro.  Continue lendo

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mercado de ilusões

Mercado de ilusões

O sistema educacional brasileiro é um dos piores do mundo, todos sabem; e se conformam. Com o tempo e a experiência tendemos a nos conformar com as coisas mais absurdas. A mim, já não causa espanto saber que ao entrar numa sala de ensino superior irei me deparar com uma parcela significativa de alunos que são analfabetos funcionais, o que me espanta é a hipocrisia que envolve a questão e a cumplicidade de todos para manter a situação. A mediocridade busca o caminho mais fácil, todos culpam os governos e ninguém assume suas responsabilidades. Todos mentem, enganam ou se calam e assim o ambiente se torna agradável. Estudantes se enganam em segredo, sabem que não sabem, sabem que não aprendem, talvez não desejassem estar na condição em que estão mas preferem o silêncio; como, sem parecer arrogante ou cruel, como dizer a um aluno universitário que o nível de leitura dele é equivalente ao que se espera de um aluno de quinta série? Os professores, esses geralmente são covardes, preferem relações baseadas em bajulação mútua e não gostam de comprar conflitos; em instituições privadas costumam se transformar em representantes das instituições que lhes pagam os salários e se transformam em vendedores de sonhos, mentem para vender ilusões. Continue lendo


terça-feira, 29 de maio de 2012

Nossos fracassos de cada dia

Nossos fracassos de cada dia  


O mundo parece conspirar para que cada um nós acredite o esforço individual é que determina o sucesso ou o fracasso de cada um, como se cada aspiração, desejo, ambição ou sonho fosse possível e estivesse ao alcance dos mais esforçados. Seria como se tivéssemos um enorme supermercado onde é possível escolher pretensões e objetivos e levá-los para a vida, desde que haja ânimo, coragem e força de vontade suficientes para pagar a conta no caixa; tudo seria possível. Ninguém questiona o papel do esforço pessoal, ocorre que a tal força de vontade é apenas uma etapa do caminho ou da vida, o problema é tomá-la como decisiva sempre. Quando não consegue alcançar sonhos e objetivos os indivíduos são vistos como fracos, incompetentes ou perdedores e, portanto, são convidados a andar de cabeças baixas assumindo seu sentimento de vergonha. É uma crença tanto falsa quanto cruel porque impõe um pesado sentimento de autopunição. Dizia Cervantes que o sonho é o alívio das misérias, talvez o fosse noutro mundo, talvez o seja para quem, como Dom Quixote, não teme o ridículo por não compartilhar uma realidade que impõe desejos tanto quanto impõe comportamentos, limites, frustrações e fracassos. No passado o homem tinha o destino como amigo e companheiro, a ele se podia atribuir nossas falhas e fracassos, dele vinha a nossa redenção pelo fato de não sermos capazes de ultrapassar os limites que a vida que a vida nos coloca. Continue lendo