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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Certezas fundamentais

Certezas fundamentais
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Temos idéias prontas e com elas enxergamos o mundo, os fatos são detalhes que servem para justificar as crenças que temos; a crise econômica e política nos Estados Unidos é uma mostra de como isso funciona, mesmo nas mentes que se pensam sofisticadas. Especialistas e analistas de esquerda e de direita, de dentro e de fora, se esforçam para encaixar os acontecimentos em suas teorias e ideologias, uns afirmam que é a decadência ou mesmo o fim da supremacia americana enquanto outros reafirmam a crença na capacidade do Império, uns  sustentam que a crise tem origem na desregulamentação dos mercados e pedem mais intervenção dos governos enquanto outros tentam mostrar que a culpa é do Estado que se intromete demais. Entre o céu e a terra está o mundo palpável e nele os Estados Unidos ainda domina o jogo; o seu poder militar ainda é extraordinariamente superior ao de qualquer possível rival, seu poder ideológico, capaz de conquistar corações e mentes, é a cada dia mais hegemônico, o seu poder econômico ainda sustenta as relações entre os países, isso tudo lhe dá um poder político que está longe de definhar. Ao mesmo tempo, entretanto, temos um país em profunda crise política onde aqueles que deveriam representar os interesses da população se curvam diante dos interesses do mercado financeiro e esse mercado é refém de seus especuladores que insistem em privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Obama há muito deixou de ser esperança e mostrou-se um presidente fraco enquanto a oposição republicana a cada dia dá passos em direção ao conservadorismo fundamentalista. O cenário atual talvez evidencie apenas o crepúsculo, a escuridão ainda está por vir, enquanto isso, para nossa alegria ou tristeza, ainda teremos mais algumas décadas de domínio do Tio Sam. Quanto às certezas incertas, estas servem de conforto.
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A corda e o pescoço

A corda e o pescoço

Somos assim, na superfície tudo parece calmo, mas nas profundezas o inferno arde em chamas, pronto para explodir. Nos poços mais profundos da alma podemos perceber a engrenagem dessa máquina movida por desejos, instintos e interesses; é lá que poderemos encontrar o tênue equilíbrio entre o fogo que sustenta a vida e as chamas que nos levam à morte. Somos a espécie única de uma máquina capaz de autodestruir, apenas para nós o suicídio é uma possibilidade, como se a cada dia tivéssemos que nos responder a nós mesmos por que a vida vale a pena. Jacintha Saldanha resolveu morrer. Como tantas outras pessoas ao redor do mundo, num dia igual a qualquer outro dia decidiu dizer chega, saiu de casa, se despediu do marido e dos três filhos, escreveu três cartas de despedida foi para seu trabalho. Enfermeira, foi para o mesmo hospital onde cuidava da vida das pessoas e resolveu apelar para a tradição, amarrou uma corda no pescoço e se enforcou. Ninguém jamais poderá chegar às profundezas da sua alma, ninguém saberá seus motivos. Seria mais uma suicida, mais um número, faria parte das estatísticas, mas Jacintha havia se tornado conhecida três dias antes... Continue lendo:


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Indiferença criminosa

Indiferença criminosa

Nosso mundo é assim: algumas pessoas não importam, outras simplesmente não se importam. O valor da vida é proporcional à riqueza material e à conta bancária de cada um e quem determina isso é a nossa pobre (di)visão dos homens, nossa cumplicidade e o nosso silêncio, os que morreram ontem ou no mês passado, os que morrerão hoje ou amanhã serão da nossa conta conforme o tamanho da conta que tinham no banco, a cor da pele, o bairro onde moravam. Aqueles que morreram nas últimas semanas não importavam, talvez já nem se lembre. A cena e o roteiro eram sempre os mesmos: uma moto com dois homens encapuzados parando em frente a um grupo de jovens, tiros, alguns baleados, uns mortos, outros feridos. Quantos morreram assim ninguém vai saber, eram pobres e moravam na periferia. Os assassinos, esses nunca serão conhecidos, nunca pisarão num tribunal, jamais serão julgados. Desconfiamos de quem atirou, existem testemunhas, mas palavras de pobre ou de preto também não contam. A polícia não quer e não vai investigar e todas sabem o motivo. Quando os homens da lei esquecem as regras e agem por conta própria, quando se tornam justiceiros bancados com dinheiro público, quando formam esquadrões da morte e agem na clandestinidade ou quando atiram e matam para espalhar o terror eles fazem isso com a cumplicidade daqueles que não se importam e são esses os que importam, são esses que garantirão o silêncio e a impunidade. Continue lendo:


terça-feira, 30 de outubro de 2012

O inferno dos jornais

O inferno dos jornais

O jornalismo brasileiro se sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos: dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam a democratização da informação e são contrários às transformações e aos movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder, segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite conservadora e autoritária... continue lendo:

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O cadáver cordial

O cadáver cordial  


Nelson Rodrigues está completando um século, mais vivo do que nunca o desgraçadinho. Cem anos despertando amores e ódios intensos e eternos. Parece que hoje o respiramos em todos os ares, mas nos perfumes sublimes e não nos odores mais fétidos.  Desde o dia em que foi descansar o corpo no Cemitério do Caju, o milagre se operou, aquele que era odiado por todas as bandas passou a ser amado até pelos inimigos. Ah essa nossa canalhice! Aquele que nunca foi complacente, que nunca poupou ninguém e que atirava em todas as direções deve estar odiando saber que chega aos cem se aproximando da unanimidade; poderia ser uma rara unanimidade, precisa, inapelável e eterna como o Juízo Final, mas não, parece ser apenas mais uma unanimidade burra; a burrice se aproximou dele para torná-lo unânime. Sinal dos tempos, aquele que foi odiado, rejeitado e vaiado pela esquerda e pela direita, por conservadores e liberais, por putas e freiras, agora parece ser o defunto de casaca com cara de mordomo, querem deixá-lo livre das provocações e polêmicas, querem matá-lo. O sujeito obsceno, machista, conservador, reacionário e autoritário morreu para dar lugar a outro, o cara das frases feitas jogadas ao vento, o cadáver tranquilo que já não provoca iras e rancor. Continue lendo


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

De volta a Idade Média

De volta a Idade Média

Uma das características mais marcantes do período medieval é o controle de todas as esferas da vida pela Igreja. O poder eclesiástico dominava a vida coletiva, determinando o certo e o errado, o bom e o ruim, o justo e o injusto, o belo e o feio e tudo o mais que envolvesse ideias, crenças e comportamentos. Cinco séculos depois corremos perigo, há quem deseje a volta desse mundo! Não faltam grupos que querem impor suas verdades e dogmas religiosos para toda a sociedade, que querem dominar a vida coletiva a partir de crenças religiosas. A escolha do novo ministro da pesca indica apenas um aspecto desse perigo. Talvez seja muito afirmar que o Ministério da pesca não vale nada ou não serve para nada, mas de fato não tem nenhuma relevância política, ainda assim a escolha de Marcelo Crivella para assumir o seu comando revela algo para além do conhecido jogo de toma lá da cá que caracteriza a política nacional. Crivella fez-se ministro por seu currículo: cantor e bispo da Igreja Universal, sobrinho do poderoso Edir Macedo e líder do PRB, partido dominado pelos evangélicos da IURD. Os petistas sabem que ao lado dos bispos não estão em boa companhia, a Universal vive metida em escândalos, mas sabe que é melhor tê-los como amigos que como adversários. Sabe que Edir Macedo comanda um império que movimenta bilhões de dólares e possui um dos mais importantes conglomerados de mídia do país – com a Record como carro chefe; um poder que atrai e assusta. Essa não é a pior parte. A escolha do ministro em grande medida se deve à pressão de grupos evangélicos para que o governo se curve diante de seus interesses, dogmas e crenças. São dezenas de parlamentares que se indispõem com o executivo por serem contra importantes avanços no campo dos direitos individuais; a maioria dos líderes das mais importantes igrejas evangélicas querem um Estado teocrático que restrinja as liberdades individuais em nome de suas crenças e os principais partidos do país, tremendo de medo, se curvam como moleques no colégio interno. De fato o Brasil nunca conseguiu ter um Estado laico nem afastar a influência das religiões nos assuntos públicos e nem é o caso de se desejar que esses grupos não lutem pelo que creem e pelo que lhes possa interessar, mas é preciso que esses grupos deixem claro que desejam impor seus dogmas, que não desejam um Estado laico e que, caso a população queira se submeter a eles, o país caminhará a passos largos para voltar à Idade Média.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mocinho e o bom velhinho

O mocinho e o bom velhinho

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Por pouco não acreditei em Papai Noel! Se o bom velhinho não apareceu, o Correio trouxe o presente; veja que coincidência supimpa: ganhei um livro do Gabriel Chalita, e na minha ingenuidade nem sei exatamente por quê. Nunca o vi, jamais comprei ou compraria um livro seu, mas não é que o bom mocinho soube da minha existência e resolveu me presentear? Sei que mereço até mais, entretanto, não estivesse com a alma limpa pelo espírito natalino desconfiaria; afinal não é ele um dos nomes cotados para ser um dos homens fortes do PMDB e possível candidato à prefeitura de São Paulo? Se tivesse espírito de porco (como tenho) perguntaria como ele sabe meu endereço e quem bancou o livro, afinal imagino que mais algumas dezenas de milhares de exemplares foram deixados por aí para pessoas batutas como eu. Sua literatura de quinta categoria, mistura de auto-ajuda, citações filosóficas rasas e pregações de inspiração carismáticas não me convencem, como político não se sabe exatamente a que veio: ex-pupilo de Alckmin, como secretário da educação foi um fiasco – mais um no patético descaminho da administração tucana para a educação paulista, como deputado é só mais um, mas a cara de bom moço, a fala mansa e ordenada, o discurso contido de coroinha bem treinado e o enorme tempo que possuirá na televisão fazem de Chalita um político com grande potencial de voto, não à toa foi o deputado estadual mais votado nas últimas eleições e um dos favoritos na corrida pela prefeitura paulista. Ele é tudo o que o PMDB paulista precisava, é tudo o que a cidade não precisa!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vitória do terror

Vitória do terror
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Dez anos após os atentados de 11 de setembro o mundo ainda parece incapaz de entender o seu significado e dimensionar todas as suas conseqüências, ainda assim um fato parece gritar: não há nesse início de século qualquer homem que faça sombra em termos de importância a Osama Bin Laden, ninguém nesse período teve uma influência tão grande nos rumos do planeta quanto ele; o terrorismo venceu e o êxito da Al Qaeda foi provavelmente muito maior do eles mesmos imaginaram. Se o objetivo era espalhar o medo e o terror e com isso desestruturar a sociedade norte-americana o resultado não poderia ser melhor, em um único dia os terroristas conseguiram fazer estragos talvez maiores do que a União Soviética tenha conseguido em quatro décadas de Guerra Fria. Além de apresentar o terror aos ingênuos sobrinhos do Tio Sam, Bin Laden e seus homens contribuíram para colocar o país numa encruzilhada maniqueísta que pode levá-lo a um governo fundamentalista de direita; com a ajuda de George Bush e sua desastrada estratégia de guerra contra o terror, que consumiu mais de cinco trilhões de dólares, contribuíram decisivamente para a maior crise econômica em mais de meio século. A morte em combate só contribui para transformar o terrorista em mito, se de fato estiver no fundo do mar, o terrorista saudita deve ter muito o que comemorar pelo que conseguiu nessa última década, mas também deve agradecer e muito o apoio que teve da imprensa que contribuiu para transformar seus feitos em gigantescos espetáculos midiáticos e para transformá-lo em mito, deve agradecer ao governo Bush que fez de tudo para espalhar o medo pelo país, que inventou guerras funestas e ajudou a dividir o mundo alimentando novos inimigos por todos os seus cantos.
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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem quer manter a ordem?

Quem quer manter a ordem?

Saques, incêndios, barricadas, mais de mil presos. Para a governo é desordem, para a polícia é baderna e atividade criminosa, para a imprensa... bem a imprensa não costuma pensar, prefere repetir o discurso do governo, da polícia, de quem manda. Os protestos dos jovens ingleses começou em Tottenham após a morte Mark Duggan, líder comunitário vítima da violência policial. Óbvio, o assassinato foi apenas o estopim para uma revolta que se constrói ao longo de muitos anos, aqueles que se manifestam na rua são os mesmos que saíram às ruas para saudar o casamento do príncipe, são as vítimas do preconceito racial, da desigualdade falta de perspectiva econômica de uma sociedade em crise que se manifestam atacando aquilo que por anos lhes foi negado, são jovens que tem pouco a perder e não têm nenhuma crença na capacidade ou possibilidade de que as instituições e o poder público possam ou queiram resolver as questões que lhes doem na pele. Sobra a ironia: quando as manifestações contra o governo acorrem no oriente Médio o nome é democracia, quando as manifestações ocorrem nas cidades européias o nome é apenas vandalismo. Pode-se não perceber nada na superfície, mas nas profundezas o inferno está em chamas.


terça-feira, 14 de junho de 2011

As palavras e os fatos

As palavras e os fatos
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Não é difícil compreender o que o povo faz nas ruas ou porque está ali, mas de um lado se põem as causas e de outro as conseqüências. Não é simples entender o que se passa no Oriente Médio mas a imprensa internacional não se cansou de chamar as diversas manifestações de revolução árabe; como alguém que está a milhares de quilômetros do túmulo de Tutancâmon e que jamais sentiu nos olhos o doce ardor das areias do deserto líbio arrisco a afirmar que ali ocorreu qualquer coisa que não seja uma revolução. Se não quisermos banalizar o termo e pensarmos revolução com sinônimo de transformação profunda temos que buscar outro adjetivo. Os árabes não querem transformações profundas, não querem um outro mundo, outra realidade, e nem têm utopias. Se saem às ruas é por desilusão, a esperança é ter governos menos corruptos e autoritários, uma economia que possibilite mais consumo e se possível um pouquinho de liberdade política em gotas bem dosadas. A saída dos velhos ditadores não representa nenhuma grande mudança de rumo no oriente Médio. No Egito, por exemplo, Mubarak sairá do poder como que sai para férias vitalícias, em seu lugar assumirá o poder os mesmos militares que lhe garantiram o poder durante três décadas e o Estado continuará ocupado pelas mesmas forças que lhe foram fiéis desde sempre e a estrutura social egípcia continuará na forma e no conteúdo semelhante às antigas pirâmides.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Com a faca e o queijo na mão

Com a faca e o queijo na mão
A menos que ocorra uma hecatombe ou uma tragédia de proporções apocalípticas, Dilma Roussef deve ser eleita a primeira presidente do país. Pelo menos um ano atrás já se discutia que isso seria quase o mais provável: ela teria o queijo e a faca na mão, só não ganharia se fizesse muito esforço para isso. A equação é muito mais simples do que qualquer previsão de mãe de santo: o governo Lula tem tachas de aprovação extraordinárias, apenas cerca de cinco por cento do eleitorado percebe seu governo como ruim ou péssimo; o atual presidente é o político mais carismático da história recente e, mais que isso, é talvez o maior mito vivo de que se tem notícia na América do Sul – Maradona talvez seja seu único concorrente. Soma-se a isso o fato de não ter havido, efetivamente, oposição ao governo nos dois últimos mandatos e a vantagem de ele ter sido antecedido por um governo que terminou em crises, inclusive de popularidade. Lula poderia eleger um fusca amarelo? Não se pode duvidar! O certo é que Dilma  e o  PT só poderia m perder para eles mesmos e todas as canalhices, abusos e bobagens dos petistas parecem ser ainda insuficientes para isso.