Um homem só é homem diante da guerra! Somente com armas em punho e possibilidade de ser cruel e violento sem temer represálias é que ele pode ser aquilo que realmente é. Quando se pode receber condecorações por ser desumano e ser condenado por sentir piedade, quando se pode conseguir honra e glória por matar, quando compaixão vira sinônimo de covardia e quando se tem salvo conduto para praticar crimes e para reduzir o outro a lixo, somente nesses casos é que podemos conhecer o valor de um homem, suas convicções mais profundas e a natureza dos seus sentimentos. Nessa situação, no momento da guerra em que o poder está em suas mãos é se pode medir o quanto se é efetivamente humano. E isso é para poucos, bem poucos. A história mostra que a bestialidade é a regra, que a crueldade e a violência são quase inseparáveis e estão mais próximas a cada um de nós do que jamais assumiríamos; foi assim na Alemanha nazista, em Ruanda e no genocídio armênio, na guerra da Bósnia e no Camboja; foi assim sempre. Cada um de nós que se autoengana com a própria aparência de bondade se esquece que no fundo somos animais brutos que se escondem sob um verniz fino e opaco chamado civilização. Continue lendo
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sábado, 11 de junho de 2016
terça-feira, 23 de abril de 2013
Politicamente imbecil
Politicamente imbecil
Aquilo que nos faz rir mostra um pouco do que nós somos. Há quem ache graça em piadinhas preconceituosas sobre negros, gordos, gays, judeus e deficientes assim como quem ache divertido falar daquilo que afeta a outros: racismo, fome, estupros ou genocídios, portanto, não se deve estranhar o fato de termos humoristas e espetáculos que se especializam nisso; há quem goste. Atirar para todos os lados parece ter se tornado algo legal, atitude de pessoas descoladas que não se importam com o suposto patrulhamento politicamente correto e de corajosos que tocam em feridas não cicatrizadas. Será mesmo? Não há novidade nesse humor ou nessas piadas, se alguém acha engraçado comparar negros com macacos ou pensar que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada talvez seja mesmo um problema dela, mas não há nada de moderninho nisso, são os velhos preconceitos de sempre e as mesmas brincadeirinhas que deixam transparecer o modo como nossa sociedade discrimina as pessoas: mulheres são burras, gays são promíscuos, judeus são avarentos, nordestinos são ignorantes, pobres são sujos, idosos são dementes... O velho novo humor reforça estereótipos e comportamentos atrasados escondendo-os sob o moderninho rótulo de politicamente incorreto. Sim, devemos testar limites, sugiro um novo stand up: já as piadas são as mesmas e que o público desse humor é em sua maioria branca e de classe média que tal contar piadinhas sobre seus hábitos patéticos, sua falta de inteligência e suas crenças ridículas para sentir o quanto eles acham graça de si mesmos? Sim podemos fazer humor com ou sobre pobres, negros ou quem quer que seja, qualquer situação da vida pode ser motivo para o riso e o riso pode tornar nossas vidas mais leves, que fique claro: esse não é problema, este se encontra no uso de piadinhas insossas para reforçar nossos preconceitos mais profundos ou para aliviar o peso das nossas discriminações. Sou daqueles que perdem o amigo mas não perdem a piada, sou contra qualquer censura mas não deixo de achar estranha uma sociedade que deseja ver crianças combatendo o bullying nas escolas enquanto continua achando graça ao ver gordos serem chamados de baleias, magrelos de aidéticos, negros de macacos e nordestinos de jumento. Talvez o palco e vida não sejam coisas tão distantes assim.
terça-feira, 26 de março de 2013
Tanto anjos quanto demônios
Tanto anjos quanto demônios
A centralização do poder e o fortalecimento do Estado com suas forças
repressivas serviram para aumentar a segurança da sociedade, para garantir a
paz interna das nações e proporcionar a ‘vida menos solitária, pobre, sórdida
embrutecida e curta’, para usar a expressão de Hobbes, seu grande defensor.
Contudo, se o poder do Estado foi capaz de domar a natureza humana, como sugere
Steven Pinker (ver post anterior) e impor paz entre os homens, reduzindo o
constante temor ante o perigo da morte violenta, ele próprio se torna o
detentor da violência, que, antes dispersa entre os homens, agora ganha corpo e
poder extraordinário. O Estado e as forças atreladas a ele foram nos últimos
séculos os grandes executores da violência, num grau talvez jamais visto no
passado. Independente do regime, da forma de organização econômica, da
participação popular e dos detentores do poder o que se viu por todos os cantos
do planeta foi o uso do poder do Estado para crimes em massa, de assassinatos e
deportações, a campos de concentração e genocídios. A resolução dos conflitos,
antes no olho por olho, dente por dente, passaram a ser mediados pela esfera
política onde vence quem detém o poder estatal. A violência está na base do
Estado e essa violência que permite sua existência é constantemente voltada
para determinadas parcelas dos seus súditos, mulheres e homens que, ao menos na
teoria, abriram mão do seu poder individual e da capacidade de auto-defesa para
dar a essa força que os constrange o poder para proteger suas vidas e garantir
a paz.
terça-feira, 19 de março de 2013
Nem anjos nem demônios
Nem anjos nem demônios
The Better Angels of Our Nature, último livro de
Steven Pinker é uma obra interessante; menos pelas suas conclusões que pelo
enorme conjunto dados que apresenta. A obra analisa algumas das diversas
formas de violência utilizadas pelos homens ao longo da história para
mostrar como a humanidade nunca foi tão pacífica quanto é hoje. Psicólogo e
lingüista polêmico, professor de Harvard e pop star da ciência, Pinker passou
décadas se esforçando para mostrar evidências de algo que as ciências humanas
tem se empenhado para provar que não existe: uma natureza humana independente
das culturas e capaz de determinar boa parte do comportamento humano (ideia
presente na teoria política clássica em autores como Maquiavel, Hobbes e Rousseau).
Não é exatamente o que fez dessa vez; ao mostrar que no século XXI temos menos
guerras, genocídios, assassinatos, torturas e agressões físicas que em qualquer
outro período da humanidade (inclusive quando comparamos as sociedades atuais
com sociedades da antiguidade clássica e a povos indígenas) ele acaba por
evidenciar tanto o papel das instituições quanto das ideias – sobretudo
políticas! Segundo ele, por exemplo, na Idade Média o número de homicídios na
Europa era mais de trinta vezes maior que o de hoje naquele período um em cada
quatro nobres ingleses morria de forma violenta, considerando que as doenças
eram muito mais letais, o número impressiona. Estranhamente, a tese dá
sustentação às ideias de pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes, que
acreditavam que a centralização do poder, o fortalecimento do Estado e de suas
forças repressivas poderiam aumentar o grau de segurança e paz ainda que a
natureza humana fosse imutável, mas também aos iluministas, à defesa da
racionalidade como parâmetro para resolução de conflitos, à prerrogativa de
árbitros neutros, controle dos instintos, o sentido moral e a empatia enquanto
vinculação do caráter humano à defesa dos mais fracos.
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Indiferença criminosa
Indiferença criminosa
Nosso mundo é assim: algumas
pessoas não importam, outras simplesmente não se importam. O valor da vida é
proporcional à riqueza material e à conta bancária de cada um e quem determina
isso é a nossa pobre (di)visão dos homens, nossa cumplicidade e o nosso
silêncio, os que morreram ontem ou no mês passado, os que morrerão hoje ou
amanhã serão da nossa conta conforme o tamanho da conta que tinham no banco, a
cor da pele, o bairro onde moravam. Aqueles que morreram nas últimas semanas
não importavam, talvez já nem se lembre. A cena e o roteiro eram sempre os
mesmos: uma moto com dois homens encapuzados parando em frente a um grupo de
jovens, tiros, alguns baleados, uns mortos, outros feridos. Quantos morreram
assim ninguém vai saber, eram pobres e moravam na periferia. Os assassinos,
esses nunca serão conhecidos, nunca pisarão num tribunal, jamais serão julgados.
Desconfiamos de quem atirou, existem testemunhas, mas palavras de pobre ou de
preto também não contam. A polícia não
quer e não vai investigar e todas sabem o motivo. Quando os homens da lei
esquecem as regras e agem por conta própria, quando se tornam justiceiros
bancados com dinheiro público, quando formam esquadrões da morte e agem na
clandestinidade ou quando atiram e matam para espalhar o terror eles fazem isso
com a cumplicidade daqueles que não se importam e são esses os que importam,
são esses que garantirão o silêncio e a impunidade. Continue lendo:
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Um pedido de desculpas
Um pedido de
desculpas
Noventa e sete mortes. Vinte e três anos. Uma verdade escondida e uma
mentira oficial. Várias doses de ignorância, pitadas de poder e manipulação a
gosto. Junte esses ingredientes e você tem um rico material para pensar as
relações espúrias entre a mídia, o governo e os poderes do Estado. Dia 15 de
abril de 1989, os times do Liverpool e do Nottinghan Forest disputariam a final
da Copa da Inglaterra. Quando o jogo começa centenas de torcedores estavam fora
do estádio impedidos de entrar mesmo com ingressos nas mãos, é quando policiais
resolvem abrir os portões iniciando um tumulto, aqueles que estavam à frente
passam a ser empurrados contra as grades; como resultado, duas mil pessoas esmagadas
e 96 mortos. A maior tragédia da história do futebol europeu nasce de uma série
de erros, com um mínimo de organização não haveria mortos ou feridos. A polícia
impediu os torcedores de tentar escapar em direção ao campo e depois ainda condenando-os
à morte. Muitos deles não foram socorridos, o que poderia lhes garantir a vida.
É quando começam as mentiras, a polícia britânica culpou os torcedores do
Livepool, adulterou depoimentos, forjou situações e buscou transformar as
vítimas em culpados lhes imputando históricos de brigas, crimes e envolvimento
com álcool ou drogas. O governo inglês permitiu que as provas fossem alteradas
para redimir a culpa do poder público e evitar desgastes. Continue lendo:
terça-feira, 19 de junho de 2012
Bandidos e mocinhos
Bandidos e mocinhos
Quando crianças, aprendemos que o bem e o mau formam realidades distintas e antagônicas; em nossa infância o mundo se divide entre heróis e vilões, entre bandidos e mocinhos. Felizmente, quando crescemos tendemos a abandonar essa visão simplista e vemos que o mundo é mais complexo e que policiais e bandidos muitas vezes atuam juntos, de um mesmo lado. No post anterior disse que bandidos se escondem sob a farda de policiais, mas teve quem preferiu ler que eu teria dito que policiais são bandidos ou que eu fazia apologia ao crime; pode ser uma leitura equivocada, pode ser, então vou facilitar a leitura pois o que digo não é simples preconceito e o que exponho não são ideias que surgiram do nada. Desconfio sim da ação da polícia baiana na greve pois é a própria Secretaria de Segurança Pública quem põe policiais sob suspeita; quem acusa as milícias de praticarem matança é o setor de inteligência da Polícia Civil e quem diz com todas as letras que grupos paramilitares se aproveitaram da greve para matar quem estava incomodando foi o senhor Arthur Gallas, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa. Se existem críticas à atuação da polícia não é por maniqueísmo infantil, a violência policial não é criticada só por quem defende bandidos, mas por instituições importantes como a ONU e a Anistia Internacional que afirmam que a violência policial é um dos principais problemas de violação aos direitos humanos no Brasil; Continue lendo
terça-feira, 12 de junho de 2012
Quem nos proteje da polícia?
Quem nos proteje da polícia?
Por todo o país as polícias militares abrigam, escondem e protegem enormes contingentes de criminosos; a greve de policiais baianos apenas evidencia aquilo que qualquer jovem morador das periferias das grandes cidades sabe, desde sempre, por sentir na pele: que ladrões e assassinos, criminosos de todos os tipos, aproveitam o direito de usar armas, as fardas que vestem e o poder que o Estado lhes concede para praticar crimes. Às elites talvez assuste a ilegalidade dos atos praticados, é raro ver imagens de PMs encapuzados atirando a esmo e apavorando a população como se viu no centro de Salvador. Nas periferias o que choca é que os homens que deveriam proteger a população além de não cumprirem sua tarefa ainda contribuem para aumentar a sensação de insegurança. Durante a greve, 109 pessoas foram assassinadas apenas na capital baiana, 100 delas por arma de fogo, dessas pelo menos 59 foram baleadas na cabeça. Se o número é maior, os executados são os de sempre: jovens pobres e, em sua maioria, negros. Jamais saberemos quantos desses assassinatos foram praticados por policiais interessados em espalhar pânico e insegurança ou fazer acertos de contas. Ainda que se saiba, pelos boletins de ocorrência, que houve chacinas, que em pelo menos 26 casos os matadores estavam armados em comboios de até quatro veículos, atuação típica de milícias. Continue lendo







