Estão todos ali, perfilados, imóveis, esperando um gesto, um toque, um pouco
de atenção. Concentrados em seus campos, cada um deles com seu número, lugar
determinado e marcas de carimbo, cada um com sua ficha através das quais eles
podem ser encontrados, ordenados e rotulados. Nos seus corpos uma história,
talvez uma vida. São centenas, milhares, quase empilhados, todos em silêncio
sepulcral mas vivos e prontos para nos mostrar um mundo. Um ao lado do outro,
estão ali desejando um toque, uma escolha, um chamado, como as moças que no
salão de baile esperavam um convite para uma dança. Eles te olham como quem,
cheio de más intenções, pudessem dizer: me leve para sua casa, me tenha em suas
mãos, me guarde em sua mente, me deixe te dar prazer, me deixe fazer parte da
sua vida. São livros, presos em bibliotecas como crianças depositadas em
orfanatos, não desejam muito, querem apenas um pouco de atenção, um olhar, uma
mão estendida, desejam ser percebidos, querem que cada um de nós, humanos,
possa reconhecer que eles têm vida em suas páginas e que elas podem de algum
modo nos ser úteis. Em cada palavra e cada verbo há uma pulsação, em cada frase
de cada capítulo um amontoado de sentidos e sentimentos. Não há crueldade mais
vil que a do canalha que não se comove com a solidão de um livro abandonado,
esquecido em estantes frias de corredores vazio ou da indiferença em relação às
angustias daqueles que não aceitam ser somente um número, dos que não desejam
ter um preço, dos que não querem ser mercadoria. Continue lendo
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terça-feira, 7 de junho de 2016
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Amor de infância
Amor de infância
Tive um grande amor aos doze anos, se chamada Tetéia. Sei que nessa idade todos nós temos desses amores estranhos, inexplicáveis e impossíveis, sei que fui só mais um, mas também sei que a frieza estatística é sempre inútil para explicar o que cada um de nós pode sentir e levar no coração. Foi dessas paixões que ardem em chamas e incendeiam o sangue, das que não morrem e se eternizam em lembranças vivas. Lembro e vivo na memória o seu cheiro, o brilho dos seus olhos, a sua boca; sua extraordinária boca! A cada passo seu eu suspirava, desejando transformar o etéreoem eterno. Amor não
correspondido, ela nunca me deu bola, eu era só mais um entre centenas de fãs
que a visitavam todos as semanas. Durante meses cabulei aulas de matemática,
história e ciências para atravessar a cidade e vê-la nadar... ou comer capim. Com
mais de três metros e quase quatro toneladas, de pura formosura, Tetéia era
doce e bela como só a mais encantadora hipopótamo poderia ser. Era a
rainha-deusa do zoológico e era mais, era sonho. Nosso maior poeta diria que era
luz, raio, estrela e luar! Mas como as manhãs de Sol, depois delas vieram
outras, paixões humanas e não humanas. Passei a visitar outros parques, por
anos não a vi a não ser em
sonhos. Continue lendo...
Tive um grande amor aos doze anos, se chamada Tetéia. Sei que nessa idade todos nós temos desses amores estranhos, inexplicáveis e impossíveis, sei que fui só mais um, mas também sei que a frieza estatística é sempre inútil para explicar o que cada um de nós pode sentir e levar no coração. Foi dessas paixões que ardem em chamas e incendeiam o sangue, das que não morrem e se eternizam em lembranças vivas. Lembro e vivo na memória o seu cheiro, o brilho dos seus olhos, a sua boca; sua extraordinária boca! A cada passo seu eu suspirava, desejando transformar o etéreo
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Meus dois talentos
Meus dois talentos
Não sou dessas pessoas que assistem diversas vezes a um mesmo filme, na maioria das vezes tenho dificuldade para me concentrar o suficiente para chegar ao final de um filme médio. Foi por motivos profissionais que assisti Preciosa: uma história de esperança por mais de meia dúzia de vezes e por conta disso tenho na cabeça algumas de suas cenas; lembro a voz da professora perguntando a suas alunas: o que você faz bem? Todo mundo é bom em alguma coisa. Sim, desde que crianças tentamos ser bons em algumas coisas e, por vezes, desejamos descobrir que somos ou poderemos ser bons em algo. Tenho dois talentos: titubeio e procrastino, sou bom nisso, bom titubeante e procrastinador. Sei que em geral as pessoas não vêem isso como qualidade, o que, em minha defesa, tenho que contestar: titubeia aquele que carrega mais dúvidas que certeza e, como é de conhecimento geral, isso se não é virtude ao menos trouxe menos prejuízos para a história da humanidade do que do que homens com certezas. A certeza sim é um mal, Hitler e Pol Pot tinham as suas, todo fanático tem suas certezas e aqueles que querem impor suas verdades a outros jamais questionam, duvidam ou se sentem indecisos;esses também não costumam adiar seus atos. Sim, eu procrastino! Não apenas como conseqüência, óbvia, do titubear constante mas também como busca por auto-desenvolvimento ou complacência: demorar, deixar pra depois ou adiar é também uma busca por aperfeiçoamento: se acredito na minha evolução tenho necessariamente que acreditar que na próxima semana terei condições de fazer coisas melhores do que aquelas que faria hoje, por isso não deixo para amanhã o que posso fazer depois de amanhã. Essas qualidades extraordinárias que me colocam entre os melhores nessas artes me fizeram abandonar esse blog, com esse texto tentarei voltar a escrever, seja por teimosia ou pura falta de caráter!
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Ódio, cicatrizes da alma
Ódio, cicatrizes da alma
Eu vou para o inferno, eu sei. Serei condenado por não ser capaz de um perdão sincero. Minha sinceridade me condena, por isso não posso nem ser salvo e nem me dizer cristão, como, aliás, fazem os hipócritas. Não posso rezar palavras vazias como fazem aqueles que repetem a oração, não posso pedir para ‘Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. Não, não perdoamos porra nenhuma! Quando Jesus quis ensinar os homens a rezar, talvez não tenha imaginado que para Deus essa frase pudesse ser dura de ouvir; sabe o Senhor que essas palavras, quase que invariavelmente, exalam o fétido odor da hipocrisia que domina as almas daqueles que por tradição ou falta de opção se dizem cristãos. Para a maioria dos homens, desejar que Deus dê o mesmo tipo de perdão a que alcança nossos corações é pedir por condenação. Sou um desses que até são capazes de acreditar em algum tipo de arrependimento, mas ainda assim não tenho a mínima capacidade de perdoar sinceramente, seja por inspiração demoníaca ou pura falta da divina graça, minha crença é a de que as feridas da alma não se curam e que mesmo quando já não causam as mesmas dores deixam as cicatrizes e que essas são apenas disfarces superficiais para talvez esconder as pequenas hemorragias internas que nos acompanharam até nossa última hora... continue lendo
Eu vou para o inferno, eu sei. Serei condenado por não ser capaz de um perdão sincero. Minha sinceridade me condena, por isso não posso nem ser salvo e nem me dizer cristão, como, aliás, fazem os hipócritas. Não posso rezar palavras vazias como fazem aqueles que repetem a oração, não posso pedir para ‘Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’. Não, não perdoamos porra nenhuma! Quando Jesus quis ensinar os homens a rezar, talvez não tenha imaginado que para Deus essa frase pudesse ser dura de ouvir; sabe o Senhor que essas palavras, quase que invariavelmente, exalam o fétido odor da hipocrisia que domina as almas daqueles que por tradição ou falta de opção se dizem cristãos. Para a maioria dos homens, desejar que Deus dê o mesmo tipo de perdão a que alcança nossos corações é pedir por condenação. Sou um desses que até são capazes de acreditar em algum tipo de arrependimento, mas ainda assim não tenho a mínima capacidade de perdoar sinceramente, seja por inspiração demoníaca ou pura falta da divina graça, minha crença é a de que as feridas da alma não se curam e que mesmo quando já não causam as mesmas dores deixam as cicatrizes e que essas são apenas disfarces superficiais para talvez esconder as pequenas hemorragias internas que nos acompanharam até nossa última hora... continue lendo



