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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contra os idiotas

Contra os idiotas

Somos todos prisioneiros, embora tenhamos penas diferentes ninguém escapa de suas celas. A vida cotidiana representa a clausura do indivíduo preso às futilidades cotidianas onde o homem torna-se espectador do mundo, refém das necessidades imediatas ditadas pela lógica das relações de produção e do consumo. Isso seria óbvio se não nascesse de um paradoxo, nunca fomos tão livres. Ocorre que a liberdade do indivíduo que caracteriza a modernidade traz em si um avanço ambíguo. Nela os indivíduos já não estão presos a laços sociais hierárquicos, a amarras religiosas ou morais; é inteiramente de cada indivíduo a responsabilidade de criar a si mesmo, o homem é o responsável por instituir ou validar os valores sob os quais pode e quer viver; mas isso é uma possibilidade que não se concretiza. Sabemos que o mundo não trás em si nenhum sentido e se nenhum valor é transcendente, universal ou divino, eles só podem ser estabelecidos na luta entre os homens, como arma e resultado de processos de dominação. O esfacelamento da moral cristã como denominador comum do mundo ocidental dá ao indivíduo a possibilidade de criar e recriar os valores sob os quais pretende viver mas isso exige uma racionalidade que é cada vez mais rara. Continue lendo: 


terça-feira, 7 de maio de 2013

O suicídio e a vida

O suicídio e a vida   


Jéssica decidiu morrer; para ser mais exato decidiu desistir da vida. Vítima de transtornos alimentares desde a infância, anoréxica em situação de magreza extrema, a mais de um ano ela não come alimentos sólidos esperando se livrar das dores que lhe atormentam o corpo e a alma. Hoje, aos 32 anos, ela vive em estado deplorável e certamente já não lembre aquela moça inteligente e simpática que estudou medicina por acreditar na vida quando ainda conseguia não apenas sorrir com seus prazeres mas também lutar para que outros sofressem menos. Pouco mais de três décadas foram o bastante para acumular problemas, sofrimentos e angústias suficientes para que simplesmente decidisse escolher ou aceitar a morte, seu último ou único desejo. Poderia como outros ter escolhido a hora e local, poderia ter se jogado da ponte, tomado veneno, escolhido a arma e a munição, mas escolheu a morte lenta, decidiu apenas se entregar, se deixar tomar. Por amor e piedade seus pais e amigos entenderam e respeitaram essa vontade e tudo chegaria ao fim dignamente não fosse uma decisão judicial. Jéssica, que na verdade não tem esse nome, não poderá levar a cabo seu último ou único desejo, deverá ser obrigada a se alimentar por ordem da justiça; seu destino foi decidido num tribunal, na cabeça de um juiz, um representante do Estado que não viveu sua vida, não sentiu suas dores nem partilhou suas angústias ou sofrimentos. Continue lendo

 

terça-feira, 26 de março de 2013

Tanto anjos quanto demônios

Tanto anjos quanto demônios

A centralização do poder e o fortalecimento do Estado com suas forças repressivas serviram para aumentar a segurança da sociedade, para garantir a paz interna das nações e proporcionar a ‘vida menos solitária, pobre, sórdida embrutecida e curta’, para usar a expressão de Hobbes, seu grande defensor. Contudo, se o poder do Estado foi capaz de domar a natureza humana, como sugere Steven Pinker (ver post anterior) e impor paz entre os homens, reduzindo o constante temor ante o perigo da morte violenta, ele próprio se torna o detentor da violência, que, antes dispersa entre os homens, agora ganha corpo e poder extraordinário. O Estado e as forças atreladas a ele foram nos últimos séculos os grandes executores da violência, num grau talvez jamais visto no passado. Independente do regime, da forma de organização econômica, da participação popular e dos detentores do poder o que se viu por todos os cantos do planeta foi o uso do poder do Estado para crimes em massa, de assassinatos e deportações, a campos de concentração e genocídios. A resolução dos conflitos, antes no olho por olho, dente por dente, passaram a ser mediados pela esfera política onde vence quem detém o poder estatal. A violência está na base do Estado e essa violência que permite sua existência é constantemente voltada para determinadas parcelas dos seus súditos, mulheres e homens que, ao menos na teoria, abriram mão do seu poder individual e da capacidade de auto-defesa para dar a essa força que os constrange o poder para proteger suas vidas e garantir a paz.
  

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O grito das ruas

O grito das ruas


O ano de 2011 foi marcado pelas manifestações políticas nas ruas de cidades ao redor do mundo. Da praça Tahrir no Cairo a Wall Street em Nova York, das ruas de Londres a capital chilena. Em Israel, Espanha, Índia, Líbia, Grécia e nos cafundós do Judas as ruas foram tomadas por multidões em busca de mudanças maiores ou menores. Não há uma pauta de reivindicações que una esses manifestantes, existe, contudo, alguns pontos que permitem pensar uma certa unidade entre esses fenômenos; o primeiro, e talvez mais importante, é o fato da desconfiança e descrença generalizada nas regras do jogo e na política institucionalizada, mesmo aqueles que reivindicam a democracia representativa se mostram com um pé atrás em relação aos políticos e partidos tradicionais; o segundo é a centralidade da questão da desigualdade econômica, a afirmação de que a plenitude dos direitos e a própria possibilidade democrática só é possível com a redução das desigualdades econômicas; o terceiro é o uso das novas tecnologias que permitem novas formas de comunicação; o acesso à Internet e a utilização das redes sociais possibilitaram a mobilização rápida e um novo sistema de organização. Em grande medida esses acontecimentos remetam às manifestações ocorridas no início da década de 1990, chamadas pela grande mídia como movimento anti-globalização, que foram sufocadas após os atentados de 11 de setembro. Essas manifestações apontam para novas formas de organização política, muito mais difusa, menos coesa e mais pontual, portanto menos ideológica, porém mais forte, pois se forma numa nova forma de poder: aquele mesmo relacionado à comunicação e à formação da opinião pública mas agora menos atrelado à grande imprensa e às grandes corporações que controlam os meios de comunicação de massa.
 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vitória do terror

Vitória do terror
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Dez anos após os atentados de 11 de setembro o mundo ainda parece incapaz de entender o seu significado e dimensionar todas as suas conseqüências, ainda assim um fato parece gritar: não há nesse início de século qualquer homem que faça sombra em termos de importância a Osama Bin Laden, ninguém nesse período teve uma influência tão grande nos rumos do planeta quanto ele; o terrorismo venceu e o êxito da Al Qaeda foi provavelmente muito maior do eles mesmos imaginaram. Se o objetivo era espalhar o medo e o terror e com isso desestruturar a sociedade norte-americana o resultado não poderia ser melhor, em um único dia os terroristas conseguiram fazer estragos talvez maiores do que a União Soviética tenha conseguido em quatro décadas de Guerra Fria. Além de apresentar o terror aos ingênuos sobrinhos do Tio Sam, Bin Laden e seus homens contribuíram para colocar o país numa encruzilhada maniqueísta que pode levá-lo a um governo fundamentalista de direita; com a ajuda de George Bush e sua desastrada estratégia de guerra contra o terror, que consumiu mais de cinco trilhões de dólares, contribuíram decisivamente para a maior crise econômica em mais de meio século. A morte em combate só contribui para transformar o terrorista em mito, se de fato estiver no fundo do mar, o terrorista saudita deve ter muito o que comemorar pelo que conseguiu nessa última década, mas também deve agradecer e muito o apoio que teve da imprensa que contribuiu para transformar seus feitos em gigantescos espetáculos midiáticos e para transformá-lo em mito, deve agradecer ao governo Bush que fez de tudo para espalhar o medo pelo país, que inventou guerras funestas e ajudou a dividir o mundo alimentando novos inimigos por todos os seus cantos.
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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Liberdade de expressão

Liberdade de expressão
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O ilustre deputado Jair Bolsonaro se diz cristão e nacionalista; não gosta de negros, não gosta de índios, não gosta de homossexuais, não gosta de esquerdistas, não gosta de pobres... Ele não é o único, não passa um dia em que cada cidade não se vivencie ditos e atos de preconceito e intolerância, portanto suas palavras não trazem nada de surpreendente, o ex-capitão do Exército fala o que outros pensam em silêncio. Como militar defende a ditadura militar e a tortura, é só mais um. Todos conhecem sua excelência, é uma besta que não se esconde, seus eleitores conhecem suas declarações e votam nele por concordarem com suas asneiras, quanto mais expuser seus preconceitos mais votos terá. Os preconceitos do deputado chocam e agridem? Muito provavelmente! Ele deve ser calado? Não!  Poucos assumem seus preconceitos como Bolsonaro e justamente por isso ele não deve ter voz silenciada – suas palavras não apresentam nenhum argumento convincente, é um amontoado de preconceitos tolos; a liberdade de expressão é um direito, todos devem ter voz ainda que para falar coisas estúpidas ou para pronunciar palavras que tenham poder de ferir. Àqueles que se sentirem feridos a assistência das leis, mas impedir alguém de se expressar é tolher sua liberdade inutilmente.
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