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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Certezas fundamentais

Certezas fundamentais
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Temos idéias prontas e com elas enxergamos o mundo, os fatos são detalhes que servem para justificar as crenças que temos; a crise econômica e política nos Estados Unidos é uma mostra de como isso funciona, mesmo nas mentes que se pensam sofisticadas. Especialistas e analistas de esquerda e de direita, de dentro e de fora, se esforçam para encaixar os acontecimentos em suas teorias e ideologias, uns afirmam que é a decadência ou mesmo o fim da supremacia americana enquanto outros reafirmam a crença na capacidade do Império, uns  sustentam que a crise tem origem na desregulamentação dos mercados e pedem mais intervenção dos governos enquanto outros tentam mostrar que a culpa é do Estado que se intromete demais. Entre o céu e a terra está o mundo palpável e nele os Estados Unidos ainda domina o jogo; o seu poder militar ainda é extraordinariamente superior ao de qualquer possível rival, seu poder ideológico, capaz de conquistar corações e mentes, é a cada dia mais hegemônico, o seu poder econômico ainda sustenta as relações entre os países, isso tudo lhe dá um poder político que está longe de definhar. Ao mesmo tempo, entretanto, temos um país em profunda crise política onde aqueles que deveriam representar os interesses da população se curvam diante dos interesses do mercado financeiro e esse mercado é refém de seus especuladores que insistem em privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Obama há muito deixou de ser esperança e mostrou-se um presidente fraco enquanto a oposição republicana a cada dia dá passos em direção ao conservadorismo fundamentalista. O cenário atual talvez evidencie apenas o crepúsculo, a escuridão ainda está por vir, enquanto isso, para nossa alegria ou tristeza, ainda teremos mais algumas décadas de domínio do Tio Sam. Quanto às certezas incertas, estas servem de conforto.
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terça-feira, 19 de março de 2013

Nem anjos nem demônios

Nem anjos nem demônios

The Better Angels of Our Nature, último livro de Steven Pinker é uma obra interessante; menos pelas suas conclusões que pelo enorme conjunto dados que apresenta. A obra analisa algumas das diversas formas  de violência utilizadas pelos homens ao longo da história para mostrar como a humanidade nunca foi tão pacífica quanto é hoje. Psicólogo e lingüista polêmico, professor de Harvard e pop star da ciência, Pinker passou décadas se esforçando para mostrar evidências de algo que as ciências humanas tem se empenhado para provar que não existe: uma natureza humana independente das culturas e capaz de determinar boa parte do comportamento humano (ideia presente na teoria política clássica em autores como Maquiavel, Hobbes e Rousseau). Não é exatamente o que fez dessa vez; ao mostrar que no século XXI temos menos guerras, genocídios, assassinatos, torturas e agressões físicas que em qualquer outro período da humanidade (inclusive quando comparamos as sociedades atuais com sociedades da antiguidade clássica e a povos indígenas) ele acaba por evidenciar tanto o papel das instituições quanto das ideias – sobretudo políticas! Segundo ele, por exemplo, na Idade Média o número de homicídios na Europa era mais de trinta vezes maior que o de hoje naquele período um em cada quatro nobres ingleses morria de forma violenta, considerando que as doenças eram muito mais letais, o número impressiona. Estranhamente, a tese dá sustentação às ideias de pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes, que acreditavam que a centralização do poder, o fortalecimento do Estado e de suas forças repressivas poderiam aumentar o grau de segurança e paz ainda que a natureza humana fosse imutável, mas também aos iluministas, à defesa da racionalidade como parâmetro para resolução de conflitos, à prerrogativa de árbitros neutros, controle dos instintos, o sentido moral e a empatia enquanto vinculação do caráter humano à defesa dos mais fracos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A corda e o pescoço

A corda e o pescoço

Somos assim, na superfície tudo parece calmo, mas nas profundezas o inferno arde em chamas, pronto para explodir. Nos poços mais profundos da alma podemos perceber a engrenagem dessa máquina movida por desejos, instintos e interesses; é lá que poderemos encontrar o tênue equilíbrio entre o fogo que sustenta a vida e as chamas que nos levam à morte. Somos a espécie única de uma máquina capaz de autodestruir, apenas para nós o suicídio é uma possibilidade, como se a cada dia tivéssemos que nos responder a nós mesmos por que a vida vale a pena. Jacintha Saldanha resolveu morrer. Como tantas outras pessoas ao redor do mundo, num dia igual a qualquer outro dia decidiu dizer chega, saiu de casa, se despediu do marido e dos três filhos, escreveu três cartas de despedida foi para seu trabalho. Enfermeira, foi para o mesmo hospital onde cuidava da vida das pessoas e resolveu apelar para a tradição, amarrou uma corda no pescoço e se enforcou. Ninguém jamais poderá chegar às profundezas da sua alma, ninguém saberá seus motivos. Seria mais uma suicida, mais um número, faria parte das estatísticas, mas Jacintha havia se tornado conhecida três dias antes... Continue lendo:


terça-feira, 3 de julho de 2012

O fim de uma era

O fim de uma era  


The Old Firm, é assim que se chama uma das mais importantes batalhas campais da história, o clássico escocês entre Celtic e Rangers, para muitos a maior rivalidade do futebol mundial. É mais que isso! Quem ainda acha que futebol é um apenas um esporte, dificilmente poderá entender o peso da batalha e a história que entra no gramado ou se instala nas arquibancadas a cada partida. No futebol a rivalidade começou no século XIX ,mas, como diria tio Nelson, o mais provável é que a disputa tenha começado quarenta minutos antes do nada. Nos estádios de Glasgow é comum se ouvir cantos que relembram batalhas ocorridas a mais de quatrocentos anos, como as que se referem ao massacre de católicos ocorrido durante a reforma protestante, e gritos que mostram uma Escócia dividida pela política e pela religião.  O Celtic foi fundado dentro da pobre e católica comunidade irlandesa, daí o verde do uniforme e o trevo como símbolo, por oposição o Rangers se firmou como o time dos britânicos e protestantes e por quase de cem anos nenhum católico pôde jogar na equipe; ser torcedor do Celtic significa ser católico, ser contra o Reino Unido e contra a Rainha, significa fazer parte de uma minoria historicamente discriminada, oprimida e pobre, não por acaso o clube é amado também por irlandeses e ainda por grupos libertários e esquerdistas de toda a Europa. Continue lendo
 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Entre o bolso e a urna

Entre o bolso e a urna


O bolso é um dos principais órgãos do corpo humano, é também elemento importante para as escolhas feitas nas urnas: se a perspectiva de ganhos é maior que a de perdas o eleitor tende a desejar manter o grupo que está no poder, se ocorre o contrário a tendência é a mudança. É uma simplificação tosca, óbvio, mas pode dizer algo sobre as eleições na Europa e nas Américas: em países como Brasil e Argentina a tendência é a continuidade enquanto na França, Espanha e Grécia o eleitor busca mudanças.  É um fator que não decorre de uma racionalidade econômica mas por uma sensação que pode ser de frustração, esperança ou medo, por exemplo. O bolso, entretanto, é mutável e mais volúvel que as crenças; as visões de mundo influenciam as percepções e determinam os sentimentos com uma força muito maior do que a da frágil realidade concreta dos números da economia. A derrota de Sarkozi nas últimas eleições francesas e o calvário de Obama em busca da reeleição evidenciam a força dessas visões, franceses e americanos pensam formas diferentes de Estado e desejam modos diversos de intervenção governamental; os primeiros esperam que o governo resolva seus problemas enquanto os segundos acham que ele deve não atrapalhar, não é pouco é uma diferença fundamental, temos uma sociedade que se organizou a partir do interesse público e outra que nasceu contra a estrutura estatal, uma que historicamente tentou organizar uma sociedade voltada para os interesses públicos e outra que se fundamenta no individualismo liberal. Continue lendo


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vitória do terror

Vitória do terror
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Dez anos após os atentados de 11 de setembro o mundo ainda parece incapaz de entender o seu significado e dimensionar todas as suas conseqüências, ainda assim um fato parece gritar: não há nesse início de século qualquer homem que faça sombra em termos de importância a Osama Bin Laden, ninguém nesse período teve uma influência tão grande nos rumos do planeta quanto ele; o terrorismo venceu e o êxito da Al Qaeda foi provavelmente muito maior do eles mesmos imaginaram. Se o objetivo era espalhar o medo e o terror e com isso desestruturar a sociedade norte-americana o resultado não poderia ser melhor, em um único dia os terroristas conseguiram fazer estragos talvez maiores do que a União Soviética tenha conseguido em quatro décadas de Guerra Fria. Além de apresentar o terror aos ingênuos sobrinhos do Tio Sam, Bin Laden e seus homens contribuíram para colocar o país numa encruzilhada maniqueísta que pode levá-lo a um governo fundamentalista de direita; com a ajuda de George Bush e sua desastrada estratégia de guerra contra o terror, que consumiu mais de cinco trilhões de dólares, contribuíram decisivamente para a maior crise econômica em mais de meio século. A morte em combate só contribui para transformar o terrorista em mito, se de fato estiver no fundo do mar, o terrorista saudita deve ter muito o que comemorar pelo que conseguiu nessa última década, mas também deve agradecer e muito o apoio que teve da imprensa que contribuiu para transformar seus feitos em gigantescos espetáculos midiáticos e para transformá-lo em mito, deve agradecer ao governo Bush que fez de tudo para espalhar o medo pelo país, que inventou guerras funestas e ajudou a dividir o mundo alimentando novos inimigos por todos os seus cantos.
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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Língua com farofa

Língua com farofa

Li semanas atrás uma entrevista com Gene Simmons, o linguarudo vocalista e baixista do Kiss. Como músico o sujeito é uma farsa inofensiva do mundo pop, mas seus comentários sobre política e economia podem merecer alguma atenção. Simmons é um pouco mais do que uma Carla Peres do rock farofa; sua enorme língua, entretanto, ajuda a articular frases que podem nos permitir alguma compreensão de um pouco do raciocínio de certa parcela do eleitorado americano. Duas coisas chamam atenção: primeiro o sujeito afirmar que iria votar em Obama pelo fato de ele ir atrás dos terroristas, segundo suas reflexões sobre economia. Como milhões de outros americanos, ele é um eleitor decepcionado com os rumos ’esquerdistas’ das políticas de Obama que resolveu rever suas posições após o assassinato de Bin Laden, nisso ele é claro ao defender que os Estados Unidos devem ‘pegar o bandido’ mesmo que para isso seja necessário violar as leis internacionais. Como analista econômico ele vai mais longe, defendendo que os sindicatos são um empecilho ao capitalismo – pois encarecem a mão-de-obra e os produtos – e se colocando contra os direitos à aposentadoria, férias e licença maternidade. Assim com boa parte dos republicanos, Simmons defende um Estado militar forte capaz de impor seus interesses nas questões externas e um Estado liberal fraco que não interfira na economia em questões internas. Paradoxalmente o exemplo que está na sua cabeça é a China, onde não por acaso a competitividade econômica é muito mais importante que a liberdade ou mesmo a vida de seus habitantes. Pois é, décadas atrás o Kiss foi visto como uma ameaça à conservadora sociedade americana, talvez tivessem razão, a julgar pelos seu vocalista devemos nos perguntar se não estamos diante de uma das bestas do apocalipse!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Famintos e insaciáveis

Famintos e insaciáveis


Neste exato momento, apenas na região do Chifre da África, mais de 12 milhões de pessoas vivem em situação de emergência por conta da fome; são pessoas que, como eu e você, vivem pequenos prazeres e suportam suas dores, a diferença é que eles alimentam sonhos sem conseguir antes conseguir alimentar seus corpos. Segundo a ONU, cerca de 10 mil crianças morrem a cada mês em consequência direta da falta de alimentos, agora agravada pela pior seca das últimas décadas na região. Mas o mundo não parece preocupado com a fome na Somália, Etiópia, Sudão ou Uganda, afinal imagina-se que isso faça parte dos desígnios da natureza, para não falar divinos, e que a pobreza extrema é parte de uma paisagem natural; não é. A fome não decorre da seca, é conseqüência de políticas desastradas, de conflitos econômicos e interesses mesquinhos que ultrapassam em muito as fronteiras daqueles países. A produção de alimentos cresce constantemente e seria suficiente para alimentar a todos, o cerne do problema não está na superfície. A falta de alimentos torna-se cada dia mais comum entre as populações mais pobres em todo o mundo, o preço daquilo que se come tem subido muito acima da inflação em todos os lugares e entre as causas estão o uso da terra para produzir ração animal e a estrutura do sistema financeiro mundial. Investidores de todo o mundo especulam e ganham fortunas nas bolsas de valores pensando os alimentos como commodities altamente lucrativas: quanto mais lucros, maiores os preços, e menores as quantidades de comida para os mais pobres. Milhares morrem de fome para enriquecer meia dúzia de milionários que têm como necessidade básica alimentar seus egos famintos e insaciáveis.  


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando

Uma série de manifestações tem ocorrido no Chile nos últimos meses para protestar contra o modelo de sistema educacional adotado no país. Grande parte das instituições de ensino secundário e superior está parada a pelo menos três meses, grandes protestos de rua, conflitos com a polícia, centenas de presos e alunos em greve de fome. O contraponto à revolta dos chilenos é a apatia bovina dos estudantes brasileiros. As avaliações internacionais mostram que o sistema chileno quando comparado ao brasileiro tem qualidade ainda muito superior e a porcentagem de jovens universitários também é maior por lá. Com reformas que vêm da ditadura Pinochet, o Chile é um dos países que mais longe levou o processo de privatização do ensino: na prática o governo sustenta boa parte do sistema educacional privado pagando, através de bônus – os vouchers – a permanência dos estudantes nas escolas e universidades. Como o bônus nem sempre é suficiente, os estudantes mais pobres usam esses recursos para pagar instituições mais baratas e de baixa qualidade enquanto os mais ricos os complementam para estudar nas melhores, bem mais caras; esse sistema não apenas reproduz como aumenta as já enormes desigualdades sociais. Os manifestantes, que contam com o apoio da maioria da população, exigem o fim desse sistema e pedem que os recursos públicos sejam destinados às instituições públicas e que o ensino seja gratuito e de boa qualidade para todos, se opondo ao governo que se recusa a rever essa política. Enquanto isso na Terra Brazilis o sistema educacional que segrega e cria ilusões individualistas continua indo de mal a pior mas com total aprovação dos jovens, que se contentam com qualquer coisa e ainda batem palmas. Talvez seja na capacidade de bater palmas que os estudantes brasileiros se diferenciem dos bois.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem quer manter a ordem?

Quem quer manter a ordem?

Saques, incêndios, barricadas, mais de mil presos. Para a governo é desordem, para a polícia é baderna e atividade criminosa, para a imprensa... bem a imprensa não costuma pensar, prefere repetir o discurso do governo, da polícia, de quem manda. Os protestos dos jovens ingleses começou em Tottenham após a morte Mark Duggan, líder comunitário vítima da violência policial. Óbvio, o assassinato foi apenas o estopim para uma revolta que se constrói ao longo de muitos anos, aqueles que se manifestam na rua são os mesmos que saíram às ruas para saudar o casamento do príncipe, são as vítimas do preconceito racial, da desigualdade falta de perspectiva econômica de uma sociedade em crise que se manifestam atacando aquilo que por anos lhes foi negado, são jovens que tem pouco a perder e não têm nenhuma crença na capacidade ou possibilidade de que as instituições e o poder público possam ou queiram resolver as questões que lhes doem na pele. Sobra a ironia: quando as manifestações contra o governo acorrem no oriente Médio o nome é democracia, quando as manifestações ocorrem nas cidades européias o nome é apenas vandalismo. Pode-se não perceber nada na superfície, mas nas profundezas o inferno está em chamas.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Sofrimento Monumental

Sofrimento Monumental
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O Sol ficou imóvel e a Lua ficou parada! Se Jeová parou os astros no céu para que a nação de Israel se vingasse dos seus inimigos, também poderia ter parado o mundo para que todos assistissem ao vivo e em cores a batalha entre River Plate e Belgrano no estádio Monumental. Os cristãos não devem questionar as escolhas de Deus, mas a cena poderia ser repetida para nos tornar mais humanos. Cada centésimo de segundo de sofrimento, paixão, dor, agonia, felicidade e tristeza, a morte lenta da esperança nas almas e as lágrimas. O River, um dos maiores clubes de futebol do mundo precisava vencer por dois gols para não cair para a série B do campeonato argentino, começou vencendo, tomou um gol, perdeu pênalti, foi roubado, mas isso é futebol, metáfora da vida, o que importa é a vida e na vida houve luta, fracasso e paixão na busca por honra ou apenas dignidade; não deu, após 110 anos o maior vencedor do país vai agora jogar para voltar. Imposible no llorar! Só existe um amor verdadeiro, legítimo e incondicional o amor pelo seu time de futebol, todo o resto é pataquada e estorinhas de novela. O homem é capaz de amar uma mulher e é até possível que por determinado período da vida ame apenas e tão somente uma, mas esta passará e virá outra e outra e o amor inflamado que ardia em chamas, vira brasa e vira cinza. O amor pelas cores do clube de coração, pelo distintivo da camisa não, ele é capaz de sobreviver e aumentar diante das maiores tragédias e derrotas, é o amor que cresce no desassossego e na humilhação, no futebol não é a beleza,a vitoria ou a glória que palpitam o coração é a dor e o sofrimento por isso um clube que é seguidamente campeão jamais terá aquele torcedor fanático que só poderá ser visto e construído com rios de lágrimas. Imposible no llorar!



terça-feira, 14 de junho de 2011

As palavras e os fatos

As palavras e os fatos
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Não é difícil compreender o que o povo faz nas ruas ou porque está ali, mas de um lado se põem as causas e de outro as conseqüências. Não é simples entender o que se passa no Oriente Médio mas a imprensa internacional não se cansou de chamar as diversas manifestações de revolução árabe; como alguém que está a milhares de quilômetros do túmulo de Tutancâmon e que jamais sentiu nos olhos o doce ardor das areias do deserto líbio arrisco a afirmar que ali ocorreu qualquer coisa que não seja uma revolução. Se não quisermos banalizar o termo e pensarmos revolução com sinônimo de transformação profunda temos que buscar outro adjetivo. Os árabes não querem transformações profundas, não querem um outro mundo, outra realidade, e nem têm utopias. Se saem às ruas é por desilusão, a esperança é ter governos menos corruptos e autoritários, uma economia que possibilite mais consumo e se possível um pouquinho de liberdade política em gotas bem dosadas. A saída dos velhos ditadores não representa nenhuma grande mudança de rumo no oriente Médio. No Egito, por exemplo, Mubarak sairá do poder como que sai para férias vitalícias, em seu lugar assumirá o poder os mesmos militares que lhe garantiram o poder durante três décadas e o Estado continuará ocupado pelas mesmas forças que lhe foram fiéis desde sempre e a estrutura social egípcia continuará na forma e no conteúdo semelhante às antigas pirâmides.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Amigos e inimigos

Amigos e inimigos
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No mundo real as relações políticas são, via de regra, baseadas em interesses, a partir da distinção entre amigos e inimigos – expressões usadas no seu sentido raso, sem nenhuma relação com a sofisticada formulação de Carl Schmitt – pensador alemão do século 20. Nesse campo fluido o amigo e o inimigo são definidos pelas circunstâncias e o aliado de hoje é o inimigo de amanhã e vice-versa; lemos isso nos acontecimentos no Oriente Médio, nas figuras de kadaffi, Mubarak ou Sadam Hussein. Para o ocidente, o presidente líbio Muamar Kadaffi já inimigo, virou amigo e agora volta a ser inimigo. Tido como aliado e patrocinador de terroristas nos anos 80, ganhou reconhecimento a partir dos anos noventa e levou a Líbia a ser representante do Conselho de Direitos Humanos na ONU, é hoje o inimigo da vez. Mubarak, presidente egípcio por três décadas, foi aliado fiel dos Estados Unidos até ganhar cartão vermelho do povo e da diplomacia americana. Sadam foi patrocinado pelo governo americano por mais de duas décadas até ser declarado inimigo número um. Nada de ideologias ou princípios, todos preferem ter um ditador como aliado que um democrata como concorrente. Arábia Saudita e Jordânia sempre foram regimes tão ou mais fechados que Irã, Iraque ou Líbia, mas seus monarcas são aliados do ocidente, fazem o jogo das grandes potências e abaixam a cabeça enquanto estendem as mãos ao grande império: são amigos, enquanto não arrumarem encrencas que os comprometam.
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