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terça-feira, 5 de junho de 2012

Entre tapas e beijos

Entre tapas e beijos


Em algum lugar minimamente sério o senhor Paulo Maluf estaria atrás das grades ou completamente enterrado, nem que fosse em sentido figurado. Com seu nome na lista de corrupção internacional do Banco Mundial e procurado pela Interpol, aos 80 anos o político paulista continua vivendo tranquilamente entre sua mansão nos Jardins e o Congresso Nacional e é disputado pelos mais importantes partidos políticos do país. Cria da ditadura, Maluf é sinônimo de corrupto, sua vida é recheada de escândalos, suspeitas de lavagem de dinheiro e mau uso do dinheiro público, mas no sistema político brasileiro ainda está longe de ser cachorro morto, boa ou má sua imagem lhe dá peso de lenda viva. Ainda assim, mesmo que tenha seus eleitores cativos, e não são poucos, não seria de se esperar que a essa altura fosse cortejado por PT e PSDB como se fosse a noivinha ideal. Ocorre que o malufismo possui uma força significativa no conservador eleitorado paulista e o Dr. Paulo não deixou herdeiros de peso, são votos capazes de decidir uma eleição; para além disso, Maluf e seu partido possuem um tempo de televisão que vale ouro. Por menos de dois minutos qualquer partido parece estar disposto a vender a alma ou, se ainda restasse alguma, a dignidade. Sim, tempo é dinheiro e numa campanha eleitoral quem o tem pode negociá-lo com quem lhe oferecer as melhores ofertas, alguns segundos podem valer um vice, podem valer alguns ministérios ou secretarias, isso para não entrar em questões mais evidentes de corrupção. Continue lendo

 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Entre o bolso e a urna

Entre o bolso e a urna


O bolso é um dos principais órgãos do corpo humano, é também elemento importante para as escolhas feitas nas urnas: se a perspectiva de ganhos é maior que a de perdas o eleitor tende a desejar manter o grupo que está no poder, se ocorre o contrário a tendência é a mudança. É uma simplificação tosca, óbvio, mas pode dizer algo sobre as eleições na Europa e nas Américas: em países como Brasil e Argentina a tendência é a continuidade enquanto na França, Espanha e Grécia o eleitor busca mudanças.  É um fator que não decorre de uma racionalidade econômica mas por uma sensação que pode ser de frustração, esperança ou medo, por exemplo. O bolso, entretanto, é mutável e mais volúvel que as crenças; as visões de mundo influenciam as percepções e determinam os sentimentos com uma força muito maior do que a da frágil realidade concreta dos números da economia. A derrota de Sarkozi nas últimas eleições francesas e o calvário de Obama em busca da reeleição evidenciam a força dessas visões, franceses e americanos pensam formas diferentes de Estado e desejam modos diversos de intervenção governamental; os primeiros esperam que o governo resolva seus problemas enquanto os segundos acham que ele deve não atrapalhar, não é pouco é uma diferença fundamental, temos uma sociedade que se organizou a partir do interesse público e outra que nasceu contra a estrutura estatal, uma que historicamente tentou organizar uma sociedade voltada para os interesses públicos e outra que se fundamenta no individualismo liberal. Continue lendo


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

De volta a Idade Média

De volta a Idade Média

Uma das características mais marcantes do período medieval é o controle de todas as esferas da vida pela Igreja. O poder eclesiástico dominava a vida coletiva, determinando o certo e o errado, o bom e o ruim, o justo e o injusto, o belo e o feio e tudo o mais que envolvesse ideias, crenças e comportamentos. Cinco séculos depois corremos perigo, há quem deseje a volta desse mundo! Não faltam grupos que querem impor suas verdades e dogmas religiosos para toda a sociedade, que querem dominar a vida coletiva a partir de crenças religiosas. A escolha do novo ministro da pesca indica apenas um aspecto desse perigo. Talvez seja muito afirmar que o Ministério da pesca não vale nada ou não serve para nada, mas de fato não tem nenhuma relevância política, ainda assim a escolha de Marcelo Crivella para assumir o seu comando revela algo para além do conhecido jogo de toma lá da cá que caracteriza a política nacional. Crivella fez-se ministro por seu currículo: cantor e bispo da Igreja Universal, sobrinho do poderoso Edir Macedo e líder do PRB, partido dominado pelos evangélicos da IURD. Os petistas sabem que ao lado dos bispos não estão em boa companhia, a Universal vive metida em escândalos, mas sabe que é melhor tê-los como amigos que como adversários. Sabe que Edir Macedo comanda um império que movimenta bilhões de dólares e possui um dos mais importantes conglomerados de mídia do país – com a Record como carro chefe; um poder que atrai e assusta. Essa não é a pior parte. A escolha do ministro em grande medida se deve à pressão de grupos evangélicos para que o governo se curve diante de seus interesses, dogmas e crenças. São dezenas de parlamentares que se indispõem com o executivo por serem contra importantes avanços no campo dos direitos individuais; a maioria dos líderes das mais importantes igrejas evangélicas querem um Estado teocrático que restrinja as liberdades individuais em nome de suas crenças e os principais partidos do país, tremendo de medo, se curvam como moleques no colégio interno. De fato o Brasil nunca conseguiu ter um Estado laico nem afastar a influência das religiões nos assuntos públicos e nem é o caso de se desejar que esses grupos não lutem pelo que creem e pelo que lhes possa interessar, mas é preciso que esses grupos deixem claro que desejam impor seus dogmas, que não desejam um Estado laico e que, caso a população queira se submeter a eles, o país caminhará a passos largos para voltar à Idade Média.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Lousa de vidro e cara de pau

Lousa de vidro e cara de pau


Semana sim, semana não, um político de peso escreve algo sobre a importância da educação para o futuro do país. No último sábado foi a vez de Aécio Neves vomitar sua hipocrisia. Fora do estado, a greve de professores de Minas Gerais passou despercebida, como se não fosse um assunto importante e nacional mas quem se importa minimamente com a educação não pode esquecer a greve de professores em Minas. Para além da chance (mais uma) de se discutir os rumos da educação e do país, foi esquecido um ponto fundamental: a de que o estado foi governada oito anos por Aécio Neves, mais provável candidato da oposição à presidência do país em 2014. O fato de ter descumprido a lei nacional do piso do magistério e deixado o estado com o menor piso salarial do país (616 reais por 40 horas semanais, pouco mais da metade do mínimo exigido) e de não ter cumprido a norma que fixa que um terço da jornada seja destinado a atividades extraclasse não é um bom cartão de visita para um presidenciável. É fato que nenhum professor recebe apenas o piso mas o fato de não cumprir com o mínimo mostra a importância que Aécio deu à educação em seu governo. Também não cumprem a lei do piso os estados da Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul, enquanto a lei da jornada extraclasse é descumprida por pelo menos quinze estados, entre eles Ceará, Paraná e Pernambuco e São Paulo, estado mais rico da união – e onde mais de 60% das escolas possui problemas de superlotação em pelo menos uma sala. Esses números mostram o quanto o discurso está longe da realidade, enquanto todos falam da importância da educação a maioria dos governadores não cumprem com o mínimo exigido por lei; o baixo salário dos professores (em média 40% do que ganha um profissional com o mesmo nível de escolaridade, segundo a Pnad de 2009) e as precárias condições de trabalho afastam os profissionais mais qualificados, desestimula a formação de novos e dificulta o trabalho. Falar em educação como prioridade é muito fácil levar a educação à sério ainda não. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mocinho e o bom velhinho

O mocinho e o bom velhinho

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Por pouco não acreditei em Papai Noel! Se o bom velhinho não apareceu, o Correio trouxe o presente; veja que coincidência supimpa: ganhei um livro do Gabriel Chalita, e na minha ingenuidade nem sei exatamente por quê. Nunca o vi, jamais comprei ou compraria um livro seu, mas não é que o bom mocinho soube da minha existência e resolveu me presentear? Sei que mereço até mais, entretanto, não estivesse com a alma limpa pelo espírito natalino desconfiaria; afinal não é ele um dos nomes cotados para ser um dos homens fortes do PMDB e possível candidato à prefeitura de São Paulo? Se tivesse espírito de porco (como tenho) perguntaria como ele sabe meu endereço e quem bancou o livro, afinal imagino que mais algumas dezenas de milhares de exemplares foram deixados por aí para pessoas batutas como eu. Sua literatura de quinta categoria, mistura de auto-ajuda, citações filosóficas rasas e pregações de inspiração carismáticas não me convencem, como político não se sabe exatamente a que veio: ex-pupilo de Alckmin, como secretário da educação foi um fiasco – mais um no patético descaminho da administração tucana para a educação paulista, como deputado é só mais um, mas a cara de bom moço, a fala mansa e ordenada, o discurso contido de coroinha bem treinado e o enorme tempo que possuirá na televisão fazem de Chalita um político com grande potencial de voto, não à toa foi o deputado estadual mais votado nas últimas eleições e um dos favoritos na corrida pela prefeitura paulista. Ele é tudo o que o PMDB paulista precisava, é tudo o que a cidade não precisa!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Colheita maldita

Colheita maldita
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Qual o peso de um político que se torna o principal líder da oposição  e que numa única eleição recebe mais de quarenta milhões de votos? Facilmente poderíamos dizer que seu peso é enorme, não fosse esse político José Serra. Mesmo obtendo mais de 40% dos votos nas últimas eleições presidenciais o tucano saiu fragilizado da campanha, foi abandonado pelo seu partido, que não o deseja para 2014 e só tem espaço na mídia quando aparece em velórios ou dá palpites furados sobre o Palmeiras, seu time. Não foi a campanha patética, que conseguiu desagradar mais os aliados que os inimigos, que tirou Serra do jogo, foi o seu projeto pessoal auto-centrado: Serra confia nele e em mais ninguém e por isso quer ter as rédeas do jogo e o poder concentrado em suas mãos; tudo o que os seus possíveis aliados não querem. A política não é o terreno onde se cultiva amizades mas onde se plantam alianças para se colher benefícios; Serra não cultiva amizades, não planta alianças, o estranho é entender como chegou a ser o líder da oposição – o que só é possível num partido de caciques. Se o jogo eleitoral está aberto, para a oposição ele é carta para uma outra jogada, seu caminho mais provável seria o da disputa pela prefeitura de São Paulo, onde ainda até poderia entrar como franco favorito – apesar da alta taxa de rejeição e independentemente de quem venha a ser seus adversários, ocorre que uma possível derrota seria o fim triste e melancólico de uma carreira política com ilhas de vitórias cercadas de derrotas por todos os lados e a vitória não seria mais que um prêmio de consolação para quem sonhou a vida inteira em chegar a presidência e mais uma vez teria que assistir a campanha pela televisão, forçadamente vendo sua derrota por WO.
 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tentação e decepção

Tentação e decepção
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Escrevi aqui meses atrás que o Partido Verde efetivamente não existe para além da sua sigla, que é um partido que não tem um programa que vá muito além das questões ambientais mais rasas e óbvias. Disse que a Marina Silva, sua candidata à presidência, pela sua trajetória pessoal representava aquilo que o PV sempre quis ter e não tinha, uma cara popular que o desligasse da figura classe média aburguesada ou da persona de um Fernando Gabeira cada dia mais conservador e atucanado, mas que ela era essencialmente petista e só saiu do partido a muito custo, com a promessa de que teria a candidatura assegurada. A união foi um jogo de interesses que agora chega ao fim. Por trás da imagem de bonzinhos, os verdes formam apenas mais um partido fisiológico; seus membros querem poder, cargos e benefícios e para isso estão dispostos às mais variadas trocas de favores e Marina foi um empecilho nesse jogo, embora estivesse deslocada e perdida não podia dar um passo à esquerda ou à direita sem desagradar a alguém ou sem colocar em risco os interesses oportunistas da cúpula do partido. A esperança não venceu o medo e ela capitulou, teve que sair do partido para não sucumbir com ele, com isso perde o palanque mas ganha em discurso, se conseguir uma sigla que lhe dê suporte pode voltar com alguma força, se não conseguir pode perder os holofotes da mídia e continuar escrevendo e falando apenas para os seus, caso tenha realmente algo a dizer.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Os tucanos e os muros

Os tucanos e os muros
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Dois fatos recentes marcaram a oposição tucana nos últimos meses: o primeiro discurso de Aécio neves no Senado e o artigo de Fernando Henrique Cardoso publicado na revista Interesse Nacional. O ex-governador mineiro deveria lançar as bases da oposição ao governo Dilma, não conseguiu ir longe e ficou muito distante do que se espera de um líder oposicionista; com seu ar de bom moço Aécio não empolga e no seu medo de não se comprometer não fala nada de novo, não vai além do óbvio e não diz a que veio. Fernando Henrique, ao contrário, parece ter perdido o medo de falar o que pensa, sabe que não voltará a disputar os votos dos eleitores e sabe que não deve nada aos companheiros de partido que lhe abandonaram; ainda assim é, hoje, quem na oposição parece ter algo a dizer. Segundo o ex-presidente, os tucanos devem deixar de disputar o povão com os petistas e se dedicar às classes médias. Sua análise é sensata e lógica, os mais pobres estão sim com o PT mas o que importa é que a nova classe C, a nova classe média, é quem vai decidir as próximas eleições e a questão a se saber é o quanto essa parcela da população vai atribuir sua ascensão às políticas petistas e por qual discurso ela se deixará  seduzir. 
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terça-feira, 7 de junho de 2011

A volta do mensaleiro

A volta do mensaleiro
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Nelson Gonçalves não cantaria essas frases mas a canção talvez não seja despropositada. Imagino a cena: o ex-tesoureiro petista, um dos pivôs do mensalão, cantando ao reencontrar seus amigos de partido: “Boemia, aqui me tens de regresso; e suplicante te peço a minha nova inscrição. Voltei pra rever os amigos que um dia eu deixei a chorar de alegria... Sabendo que andei distante, sei que essa gente falante vai agora ironizar: ele voltou! O Delúbio voltou novamente, partiu daqui tão contente. Por que razão quis voltar?” Sei que estrago a canção, sobretudo porque a questão que importa não se refere à vontade delubiana de voltar mas à generosidade dos companheiros em aceitá-lo. O PT sabe que pagará um preço por re-filiar Delúbio Soares, que isso desgastará o partido junto à opinião pública e que o escândalo do mensalão deverá ser julgado antes das próximas eleições presidenciais, mas ainda assim continua apostando que nada pode lhe atingir e que deve reintegrar mais um ‘suspeito’. O risco é alto, considerando que alguns dos seus principais líderes devem ser condenados e que o partido se mostra cada vez mais distante da sua antiga bandeira da ética; o mensalão deverá ser julgado no próximo ano e caberá ao governo e aos petistas o ônus de explicar à sociedade porque houve tanta complacência com a sua banda podre.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Liberdade de expressão

Liberdade de expressão
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O ilustre deputado Jair Bolsonaro se diz cristão e nacionalista; não gosta de negros, não gosta de índios, não gosta de homossexuais, não gosta de esquerdistas, não gosta de pobres... Ele não é o único, não passa um dia em que cada cidade não se vivencie ditos e atos de preconceito e intolerância, portanto suas palavras não trazem nada de surpreendente, o ex-capitão do Exército fala o que outros pensam em silêncio. Como militar defende a ditadura militar e a tortura, é só mais um. Todos conhecem sua excelência, é uma besta que não se esconde, seus eleitores conhecem suas declarações e votam nele por concordarem com suas asneiras, quanto mais expuser seus preconceitos mais votos terá. Os preconceitos do deputado chocam e agridem? Muito provavelmente! Ele deve ser calado? Não!  Poucos assumem seus preconceitos como Bolsonaro e justamente por isso ele não deve ter voz silenciada – suas palavras não apresentam nenhum argumento convincente, é um amontoado de preconceitos tolos; a liberdade de expressão é um direito, todos devem ter voz ainda que para falar coisas estúpidas ou para pronunciar palavras que tenham poder de ferir. Àqueles que se sentirem feridos a assistência das leis, mas impedir alguém de se expressar é tolher sua liberdade inutilmente.
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Com a faca e o queijo na mão

Com a faca e o queijo na mão
A menos que ocorra uma hecatombe ou uma tragédia de proporções apocalípticas, Dilma Roussef deve ser eleita a primeira presidente do país. Pelo menos um ano atrás já se discutia que isso seria quase o mais provável: ela teria o queijo e a faca na mão, só não ganharia se fizesse muito esforço para isso. A equação é muito mais simples do que qualquer previsão de mãe de santo: o governo Lula tem tachas de aprovação extraordinárias, apenas cerca de cinco por cento do eleitorado percebe seu governo como ruim ou péssimo; o atual presidente é o político mais carismático da história recente e, mais que isso, é talvez o maior mito vivo de que se tem notícia na América do Sul – Maradona talvez seja seu único concorrente. Soma-se a isso o fato de não ter havido, efetivamente, oposição ao governo nos dois últimos mandatos e a vantagem de ele ter sido antecedido por um governo que terminou em crises, inclusive de popularidade. Lula poderia eleger um fusca amarelo? Não se pode duvidar! O certo é que Dilma  e o  PT só poderia m perder para eles mesmos e todas as canalhices, abusos e bobagens dos petistas parecem ser ainda insuficientes para isso.