A miséria e a filosofia
É provável que em nenhum outro lugar do mundo se
venda tantos livros de filosofia quanto no Brasil, é possível que a cada década
se venda por aqui mais livros de Kant ou Hegel que em toda a história da
Alemanha. Os grandes clássicos do pensamento ocidental podem ser encontrados em
cada esquina, nas livrarias de aeroportos e rodoviárias, nas lojas dos shopping
centers ou nas bancas de jornal. Todos citam, curtem e compartilham frases de
Nietzsche e Schopenhauer como quem canta e repete os refrões de um samba
enredo, nos enganando pensamos ser maquiavélicos e imaginamos sofrer com amores
platônicos. As frases soltas, desconexas e sem sentido infestam o ar exalando o perfume da tolice mal disfarçada. Esse país de filosofia parece não ser aquele mesmo em que um terço
dos universitários não consegue compreender os textos que leem ou o país que
tem um terço dos adultos em situação de analfabetismo funcional nem o país que
tem um dos piores sistemas educacionais do mundo. Mas é; e talvez esteja na
nossa ignorância a explicação para o nosso consumismo filosófico. Nós desejamos
consumir por status, para fingir ser o que não somos, para aparentar ter o que
não temos, assim como os miseráveis que desejam comprar produtos de grife e celulares de
última geração uma certa classe média quer consumir o que lhe dê uma aparência
culta, quando percebe a miséria do seu capital cultural ela consome marcas
filosóficas como se fossem etiquetas. Continue lendo:
