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terça-feira, 7 de junho de 2016

Roubar livros, cultivar o amor

Roubar livros, cultivar o amor

Estão todos ali, perfilados, imóveis, esperando um gesto, um toque, um pouco de atenção. Concentrados em seus campos, cada um deles com seu número, lugar determinado e marcas de carimbo, cada um com sua ficha através das quais eles podem ser encontrados, ordenados e rotulados. Nos seus corpos uma história, talvez uma vida. São centenas, milhares, quase empilhados, todos em silêncio sepulcral mas vivos e prontos para nos mostrar um mundo. Um ao lado do outro, estão ali desejando um toque, uma escolha, um chamado, como as moças que no salão de baile esperavam um convite para uma dança. Eles te olham como quem, cheio de más intenções, pudessem dizer: me leve para sua casa, me tenha em suas mãos, me guarde em sua mente, me deixe te dar prazer, me deixe fazer parte da sua vida. São livros, presos em bibliotecas como crianças depositadas em orfanatos, não desejam muito, querem apenas um pouco de atenção, um olhar, uma mão estendida, desejam ser percebidos, querem que cada um de nós, humanos, possa reconhecer que eles têm vida em suas páginas e que elas podem de algum modo nos ser úteis. Em cada palavra e cada verbo há uma pulsação, em cada frase de cada capítulo um amontoado de sentidos e sentimentos. Não há crueldade mais vil que a do canalha que não se comove com a solidão de um livro abandonado, esquecido em estantes frias de corredores vazio ou da indiferença em relação às angustias daqueles que não aceitam ser somente um número, dos que não desejam ter um preço, dos que não querem ser mercadoria. Continue lendo


terça-feira, 30 de outubro de 2012

O inferno dos jornais

O inferno dos jornais

O jornalismo brasileiro se sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos: dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam a democratização da informação e são contrários às transformações e aos movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder, segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite conservadora e autoritária... continue lendo:

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Minha Boca e seus olhos

Minha Boca e seus olhos

Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos, assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo de ver o homem e o mundo. Continue lendo