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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A miséria e a filosofia

A miséria e a filosofia

É provável que em nenhum outro lugar do mundo se venda tantos livros de filosofia quanto no Brasil, é possível que a cada década se venda por aqui mais livros de Kant ou Hegel que em toda a história da Alemanha. Os grandes clássicos do pensamento ocidental podem ser encontrados em cada esquina, nas livrarias de aeroportos e rodoviárias, nas lojas dos shopping centers ou nas bancas de jornal. Todos citam, curtem e compartilham frases de Nietzsche e Schopenhauer como quem canta e repete os refrões de um samba enredo, nos enganando pensamos ser maquiavélicos e imaginamos sofrer com amores platônicos. As frases soltas, desconexas e sem sentido infestam o ar exalando o perfume da tolice mal disfarçada. Esse país de filosofia parece não ser aquele mesmo em que um terço dos universitários não consegue compreender os textos que leem ou o país que tem um terço dos adultos em situação de analfabetismo funcional nem o país que tem um dos piores sistemas educacionais do mundo. Mas é; e talvez esteja na nossa ignorância a explicação para o nosso consumismo filosófico. Nós desejamos consumir por status, para fingir ser o que não somos, para aparentar ter o que não temos, assim como os miseráveis que desejam comprar produtos de grife e celulares de última geração uma certa classe média quer consumir o que lhe dê uma aparência culta, quando percebe a miséria do seu capital cultural ela consome marcas filosóficas como se fossem etiquetas. Continue lendo:

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O cadáver cordial

O cadáver cordial  


Nelson Rodrigues está completando um século, mais vivo do que nunca o desgraçadinho. Cem anos despertando amores e ódios intensos e eternos. Parece que hoje o respiramos em todos os ares, mas nos perfumes sublimes e não nos odores mais fétidos.  Desde o dia em que foi descansar o corpo no Cemitério do Caju, o milagre se operou, aquele que era odiado por todas as bandas passou a ser amado até pelos inimigos. Ah essa nossa canalhice! Aquele que nunca foi complacente, que nunca poupou ninguém e que atirava em todas as direções deve estar odiando saber que chega aos cem se aproximando da unanimidade; poderia ser uma rara unanimidade, precisa, inapelável e eterna como o Juízo Final, mas não, parece ser apenas mais uma unanimidade burra; a burrice se aproximou dele para torná-lo unânime. Sinal dos tempos, aquele que foi odiado, rejeitado e vaiado pela esquerda e pela direita, por conservadores e liberais, por putas e freiras, agora parece ser o defunto de casaca com cara de mordomo, querem deixá-lo livre das provocações e polêmicas, querem matá-lo. O sujeito obsceno, machista, conservador, reacionário e autoritário morreu para dar lugar a outro, o cara das frases feitas jogadas ao vento, o cadáver tranquilo que já não provoca iras e rancor. Continue lendo