Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito
que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode
colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias
que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as
minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que
arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades
cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu
não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme
baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos,
assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que
o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo
motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora
estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as
décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo
meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de
companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo
de ver o homem e o mundo. Continue lendo
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terça-feira, 25 de setembro de 2012
terça-feira, 21 de agosto de 2012
O cadáver cordial
O cadáver cordial
Nelson Rodrigues está completando um século, mais vivo do que nunca o
desgraçadinho. Cem anos despertando amores e ódios intensos e eternos. Parece
que hoje o respiramos em todos os ares, mas nos perfumes sublimes e não nos odores
mais fétidos. Desde o dia em que foi
descansar o corpo no Cemitério do Caju, o milagre se operou, aquele que era
odiado por todas as bandas passou a ser amado até pelos inimigos. Ah essa nossa
canalhice! Aquele que nunca foi complacente, que nunca poupou ninguém e que
atirava em todas as direções deve estar odiando saber que chega aos cem se
aproximando da unanimidade; poderia ser uma rara unanimidade, precisa,
inapelável e eterna como o Juízo Final, mas não, parece ser apenas mais uma unanimidade
burra; a burrice se aproximou dele para torná-lo unânime. Sinal dos tempos,
aquele que foi odiado, rejeitado e vaiado pela esquerda e pela direita, por
conservadores e liberais, por putas e freiras, agora parece ser o defunto de
casaca com cara de mordomo, querem deixá-lo livre das provocações e polêmicas,
querem matá-lo. O sujeito obsceno, machista, conservador, reacionário e
autoritário morreu para dar lugar a outro, o cara das frases feitas jogadas ao
vento, o cadáver tranquilo que já não provoca iras e rancor. Continue lendo

