Estão todos ali, perfilados, imóveis, esperando um gesto, um toque, um pouco
de atenção. Concentrados em seus campos, cada um deles com seu número, lugar
determinado e marcas de carimbo, cada um com sua ficha através das quais eles
podem ser encontrados, ordenados e rotulados. Nos seus corpos uma história,
talvez uma vida. São centenas, milhares, quase empilhados, todos em silêncio
sepulcral mas vivos e prontos para nos mostrar um mundo. Um ao lado do outro,
estão ali desejando um toque, uma escolha, um chamado, como as moças que no
salão de baile esperavam um convite para uma dança. Eles te olham como quem,
cheio de más intenções, pudessem dizer: me leve para sua casa, me tenha em suas
mãos, me guarde em sua mente, me deixe te dar prazer, me deixe fazer parte da
sua vida. São livros, presos em bibliotecas como crianças depositadas em
orfanatos, não desejam muito, querem apenas um pouco de atenção, um olhar, uma
mão estendida, desejam ser percebidos, querem que cada um de nós, humanos,
possa reconhecer que eles têm vida em suas páginas e que elas podem de algum
modo nos ser úteis. Em cada palavra e cada verbo há uma pulsação, em cada frase
de cada capítulo um amontoado de sentidos e sentimentos. Não há crueldade mais
vil que a do canalha que não se comove com a solidão de um livro abandonado,
esquecido em estantes frias de corredores vazio ou da indiferença em relação às
angustias daqueles que não aceitam ser somente um número, dos que não desejam
ter um preço, dos que não querem ser mercadoria. Continue lendo
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terça-feira, 7 de junho de 2016
terça-feira, 30 de outubro de 2012
O inferno dos jornais
O inferno dos jornais
O jornalismo brasileiro se
sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque
finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque
imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da
superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande
imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses
do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos:
dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias
políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de
plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam
a democratização da informação e são contrários às transformações e aos
movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder,
segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava
série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história
saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e
sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite
conservadora e autoritária... continue lendo:
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Minha Boca e seus olhos
Minha Boca e seus olhos
Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito
que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode
colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias
que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as
minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que
arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades
cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu
não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme
baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos,
assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que
o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo
motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora
estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as
décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo
meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de
companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo
de ver o homem e o mundo. Continue lendo


