Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Certezas fundamentais

Certezas fundamentais
.
Temos idéias prontas e com elas enxergamos o mundo, os fatos são detalhes que servem para justificar as crenças que temos; a crise econômica e política nos Estados Unidos é uma mostra de como isso funciona, mesmo nas mentes que se pensam sofisticadas. Especialistas e analistas de esquerda e de direita, de dentro e de fora, se esforçam para encaixar os acontecimentos em suas teorias e ideologias, uns afirmam que é a decadência ou mesmo o fim da supremacia americana enquanto outros reafirmam a crença na capacidade do Império, uns  sustentam que a crise tem origem na desregulamentação dos mercados e pedem mais intervenção dos governos enquanto outros tentam mostrar que a culpa é do Estado que se intromete demais. Entre o céu e a terra está o mundo palpável e nele os Estados Unidos ainda domina o jogo; o seu poder militar ainda é extraordinariamente superior ao de qualquer possível rival, seu poder ideológico, capaz de conquistar corações e mentes, é a cada dia mais hegemônico, o seu poder econômico ainda sustenta as relações entre os países, isso tudo lhe dá um poder político que está longe de definhar. Ao mesmo tempo, entretanto, temos um país em profunda crise política onde aqueles que deveriam representar os interesses da população se curvam diante dos interesses do mercado financeiro e esse mercado é refém de seus especuladores que insistem em privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Obama há muito deixou de ser esperança e mostrou-se um presidente fraco enquanto a oposição republicana a cada dia dá passos em direção ao conservadorismo fundamentalista. O cenário atual talvez evidencie apenas o crepúsculo, a escuridão ainda está por vir, enquanto isso, para nossa alegria ou tristeza, ainda teremos mais algumas décadas de domínio do Tio Sam. Quanto às certezas incertas, estas servem de conforto.
.

terça-feira, 26 de março de 2013

Tanto anjos quanto demônios

Tanto anjos quanto demônios

A centralização do poder e o fortalecimento do Estado com suas forças repressivas serviram para aumentar a segurança da sociedade, para garantir a paz interna das nações e proporcionar a ‘vida menos solitária, pobre, sórdida embrutecida e curta’, para usar a expressão de Hobbes, seu grande defensor. Contudo, se o poder do Estado foi capaz de domar a natureza humana, como sugere Steven Pinker (ver post anterior) e impor paz entre os homens, reduzindo o constante temor ante o perigo da morte violenta, ele próprio se torna o detentor da violência, que, antes dispersa entre os homens, agora ganha corpo e poder extraordinário. O Estado e as forças atreladas a ele foram nos últimos séculos os grandes executores da violência, num grau talvez jamais visto no passado. Independente do regime, da forma de organização econômica, da participação popular e dos detentores do poder o que se viu por todos os cantos do planeta foi o uso do poder do Estado para crimes em massa, de assassinatos e deportações, a campos de concentração e genocídios. A resolução dos conflitos, antes no olho por olho, dente por dente, passaram a ser mediados pela esfera política onde vence quem detém o poder estatal. A violência está na base do Estado e essa violência que permite sua existência é constantemente voltada para determinadas parcelas dos seus súditos, mulheres e homens que, ao menos na teoria, abriram mão do seu poder individual e da capacidade de auto-defesa para dar a essa força que os constrange o poder para proteger suas vidas e garantir a paz.
  

terça-feira, 19 de março de 2013

Nem anjos nem demônios

Nem anjos nem demônios

The Better Angels of Our Nature, último livro de Steven Pinker é uma obra interessante; menos pelas suas conclusões que pelo enorme conjunto dados que apresenta. A obra analisa algumas das diversas formas  de violência utilizadas pelos homens ao longo da história para mostrar como a humanidade nunca foi tão pacífica quanto é hoje. Psicólogo e lingüista polêmico, professor de Harvard e pop star da ciência, Pinker passou décadas se esforçando para mostrar evidências de algo que as ciências humanas tem se empenhado para provar que não existe: uma natureza humana independente das culturas e capaz de determinar boa parte do comportamento humano (ideia presente na teoria política clássica em autores como Maquiavel, Hobbes e Rousseau). Não é exatamente o que fez dessa vez; ao mostrar que no século XXI temos menos guerras, genocídios, assassinatos, torturas e agressões físicas que em qualquer outro período da humanidade (inclusive quando comparamos as sociedades atuais com sociedades da antiguidade clássica e a povos indígenas) ele acaba por evidenciar tanto o papel das instituições quanto das ideias – sobretudo políticas! Segundo ele, por exemplo, na Idade Média o número de homicídios na Europa era mais de trinta vezes maior que o de hoje naquele período um em cada quatro nobres ingleses morria de forma violenta, considerando que as doenças eram muito mais letais, o número impressiona. Estranhamente, a tese dá sustentação às ideias de pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes, que acreditavam que a centralização do poder, o fortalecimento do Estado e de suas forças repressivas poderiam aumentar o grau de segurança e paz ainda que a natureza humana fosse imutável, mas também aos iluministas, à defesa da racionalidade como parâmetro para resolução de conflitos, à prerrogativa de árbitros neutros, controle dos instintos, o sentido moral e a empatia enquanto vinculação do caráter humano à defesa dos mais fracos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Minhas aulas com Haddad

Minhas aulas com Haddad

'Qual o primeiro dever de um homem? A resposta é simples: ser ele mesmo!' Por anos acreditei nisso, essa resposta me marcou desde que li Peer Gynt, a frase é dele, devia ter uns quinze anos e essa ilusão ainda combinava bem com meus outros sonhos. Ibsen havia plantado uma fraude em mim; era mentira, um engodo, nós não podemos ser nós mesmos, somos o que mundo faz de nós. As circunstâncias é que constroem os homens e raros são os que escolhem seus destinos. As ruas escolhem os nossos passos e os relógios dominam o tempo atropelando nossas escolhas como um demônio que nos manipula como marionetes, com a diferença de sermos fantoches capazes de buscar prazer e glória: por elas vendemos a alma ao diabo das circunstâncias. Parece ter acontecido algo assim com Fernando Haddad: conheci um que foi meu professor, o homem do conhecimento que desejava usar o saber para reconstruir o mundo; agora conheço um outro, o que agora é o prefeito da cidade, o que se dedica à política e ao poder, aquele que pela prática terá que saber que o bem poderá vir do mal e que o mal poderá vir do bem, o Haddad que abdicou de ser ele mesmo para ser uma personagem para si mesmo. Continue lendo:


terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcha soldado

Marcha soldado  


A Marcha para Jesus não é para Jesus e pouco ou nada tem a ver com fé. Para um cristão não há duvida: o cristo, assim como Deus, está em todos os lugares e tudo vê, não há sentido teológico reunir dezenas ou centenas de milhares de pessoas para manifestar uma crença que é essencialmente individual. A Marcha é antes de tudo um ato político e como tal uma manifestação de poder, e não há nada de errado nisso, os evangélicos com qualquer outro grupo social tem o direito de se manifestar e defender suas ideias e interesses; mas, por coerência, poderiam ser honestos e assumir o que estão fazendo e o que efetivamente querem. Os soldados que marcham, os cabeças de papel, acreditam que se marcharem direito ganharão o reino dos céus; mas os comandantes do exército conhecem bem a guerra e as estratégias para vencê-la. Entre as igrejas evangélicas podemos encontrar alguns dos grupos criminosos mais bem organizadas do país, não é difícil encontrar alguma igreja importante que tenha envolvimento com esquemas de lavagem de dinheiro ou sonegação fiscal, enriquecimento ilícito, estelionato ou falsidade ideológica; é o caso da Renascer, principal organizadora do evento, cujos líderes, bispa Sônia e apóstolo Hernandes, foram presos nos Estados Unidos e respondem a diversos processos na justiça brasileira. Continue lendo


terça-feira, 5 de junho de 2012

Entre tapas e beijos

Entre tapas e beijos


Em algum lugar minimamente sério o senhor Paulo Maluf estaria atrás das grades ou completamente enterrado, nem que fosse em sentido figurado. Com seu nome na lista de corrupção internacional do Banco Mundial e procurado pela Interpol, aos 80 anos o político paulista continua vivendo tranquilamente entre sua mansão nos Jardins e o Congresso Nacional e é disputado pelos mais importantes partidos políticos do país. Cria da ditadura, Maluf é sinônimo de corrupto, sua vida é recheada de escândalos, suspeitas de lavagem de dinheiro e mau uso do dinheiro público, mas no sistema político brasileiro ainda está longe de ser cachorro morto, boa ou má sua imagem lhe dá peso de lenda viva. Ainda assim, mesmo que tenha seus eleitores cativos, e não são poucos, não seria de se esperar que a essa altura fosse cortejado por PT e PSDB como se fosse a noivinha ideal. Ocorre que o malufismo possui uma força significativa no conservador eleitorado paulista e o Dr. Paulo não deixou herdeiros de peso, são votos capazes de decidir uma eleição; para além disso, Maluf e seu partido possuem um tempo de televisão que vale ouro. Por menos de dois minutos qualquer partido parece estar disposto a vender a alma ou, se ainda restasse alguma, a dignidade. Sim, tempo é dinheiro e numa campanha eleitoral quem o tem pode negociá-lo com quem lhe oferecer as melhores ofertas, alguns segundos podem valer um vice, podem valer alguns ministérios ou secretarias, isso para não entrar em questões mais evidentes de corrupção. Continue lendo

 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Lousa de vidro e cara de pau

Lousa de vidro e cara de pau


Semana sim, semana não, um político de peso escreve algo sobre a importância da educação para o futuro do país. No último sábado foi a vez de Aécio Neves vomitar sua hipocrisia. Fora do estado, a greve de professores de Minas Gerais passou despercebida, como se não fosse um assunto importante e nacional mas quem se importa minimamente com a educação não pode esquecer a greve de professores em Minas. Para além da chance (mais uma) de se discutir os rumos da educação e do país, foi esquecido um ponto fundamental: a de que o estado foi governada oito anos por Aécio Neves, mais provável candidato da oposição à presidência do país em 2014. O fato de ter descumprido a lei nacional do piso do magistério e deixado o estado com o menor piso salarial do país (616 reais por 40 horas semanais, pouco mais da metade do mínimo exigido) e de não ter cumprido a norma que fixa que um terço da jornada seja destinado a atividades extraclasse não é um bom cartão de visita para um presidenciável. É fato que nenhum professor recebe apenas o piso mas o fato de não cumprir com o mínimo mostra a importância que Aécio deu à educação em seu governo. Também não cumprem a lei do piso os estados da Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul, enquanto a lei da jornada extraclasse é descumprida por pelo menos quinze estados, entre eles Ceará, Paraná e Pernambuco e São Paulo, estado mais rico da união – e onde mais de 60% das escolas possui problemas de superlotação em pelo menos uma sala. Esses números mostram o quanto o discurso está longe da realidade, enquanto todos falam da importância da educação a maioria dos governadores não cumprem com o mínimo exigido por lei; o baixo salário dos professores (em média 40% do que ganha um profissional com o mesmo nível de escolaridade, segundo a Pnad de 2009) e as precárias condições de trabalho afastam os profissionais mais qualificados, desestimula a formação de novos e dificulta o trabalho. Falar em educação como prioridade é muito fácil levar a educação à sério ainda não. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O grito das ruas

O grito das ruas


O ano de 2011 foi marcado pelas manifestações políticas nas ruas de cidades ao redor do mundo. Da praça Tahrir no Cairo a Wall Street em Nova York, das ruas de Londres a capital chilena. Em Israel, Espanha, Índia, Líbia, Grécia e nos cafundós do Judas as ruas foram tomadas por multidões em busca de mudanças maiores ou menores. Não há uma pauta de reivindicações que una esses manifestantes, existe, contudo, alguns pontos que permitem pensar uma certa unidade entre esses fenômenos; o primeiro, e talvez mais importante, é o fato da desconfiança e descrença generalizada nas regras do jogo e na política institucionalizada, mesmo aqueles que reivindicam a democracia representativa se mostram com um pé atrás em relação aos políticos e partidos tradicionais; o segundo é a centralidade da questão da desigualdade econômica, a afirmação de que a plenitude dos direitos e a própria possibilidade democrática só é possível com a redução das desigualdades econômicas; o terceiro é o uso das novas tecnologias que permitem novas formas de comunicação; o acesso à Internet e a utilização das redes sociais possibilitaram a mobilização rápida e um novo sistema de organização. Em grande medida esses acontecimentos remetam às manifestações ocorridas no início da década de 1990, chamadas pela grande mídia como movimento anti-globalização, que foram sufocadas após os atentados de 11 de setembro. Essas manifestações apontam para novas formas de organização política, muito mais difusa, menos coesa e mais pontual, portanto menos ideológica, porém mais forte, pois se forma numa nova forma de poder: aquele mesmo relacionado à comunicação e à formação da opinião pública mas agora menos atrelado à grande imprensa e às grandes corporações que controlam os meios de comunicação de massa.
 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O mocinho e o bom velhinho

O mocinho e o bom velhinho

.
Por pouco não acreditei em Papai Noel! Se o bom velhinho não apareceu, o Correio trouxe o presente; veja que coincidência supimpa: ganhei um livro do Gabriel Chalita, e na minha ingenuidade nem sei exatamente por quê. Nunca o vi, jamais comprei ou compraria um livro seu, mas não é que o bom mocinho soube da minha existência e resolveu me presentear? Sei que mereço até mais, entretanto, não estivesse com a alma limpa pelo espírito natalino desconfiaria; afinal não é ele um dos nomes cotados para ser um dos homens fortes do PMDB e possível candidato à prefeitura de São Paulo? Se tivesse espírito de porco (como tenho) perguntaria como ele sabe meu endereço e quem bancou o livro, afinal imagino que mais algumas dezenas de milhares de exemplares foram deixados por aí para pessoas batutas como eu. Sua literatura de quinta categoria, mistura de auto-ajuda, citações filosóficas rasas e pregações de inspiração carismáticas não me convencem, como político não se sabe exatamente a que veio: ex-pupilo de Alckmin, como secretário da educação foi um fiasco – mais um no patético descaminho da administração tucana para a educação paulista, como deputado é só mais um, mas a cara de bom moço, a fala mansa e ordenada, o discurso contido de coroinha bem treinado e o enorme tempo que possuirá na televisão fazem de Chalita um político com grande potencial de voto, não à toa foi o deputado estadual mais votado nas últimas eleições e um dos favoritos na corrida pela prefeitura paulista. Ele é tudo o que o PMDB paulista precisava, é tudo o que a cidade não precisa!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Deus e o Diabo nas urnas

Deus e o Diabo nas urnas

Neste mês de novembro um dos mais importantes partidos políticos do país completa cem anos: a igreja pentecostal Assembléia de Deus, o maior agrupamento evangélico pentecostal do país com cerca de 20 milhões de fiéis. Ao longo de um século a Assembléia cresceu, se organizando em diversos ministérios, e ganhou além de milhões de fiéis um enorme poder de influência sobre a vida pública nacional. Para além dos seus 23 deputados federais, a igreja abriga diversos outros políticos, lidera a Frente Parlamentar Evangélica da Câmara que agrega 63 parlamentares e tem se mobilizado para defender no pais algumas das mais importantes bandeiras conservadoras: a restrição de direitos para determinadas parcelas da sociedade, a intolerância contra homossexuais, a inferioridade da mulher na vida pública e a submissão da vida política aos valores religiosos.  Nas últimas eleições presidenciais a Assembléia elegeu 73% dos seus candidatos ao Congresso, apoiou e se engajou na campanha de José Serra – que teve no pastor Silas Malafaia um de seus homens mais importantes e entusiastas – guiando seu rebanho de cabos eleitorais contra o ‘perigo comunista’ Dilma. Nenhum político pode desprezar uma organização que conta com mais de 10% da população do país, nenhuma Igreja quer se distanciar dos homens que podem lhe garantir privilégios e poder de influência; no culto em comemoração ao centenário estavam o prefeito Kassab, o governador Alckmin e o ministro Secretária Geral da presidência, talvez não exatamente por uma questão de fé.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ilusões perdidas

Ilusões perdidas

Século passado. Devia ter uns catorze ou quinze anos e gostava de super-heróis: Marighella, Lamarca, Lênin, Marx... talvez quem sabe como substitutos de um Papai Noel ou de um Deus que já não fazia parte do meu mundo. Acreditava na revolução, na luta armada, sonhava em pegar em armas e transformar o mundo... Lia Os carbonários, O mini-manual do guerrilheiro urbano, Combate nas trevas e alguns textos mais fáceis de teoria política como cadernos de formação para jovens revolucionários. Com essa pequena bagagem, com sonhos e desejos de fazer a revolução fui eu atrás daqueles que então acreditava serem os sujeitos preparados para mudar o mundo: os companheiros do Partido Comunista. Na minha tola ilusão ali estariam os grandes homens que desprendidos de interesses pessoais mesquinhos se organizavam para construir um mundo mais justo, mais livre, mais igual, melhor. Em semanas estava eu nas passeatas e manifestações, levantando bandeiras, distribuindo panfletos, militando na União da Juventude Socialista – braço do partido, debatendo nos bares e escolas, pregando as boas novas. Meu muro caiu rápido, logo vi que daquele mato não sairia coelho, que sob uma sigla e um símbolo, sob uma foice e um martelo, estavam sujeitinhos medíocres, políticos profissionais e amadores em busca de status pessoal, de mesquinharias, vivendo de migalhas de poder. Nos últimos anos o partido cresceu e piorou, de certa forma chegou ao poder, faz parte do governo federal e tem espaço para mostrar a sua cara, teria espaço para mostrar suas ideias caso quisesse, caso as tivesse. Quando agora vejo diversas acusações de corrupção pairando sobre a velha sigla, ou talvez mais precisamente sobre alguns dos seus líderes, não tenho qualquer reação de espanto;  era uma questão de tempo, o que me parecia óbvio um dia se tornaria público, o que me espanta é que aos catorze ou quinze eu tenha deixado de jogar bola na rua para participar de uma farsa que não era minha, me espanta que eu tenha jogado algumas fichas de sonhos num joguinho de cartas marcadas. Que vergonha, que vergonha!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Colheita maldita

Colheita maldita
.

Qual o peso de um político que se torna o principal líder da oposição  e que numa única eleição recebe mais de quarenta milhões de votos? Facilmente poderíamos dizer que seu peso é enorme, não fosse esse político José Serra. Mesmo obtendo mais de 40% dos votos nas últimas eleições presidenciais o tucano saiu fragilizado da campanha, foi abandonado pelo seu partido, que não o deseja para 2014 e só tem espaço na mídia quando aparece em velórios ou dá palpites furados sobre o Palmeiras, seu time. Não foi a campanha patética, que conseguiu desagradar mais os aliados que os inimigos, que tirou Serra do jogo, foi o seu projeto pessoal auto-centrado: Serra confia nele e em mais ninguém e por isso quer ter as rédeas do jogo e o poder concentrado em suas mãos; tudo o que os seus possíveis aliados não querem. A política não é o terreno onde se cultiva amizades mas onde se plantam alianças para se colher benefícios; Serra não cultiva amizades, não planta alianças, o estranho é entender como chegou a ser o líder da oposição – o que só é possível num partido de caciques. Se o jogo eleitoral está aberto, para a oposição ele é carta para uma outra jogada, seu caminho mais provável seria o da disputa pela prefeitura de São Paulo, onde ainda até poderia entrar como franco favorito – apesar da alta taxa de rejeição e independentemente de quem venha a ser seus adversários, ocorre que uma possível derrota seria o fim triste e melancólico de uma carreira política com ilhas de vitórias cercadas de derrotas por todos os lados e a vitória não seria mais que um prêmio de consolação para quem sonhou a vida inteira em chegar a presidência e mais uma vez teria que assistir a campanha pela televisão, forçadamente vendo sua derrota por WO.
 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Vitória do terror

Vitória do terror
.

Dez anos após os atentados de 11 de setembro o mundo ainda parece incapaz de entender o seu significado e dimensionar todas as suas conseqüências, ainda assim um fato parece gritar: não há nesse início de século qualquer homem que faça sombra em termos de importância a Osama Bin Laden, ninguém nesse período teve uma influência tão grande nos rumos do planeta quanto ele; o terrorismo venceu e o êxito da Al Qaeda foi provavelmente muito maior do eles mesmos imaginaram. Se o objetivo era espalhar o medo e o terror e com isso desestruturar a sociedade norte-americana o resultado não poderia ser melhor, em um único dia os terroristas conseguiram fazer estragos talvez maiores do que a União Soviética tenha conseguido em quatro décadas de Guerra Fria. Além de apresentar o terror aos ingênuos sobrinhos do Tio Sam, Bin Laden e seus homens contribuíram para colocar o país numa encruzilhada maniqueísta que pode levá-lo a um governo fundamentalista de direita; com a ajuda de George Bush e sua desastrada estratégia de guerra contra o terror, que consumiu mais de cinco trilhões de dólares, contribuíram decisivamente para a maior crise econômica em mais de meio século. A morte em combate só contribui para transformar o terrorista em mito, se de fato estiver no fundo do mar, o terrorista saudita deve ter muito o que comemorar pelo que conseguiu nessa última década, mas também deve agradecer e muito o apoio que teve da imprensa que contribuiu para transformar seus feitos em gigantescos espetáculos midiáticos e para transformá-lo em mito, deve agradecer ao governo Bush que fez de tudo para espalhar o medo pelo país, que inventou guerras funestas e ajudou a dividir o mundo alimentando novos inimigos por todos os seus cantos.
.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Língua com farofa

Língua com farofa

Li semanas atrás uma entrevista com Gene Simmons, o linguarudo vocalista e baixista do Kiss. Como músico o sujeito é uma farsa inofensiva do mundo pop, mas seus comentários sobre política e economia podem merecer alguma atenção. Simmons é um pouco mais do que uma Carla Peres do rock farofa; sua enorme língua, entretanto, ajuda a articular frases que podem nos permitir alguma compreensão de um pouco do raciocínio de certa parcela do eleitorado americano. Duas coisas chamam atenção: primeiro o sujeito afirmar que iria votar em Obama pelo fato de ele ir atrás dos terroristas, segundo suas reflexões sobre economia. Como milhões de outros americanos, ele é um eleitor decepcionado com os rumos ’esquerdistas’ das políticas de Obama que resolveu rever suas posições após o assassinato de Bin Laden, nisso ele é claro ao defender que os Estados Unidos devem ‘pegar o bandido’ mesmo que para isso seja necessário violar as leis internacionais. Como analista econômico ele vai mais longe, defendendo que os sindicatos são um empecilho ao capitalismo – pois encarecem a mão-de-obra e os produtos – e se colocando contra os direitos à aposentadoria, férias e licença maternidade. Assim com boa parte dos republicanos, Simmons defende um Estado militar forte capaz de impor seus interesses nas questões externas e um Estado liberal fraco que não interfira na economia em questões internas. Paradoxalmente o exemplo que está na sua cabeça é a China, onde não por acaso a competitividade econômica é muito mais importante que a liberdade ou mesmo a vida de seus habitantes. Pois é, décadas atrás o Kiss foi visto como uma ameaça à conservadora sociedade americana, talvez tivessem razão, a julgar pelos seu vocalista devemos nos perguntar se não estamos diante de uma das bestas do apocalipse!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Famintos e insaciáveis

Famintos e insaciáveis


Neste exato momento, apenas na região do Chifre da África, mais de 12 milhões de pessoas vivem em situação de emergência por conta da fome; são pessoas que, como eu e você, vivem pequenos prazeres e suportam suas dores, a diferença é que eles alimentam sonhos sem conseguir antes conseguir alimentar seus corpos. Segundo a ONU, cerca de 10 mil crianças morrem a cada mês em consequência direta da falta de alimentos, agora agravada pela pior seca das últimas décadas na região. Mas o mundo não parece preocupado com a fome na Somália, Etiópia, Sudão ou Uganda, afinal imagina-se que isso faça parte dos desígnios da natureza, para não falar divinos, e que a pobreza extrema é parte de uma paisagem natural; não é. A fome não decorre da seca, é conseqüência de políticas desastradas, de conflitos econômicos e interesses mesquinhos que ultrapassam em muito as fronteiras daqueles países. A produção de alimentos cresce constantemente e seria suficiente para alimentar a todos, o cerne do problema não está na superfície. A falta de alimentos torna-se cada dia mais comum entre as populações mais pobres em todo o mundo, o preço daquilo que se come tem subido muito acima da inflação em todos os lugares e entre as causas estão o uso da terra para produzir ração animal e a estrutura do sistema financeiro mundial. Investidores de todo o mundo especulam e ganham fortunas nas bolsas de valores pensando os alimentos como commodities altamente lucrativas: quanto mais lucros, maiores os preços, e menores as quantidades de comida para os mais pobres. Milhares morrem de fome para enriquecer meia dúzia de milionários que têm como necessidade básica alimentar seus egos famintos e insaciáveis.  


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Caminhando e cantando

Caminhando e cantando

Uma série de manifestações tem ocorrido no Chile nos últimos meses para protestar contra o modelo de sistema educacional adotado no país. Grande parte das instituições de ensino secundário e superior está parada a pelo menos três meses, grandes protestos de rua, conflitos com a polícia, centenas de presos e alunos em greve de fome. O contraponto à revolta dos chilenos é a apatia bovina dos estudantes brasileiros. As avaliações internacionais mostram que o sistema chileno quando comparado ao brasileiro tem qualidade ainda muito superior e a porcentagem de jovens universitários também é maior por lá. Com reformas que vêm da ditadura Pinochet, o Chile é um dos países que mais longe levou o processo de privatização do ensino: na prática o governo sustenta boa parte do sistema educacional privado pagando, através de bônus – os vouchers – a permanência dos estudantes nas escolas e universidades. Como o bônus nem sempre é suficiente, os estudantes mais pobres usam esses recursos para pagar instituições mais baratas e de baixa qualidade enquanto os mais ricos os complementam para estudar nas melhores, bem mais caras; esse sistema não apenas reproduz como aumenta as já enormes desigualdades sociais. Os manifestantes, que contam com o apoio da maioria da população, exigem o fim desse sistema e pedem que os recursos públicos sejam destinados às instituições públicas e que o ensino seja gratuito e de boa qualidade para todos, se opondo ao governo que se recusa a rever essa política. Enquanto isso na Terra Brazilis o sistema educacional que segrega e cria ilusões individualistas continua indo de mal a pior mas com total aprovação dos jovens, que se contentam com qualquer coisa e ainda batem palmas. Talvez seja na capacidade de bater palmas que os estudantes brasileiros se diferenciem dos bois.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quem quer manter a ordem?

Quem quer manter a ordem?

Saques, incêndios, barricadas, mais de mil presos. Para a governo é desordem, para a polícia é baderna e atividade criminosa, para a imprensa... bem a imprensa não costuma pensar, prefere repetir o discurso do governo, da polícia, de quem manda. Os protestos dos jovens ingleses começou em Tottenham após a morte Mark Duggan, líder comunitário vítima da violência policial. Óbvio, o assassinato foi apenas o estopim para uma revolta que se constrói ao longo de muitos anos, aqueles que se manifestam na rua são os mesmos que saíram às ruas para saudar o casamento do príncipe, são as vítimas do preconceito racial, da desigualdade falta de perspectiva econômica de uma sociedade em crise que se manifestam atacando aquilo que por anos lhes foi negado, são jovens que tem pouco a perder e não têm nenhuma crença na capacidade ou possibilidade de que as instituições e o poder público possam ou queiram resolver as questões que lhes doem na pele. Sobra a ironia: quando as manifestações contra o governo acorrem no oriente Médio o nome é democracia, quando as manifestações ocorrem nas cidades européias o nome é apenas vandalismo. Pode-se não perceber nada na superfície, mas nas profundezas o inferno está em chamas.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Tentação e decepção

Tentação e decepção
.
Escrevi aqui meses atrás que o Partido Verde efetivamente não existe para além da sua sigla, que é um partido que não tem um programa que vá muito além das questões ambientais mais rasas e óbvias. Disse que a Marina Silva, sua candidata à presidência, pela sua trajetória pessoal representava aquilo que o PV sempre quis ter e não tinha, uma cara popular que o desligasse da figura classe média aburguesada ou da persona de um Fernando Gabeira cada dia mais conservador e atucanado, mas que ela era essencialmente petista e só saiu do partido a muito custo, com a promessa de que teria a candidatura assegurada. A união foi um jogo de interesses que agora chega ao fim. Por trás da imagem de bonzinhos, os verdes formam apenas mais um partido fisiológico; seus membros querem poder, cargos e benefícios e para isso estão dispostos às mais variadas trocas de favores e Marina foi um empecilho nesse jogo, embora estivesse deslocada e perdida não podia dar um passo à esquerda ou à direita sem desagradar a alguém ou sem colocar em risco os interesses oportunistas da cúpula do partido. A esperança não venceu o medo e ela capitulou, teve que sair do partido para não sucumbir com ele, com isso perde o palanque mas ganha em discurso, se conseguir uma sigla que lhe dê suporte pode voltar com alguma força, se não conseguir pode perder os holofotes da mídia e continuar escrevendo e falando apenas para os seus, caso tenha realmente algo a dizer.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Diploma falso

Diploma falso
.
‘É de se perguntar se havia doutores diplomados no alvorecer de Bolonha, Oxford, Harvard e Coimbra’. Com argumentos como esse o senador paranaense Álvaro Dias, do PSDB, se posicionou a favor do projeto de lei que tramita no senado para livrar as universidades da obrigação de contratação de professores com títulos de mestre e doutor. O senador não é exatamente uma besta, ele sabe que não se pode comparar o papel que cabe à universidade no mundo atual com aquele que ela tinha séculos atrás. Bolonha foi criada em 1088, Oxford entre 998 e 1096 e Coimbra em 1290, Harvard a mais jovem delas é de 1636, são anteriores a formação do Brasil, nasceram em épocas em que o sistema universitário era muito diferente na forma, no conteúdo e no papel social que deve desempenhar. A universidade atual é um lócus privilegiado para a construção e difusão de saberes fundamentais para o desenvolvimento da sociedade. Dias deve saber disso, mas é a consciência que parece lhe guiar, são interesses. O sistema nacional de ensino superior está distante dos padrões internacionais e as universidades privadas, as grandes beneficiárias, tem no geral baixíssima qualidade; o projeto pretende reduzir custo, aumentar lucros, e elevar a produtividade das nossas maravilhosas fábricas de diplomas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Dinheiro sobrando

Dinheiro sobrando
.
Com 420 milhões de reais é possível construir escolas, creches, hospitais, postos de saúde... Pode-se investir em transporte, segurança ou dezenas de outras prioridades para a população paulistana, que sofre com a péssima qualidade dos serviços públicos. Parece óbvio, mas não é exatamente o que pensa Gilberto Kassab e a maioria dos vereadores de São Paulo, o prefeito simplesmente abriu mão desse dinheiro, como quem diz não quero ou não preciso, aprovando a isenção fiscal para a construção do estádio do Corinthians. Nada contra o estádio, nada contra o time, a questão é: a prefeitura pode abrir mão desse dinheiro? O argumento para a bondade é que a obra trará desenvolvimento para a zona leste e o retorno virá em poucos anos; bobagem, estádio não traz riqueza a lugar algum, basta ver so utilizados na Copa da áfrica do Sul ou na Eurocopa de Portugal que estão às moscas ou em demolição. O fato é que um dinheiro que deveria ser público e usado em obras públicas será desviado para uma obra privada com interesses privados.
.