O suicídio e a vida
Jéssica decidiu morrer; para ser
mais exato decidiu desistir da vida. Vítima de transtornos alimentares desde a
infância, anoréxica em situação de magreza extrema, a mais de um ano ela não
come alimentos sólidos esperando se livrar das dores que lhe atormentam o corpo
e a alma. Hoje, aos 32 anos, ela vive em estado deplorável e certamente já não
lembre aquela moça inteligente e simpática que estudou medicina por acreditar
na vida quando ainda conseguia não apenas sorrir com seus prazeres mas também
lutar para que outros sofressem menos. Pouco mais de três décadas foram o
bastante para acumular problemas, sofrimentos e angústias suficientes para que
simplesmente decidisse escolher ou aceitar a morte, seu último ou único desejo.
Poderia como outros ter escolhido a hora e local, poderia ter se jogado da
ponte, tomado veneno, escolhido a arma e a munição, mas escolheu a morte lenta,
decidiu apenas se entregar, se deixar tomar. Por amor e piedade seus pais e
amigos entenderam e respeitaram essa vontade e tudo chegaria ao fim dignamente
não fosse uma decisão judicial. Jéssica, que na verdade não tem esse nome, não
poderá levar a cabo seu último ou único desejo, deverá ser obrigada a se
alimentar por ordem da justiça; seu destino foi decidido num tribunal, na
cabeça de um juiz, um representante do Estado que não viveu sua vida, não
sentiu suas dores nem partilhou suas angústias ou sofrimentos. Continue lendo
