Mostrando postagens com marcador Democracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Democracia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de março de 2013

Tanto anjos quanto demônios

Tanto anjos quanto demônios

A centralização do poder e o fortalecimento do Estado com suas forças repressivas serviram para aumentar a segurança da sociedade, para garantir a paz interna das nações e proporcionar a ‘vida menos solitária, pobre, sórdida embrutecida e curta’, para usar a expressão de Hobbes, seu grande defensor. Contudo, se o poder do Estado foi capaz de domar a natureza humana, como sugere Steven Pinker (ver post anterior) e impor paz entre os homens, reduzindo o constante temor ante o perigo da morte violenta, ele próprio se torna o detentor da violência, que, antes dispersa entre os homens, agora ganha corpo e poder extraordinário. O Estado e as forças atreladas a ele foram nos últimos séculos os grandes executores da violência, num grau talvez jamais visto no passado. Independente do regime, da forma de organização econômica, da participação popular e dos detentores do poder o que se viu por todos os cantos do planeta foi o uso do poder do Estado para crimes em massa, de assassinatos e deportações, a campos de concentração e genocídios. A resolução dos conflitos, antes no olho por olho, dente por dente, passaram a ser mediados pela esfera política onde vence quem detém o poder estatal. A violência está na base do Estado e essa violência que permite sua existência é constantemente voltada para determinadas parcelas dos seus súditos, mulheres e homens que, ao menos na teoria, abriram mão do seu poder individual e da capacidade de auto-defesa para dar a essa força que os constrange o poder para proteger suas vidas e garantir a paz.
  

terça-feira, 3 de julho de 2012

O fim de uma era

O fim de uma era  


The Old Firm, é assim que se chama uma das mais importantes batalhas campais da história, o clássico escocês entre Celtic e Rangers, para muitos a maior rivalidade do futebol mundial. É mais que isso! Quem ainda acha que futebol é um apenas um esporte, dificilmente poderá entender o peso da batalha e a história que entra no gramado ou se instala nas arquibancadas a cada partida. No futebol a rivalidade começou no século XIX ,mas, como diria tio Nelson, o mais provável é que a disputa tenha começado quarenta minutos antes do nada. Nos estádios de Glasgow é comum se ouvir cantos que relembram batalhas ocorridas a mais de quatrocentos anos, como as que se referem ao massacre de católicos ocorrido durante a reforma protestante, e gritos que mostram uma Escócia dividida pela política e pela religião.  O Celtic foi fundado dentro da pobre e católica comunidade irlandesa, daí o verde do uniforme e o trevo como símbolo, por oposição o Rangers se firmou como o time dos britânicos e protestantes e por quase de cem anos nenhum católico pôde jogar na equipe; ser torcedor do Celtic significa ser católico, ser contra o Reino Unido e contra a Rainha, significa fazer parte de uma minoria historicamente discriminada, oprimida e pobre, não por acaso o clube é amado também por irlandeses e ainda por grupos libertários e esquerdistas de toda a Europa. Continue lendo
 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O grito das ruas

O grito das ruas


O ano de 2011 foi marcado pelas manifestações políticas nas ruas de cidades ao redor do mundo. Da praça Tahrir no Cairo a Wall Street em Nova York, das ruas de Londres a capital chilena. Em Israel, Espanha, Índia, Líbia, Grécia e nos cafundós do Judas as ruas foram tomadas por multidões em busca de mudanças maiores ou menores. Não há uma pauta de reivindicações que una esses manifestantes, existe, contudo, alguns pontos que permitem pensar uma certa unidade entre esses fenômenos; o primeiro, e talvez mais importante, é o fato da desconfiança e descrença generalizada nas regras do jogo e na política institucionalizada, mesmo aqueles que reivindicam a democracia representativa se mostram com um pé atrás em relação aos políticos e partidos tradicionais; o segundo é a centralidade da questão da desigualdade econômica, a afirmação de que a plenitude dos direitos e a própria possibilidade democrática só é possível com a redução das desigualdades econômicas; o terceiro é o uso das novas tecnologias que permitem novas formas de comunicação; o acesso à Internet e a utilização das redes sociais possibilitaram a mobilização rápida e um novo sistema de organização. Em grande medida esses acontecimentos remetam às manifestações ocorridas no início da década de 1990, chamadas pela grande mídia como movimento anti-globalização, que foram sufocadas após os atentados de 11 de setembro. Essas manifestações apontam para novas formas de organização política, muito mais difusa, menos coesa e mais pontual, portanto menos ideológica, porém mais forte, pois se forma numa nova forma de poder: aquele mesmo relacionado à comunicação e à formação da opinião pública mas agora menos atrelado à grande imprensa e às grandes corporações que controlam os meios de comunicação de massa.
 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vitória do terror

Vitória do terror
.

Dez anos após os atentados de 11 de setembro o mundo ainda parece incapaz de entender o seu significado e dimensionar todas as suas conseqüências, ainda assim um fato parece gritar: não há nesse início de século qualquer homem que faça sombra em termos de importância a Osama Bin Laden, ninguém nesse período teve uma influência tão grande nos rumos do planeta quanto ele; o terrorismo venceu e o êxito da Al Qaeda foi provavelmente muito maior do eles mesmos imaginaram. Se o objetivo era espalhar o medo e o terror e com isso desestruturar a sociedade norte-americana o resultado não poderia ser melhor, em um único dia os terroristas conseguiram fazer estragos talvez maiores do que a União Soviética tenha conseguido em quatro décadas de Guerra Fria. Além de apresentar o terror aos ingênuos sobrinhos do Tio Sam, Bin Laden e seus homens contribuíram para colocar o país numa encruzilhada maniqueísta que pode levá-lo a um governo fundamentalista de direita; com a ajuda de George Bush e sua desastrada estratégia de guerra contra o terror, que consumiu mais de cinco trilhões de dólares, contribuíram decisivamente para a maior crise econômica em mais de meio século. A morte em combate só contribui para transformar o terrorista em mito, se de fato estiver no fundo do mar, o terrorista saudita deve ter muito o que comemorar pelo que conseguiu nessa última década, mas também deve agradecer e muito o apoio que teve da imprensa que contribuiu para transformar seus feitos em gigantescos espetáculos midiáticos e para transformá-lo em mito, deve agradecer ao governo Bush que fez de tudo para espalhar o medo pelo país, que inventou guerras funestas e ajudou a dividir o mundo alimentando novos inimigos por todos os seus cantos.
.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando

Uma série de manifestações tem ocorrido no Chile nos últimos meses para protestar contra o modelo de sistema educacional adotado no país. Grande parte das instituições de ensino secundário e superior está parada a pelo menos três meses, grandes protestos de rua, conflitos com a polícia, centenas de presos e alunos em greve de fome. O contraponto à revolta dos chilenos é a apatia bovina dos estudantes brasileiros. As avaliações internacionais mostram que o sistema chileno quando comparado ao brasileiro tem qualidade ainda muito superior e a porcentagem de jovens universitários também é maior por lá. Com reformas que vêm da ditadura Pinochet, o Chile é um dos países que mais longe levou o processo de privatização do ensino: na prática o governo sustenta boa parte do sistema educacional privado pagando, através de bônus – os vouchers – a permanência dos estudantes nas escolas e universidades. Como o bônus nem sempre é suficiente, os estudantes mais pobres usam esses recursos para pagar instituições mais baratas e de baixa qualidade enquanto os mais ricos os complementam para estudar nas melhores, bem mais caras; esse sistema não apenas reproduz como aumenta as já enormes desigualdades sociais. Os manifestantes, que contam com o apoio da maioria da população, exigem o fim desse sistema e pedem que os recursos públicos sejam destinados às instituições públicas e que o ensino seja gratuito e de boa qualidade para todos, se opondo ao governo que se recusa a rever essa política. Enquanto isso na Terra Brazilis o sistema educacional que segrega e cria ilusões individualistas continua indo de mal a pior mas com total aprovação dos jovens, que se contentam com qualquer coisa e ainda batem palmas. Talvez seja na capacidade de bater palmas que os estudantes brasileiros se diferenciem dos bois.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem quer manter a ordem?

Quem quer manter a ordem?

Saques, incêndios, barricadas, mais de mil presos. Para a governo é desordem, para a polícia é baderna e atividade criminosa, para a imprensa... bem a imprensa não costuma pensar, prefere repetir o discurso do governo, da polícia, de quem manda. Os protestos dos jovens ingleses começou em Tottenham após a morte Mark Duggan, líder comunitário vítima da violência policial. Óbvio, o assassinato foi apenas o estopim para uma revolta que se constrói ao longo de muitos anos, aqueles que se manifestam na rua são os mesmos que saíram às ruas para saudar o casamento do príncipe, são as vítimas do preconceito racial, da desigualdade falta de perspectiva econômica de uma sociedade em crise que se manifestam atacando aquilo que por anos lhes foi negado, são jovens que tem pouco a perder e não têm nenhuma crença na capacidade ou possibilidade de que as instituições e o poder público possam ou queiram resolver as questões que lhes doem na pele. Sobra a ironia: quando as manifestações contra o governo acorrem no oriente Médio o nome é democracia, quando as manifestações ocorrem nas cidades européias o nome é apenas vandalismo. Pode-se não perceber nada na superfície, mas nas profundezas o inferno está em chamas.


terça-feira, 14 de junho de 2011

As palavras e os fatos

As palavras e os fatos
.
Não é difícil compreender o que o povo faz nas ruas ou porque está ali, mas de um lado se põem as causas e de outro as conseqüências. Não é simples entender o que se passa no Oriente Médio mas a imprensa internacional não se cansou de chamar as diversas manifestações de revolução árabe; como alguém que está a milhares de quilômetros do túmulo de Tutancâmon e que jamais sentiu nos olhos o doce ardor das areias do deserto líbio arrisco a afirmar que ali ocorreu qualquer coisa que não seja uma revolução. Se não quisermos banalizar o termo e pensarmos revolução com sinônimo de transformação profunda temos que buscar outro adjetivo. Os árabes não querem transformações profundas, não querem um outro mundo, outra realidade, e nem têm utopias. Se saem às ruas é por desilusão, a esperança é ter governos menos corruptos e autoritários, uma economia que possibilite mais consumo e se possível um pouquinho de liberdade política em gotas bem dosadas. A saída dos velhos ditadores não representa nenhuma grande mudança de rumo no oriente Médio. No Egito, por exemplo, Mubarak sairá do poder como que sai para férias vitalícias, em seu lugar assumirá o poder os mesmos militares que lhe garantiram o poder durante três décadas e o Estado continuará ocupado pelas mesmas forças que lhe foram fiéis desde sempre e a estrutura social egípcia continuará na forma e no conteúdo semelhante às antigas pirâmides.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Amigos e inimigos

Amigos e inimigos
.
No mundo real as relações políticas são, via de regra, baseadas em interesses, a partir da distinção entre amigos e inimigos – expressões usadas no seu sentido raso, sem nenhuma relação com a sofisticada formulação de Carl Schmitt – pensador alemão do século 20. Nesse campo fluido o amigo e o inimigo são definidos pelas circunstâncias e o aliado de hoje é o inimigo de amanhã e vice-versa; lemos isso nos acontecimentos no Oriente Médio, nas figuras de kadaffi, Mubarak ou Sadam Hussein. Para o ocidente, o presidente líbio Muamar Kadaffi já inimigo, virou amigo e agora volta a ser inimigo. Tido como aliado e patrocinador de terroristas nos anos 80, ganhou reconhecimento a partir dos anos noventa e levou a Líbia a ser representante do Conselho de Direitos Humanos na ONU, é hoje o inimigo da vez. Mubarak, presidente egípcio por três décadas, foi aliado fiel dos Estados Unidos até ganhar cartão vermelho do povo e da diplomacia americana. Sadam foi patrocinado pelo governo americano por mais de duas décadas até ser declarado inimigo número um. Nada de ideologias ou princípios, todos preferem ter um ditador como aliado que um democrata como concorrente. Arábia Saudita e Jordânia sempre foram regimes tão ou mais fechados que Irã, Iraque ou Líbia, mas seus monarcas são aliados do ocidente, fazem o jogo das grandes potências e abaixam a cabeça enquanto estendem as mãos ao grande império: são amigos, enquanto não arrumarem encrencas que os comprometam.
.