Um homem só é homem diante da guerra! Somente com armas em punho e possibilidade de ser cruel e violento sem temer represálias é que ele pode ser aquilo que realmente é. Quando se pode receber condecorações por ser desumano e ser condenado por sentir piedade, quando se pode conseguir honra e glória por matar, quando compaixão vira sinônimo de covardia e quando se tem salvo conduto para praticar crimes e para reduzir o outro a lixo, somente nesses casos é que podemos conhecer o valor de um homem, suas convicções mais profundas e a natureza dos seus sentimentos. Nessa situação, no momento da guerra em que o poder está em suas mãos é se pode medir o quanto se é efetivamente humano. E isso é para poucos, bem poucos. A história mostra que a bestialidade é a regra, que a crueldade e a violência são quase inseparáveis e estão mais próximas a cada um de nós do que jamais assumiríamos; foi assim na Alemanha nazista, em Ruanda e no genocídio armênio, na guerra da Bósnia e no Camboja; foi assim sempre. Cada um de nós que se autoengana com a própria aparência de bondade se esquece que no fundo somos animais brutos que se escondem sob um verniz fino e opaco chamado civilização. Continue lendo
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sábado, 11 de junho de 2016
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Certezas fundamentais
Certezas fundamentais
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Temos idéias prontas e com elas enxergamos o mundo, os fatos são detalhes que servem para justificar as crenças que temos; a crise econômica e política nos Estados Unidos é uma mostra de como isso funciona, mesmo nas mentes que se pensam sofisticadas. Especialistas e analistas de esquerda e de direita, de dentro e de fora, se esforçam para encaixar os acontecimentos em suas teorias e ideologias, uns afirmam que é a decadência ou mesmo o fim da supremacia americana enquanto outros reafirmam a crença na capacidade do Império, uns sustentam que a crise tem origem na desregulamentação dos mercados e pedem mais intervenção dos governos enquanto outros tentam mostrar que a culpa é do Estado que se intromete demais. Entre o céu e a terra está o mundo palpável e nele os Estados Unidos ainda domina o jogo; o seu poder militar ainda é extraordinariamente superior ao de qualquer possível rival, seu poder ideológico, capaz de conquistar corações e mentes, é a cada dia mais hegemônico, o seu poder econômico ainda sustenta as relações entre os países, isso tudo lhe dá um poder político que está longe de definhar. Ao mesmo tempo, entretanto, temos um país em profunda crise política onde aqueles que deveriam representar os interesses da população se curvam diante dos interesses do mercado financeiro e esse mercado é refém de seus especuladores que insistem em privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Obama há muito deixou de ser esperança e mostrou-se um presidente fraco enquanto a oposição republicana a cada dia dá passos em direção ao conservadorismo fundamentalista. O cenário atual talvez evidencie apenas o crepúsculo, a escuridão ainda está por vir, enquanto isso, para nossa alegria ou tristeza, ainda teremos mais algumas décadas de domínio do Tio Sam. Quanto às certezas incertas, estas servem de conforto.
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terça-feira, 26 de março de 2013
Tanto anjos quanto demônios
Tanto anjos quanto demônios
A centralização do poder e o fortalecimento do Estado com suas forças
repressivas serviram para aumentar a segurança da sociedade, para garantir a
paz interna das nações e proporcionar a ‘vida menos solitária, pobre, sórdida
embrutecida e curta’, para usar a expressão de Hobbes, seu grande defensor.
Contudo, se o poder do Estado foi capaz de domar a natureza humana, como sugere
Steven Pinker (ver post anterior) e impor paz entre os homens, reduzindo o
constante temor ante o perigo da morte violenta, ele próprio se torna o
detentor da violência, que, antes dispersa entre os homens, agora ganha corpo e
poder extraordinário. O Estado e as forças atreladas a ele foram nos últimos
séculos os grandes executores da violência, num grau talvez jamais visto no
passado. Independente do regime, da forma de organização econômica, da
participação popular e dos detentores do poder o que se viu por todos os cantos
do planeta foi o uso do poder do Estado para crimes em massa, de assassinatos e
deportações, a campos de concentração e genocídios. A resolução dos conflitos,
antes no olho por olho, dente por dente, passaram a ser mediados pela esfera
política onde vence quem detém o poder estatal. A violência está na base do
Estado e essa violência que permite sua existência é constantemente voltada
para determinadas parcelas dos seus súditos, mulheres e homens que, ao menos na
teoria, abriram mão do seu poder individual e da capacidade de auto-defesa para
dar a essa força que os constrange o poder para proteger suas vidas e garantir
a paz.
terça-feira, 19 de março de 2013
Nem anjos nem demônios
Nem anjos nem demônios
The Better Angels of Our Nature, último livro de
Steven Pinker é uma obra interessante; menos pelas suas conclusões que pelo
enorme conjunto dados que apresenta. A obra analisa algumas das diversas
formas de violência utilizadas pelos homens ao longo da história para
mostrar como a humanidade nunca foi tão pacífica quanto é hoje. Psicólogo e
lingüista polêmico, professor de Harvard e pop star da ciência, Pinker passou
décadas se esforçando para mostrar evidências de algo que as ciências humanas
tem se empenhado para provar que não existe: uma natureza humana independente
das culturas e capaz de determinar boa parte do comportamento humano (ideia
presente na teoria política clássica em autores como Maquiavel, Hobbes e Rousseau).
Não é exatamente o que fez dessa vez; ao mostrar que no século XXI temos menos
guerras, genocídios, assassinatos, torturas e agressões físicas que em qualquer
outro período da humanidade (inclusive quando comparamos as sociedades atuais
com sociedades da antiguidade clássica e a povos indígenas) ele acaba por
evidenciar tanto o papel das instituições quanto das ideias – sobretudo
políticas! Segundo ele, por exemplo, na Idade Média o número de homicídios na
Europa era mais de trinta vezes maior que o de hoje naquele período um em cada
quatro nobres ingleses morria de forma violenta, considerando que as doenças
eram muito mais letais, o número impressiona. Estranhamente, a tese dá
sustentação às ideias de pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes, que
acreditavam que a centralização do poder, o fortalecimento do Estado e de suas
forças repressivas poderiam aumentar o grau de segurança e paz ainda que a
natureza humana fosse imutável, mas também aos iluministas, à defesa da
racionalidade como parâmetro para resolução de conflitos, à prerrogativa de
árbitros neutros, controle dos instintos, o sentido moral e a empatia enquanto
vinculação do caráter humano à defesa dos mais fracos.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Minhas aulas com Haddad
Minhas aulas com Haddad
'Qual o primeiro dever de um homem? A resposta é simples: ser ele
mesmo!' Por anos acreditei nisso, essa resposta me marcou desde que li Peer
Gynt, a frase é dele, devia ter uns quinze anos e essa ilusão ainda combinava
bem com meus outros sonhos. Ibsen havia plantado uma fraude em mim; era
mentira, um engodo, nós não podemos ser nós mesmos, somos o que mundo faz de
nós. As circunstâncias é que constroem os homens e raros são os que escolhem
seus destinos. As ruas escolhem os nossos passos e os relógios dominam o tempo
atropelando nossas escolhas como um demônio que nos manipula como marionetes,
com a diferença de sermos fantoches capazes de buscar prazer e glória: por elas
vendemos a alma ao diabo das circunstâncias. Parece ter acontecido algo assim
com Fernando Haddad: conheci um que foi meu professor, o homem do conhecimento
que desejava usar o saber para reconstruir o mundo; agora conheço um outro, o
que agora é o prefeito da cidade, o que se dedica à política e ao poder, aquele
que pela prática terá que saber que o bem poderá vir do mal e que o mal poderá
vir do bem, o Haddad que abdicou de ser ele mesmo para ser uma personagem para
si mesmo. Continue lendo:
terça-feira, 30 de outubro de 2012
O inferno dos jornais
O inferno dos jornais
O jornalismo brasileiro se
sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque
finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque
imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da
superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande
imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses
do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos:
dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias
políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de
plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam
a democratização da informação e são contrários às transformações e aos
movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder,
segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava
série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história
saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e
sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite
conservadora e autoritária... continue lendo:
terça-feira, 17 de julho de 2012
Marcha soldado
Marcha soldado
A Marcha para Jesus não é para Jesus e pouco ou nada tem a ver com fé.
Para um cristão não há duvida: o cristo, assim como Deus, está em todos os
lugares e tudo vê, não há sentido teológico reunir dezenas ou centenas de
milhares de pessoas para manifestar uma crença que é essencialmente individual.
A Marcha é antes de tudo um ato político e como tal uma manifestação de poder,
e não há nada de errado nisso, os evangélicos com qualquer outro grupo social
tem o direito de se manifestar e defender suas ideias e interesses; mas, por
coerência, poderiam ser honestos e assumir o que estão fazendo e o que
efetivamente querem. Os soldados que marcham, os cabeças de papel, acreditam
que se marcharem direito ganharão o reino dos céus; mas os comandantes do
exército conhecem bem a guerra e as estratégias para vencê-la. Entre as igrejas
evangélicas podemos encontrar alguns dos grupos criminosos mais bem organizadas
do país, não é difícil encontrar alguma igreja importante que tenha
envolvimento com esquemas de lavagem de dinheiro ou sonegação fiscal,
enriquecimento ilícito, estelionato ou falsidade ideológica; é o caso da
Renascer, principal organizadora do evento, cujos líderes, bispa Sônia e
apóstolo Hernandes, foram presos nos Estados Unidos e respondem a diversos
processos na justiça brasileira. Continue lendo
terça-feira, 5 de junho de 2012
Entre tapas e beijos
Entre tapas e beijos
Em algum lugar minimamente sério
o senhor Paulo Maluf estaria atrás das grades ou completamente enterrado, nem
que fosse em sentido figurado. Com seu nome na lista de corrupção internacional
do Banco Mundial e procurado pela Interpol, aos 80 anos o político paulista continua
vivendo tranquilamente entre sua mansão nos Jardins e o Congresso Nacional e é
disputado pelos mais importantes partidos políticos do país. Cria da ditadura,
Maluf é sinônimo de corrupto, sua vida é recheada de escândalos, suspeitas de
lavagem de dinheiro e mau uso do dinheiro público, mas no sistema político
brasileiro ainda está longe de ser cachorro morto, boa ou má sua imagem lhe dá
peso de lenda viva. Ainda assim, mesmo que tenha seus eleitores cativos, e não
são poucos, não seria de se esperar que a essa altura fosse cortejado por PT e
PSDB como se fosse a noivinha ideal. Ocorre que o malufismo possui uma força
significativa no conservador eleitorado paulista e o Dr. Paulo não deixou
herdeiros de peso, são votos capazes de decidir uma eleição; para além disso,
Maluf e seu partido possuem um tempo de televisão que vale ouro. Por menos de dois
minutos qualquer partido parece estar disposto a vender a alma ou, se ainda
restasse alguma, a dignidade. Sim, tempo é dinheiro e numa campanha eleitoral
quem o tem pode negociá-lo com quem lhe oferecer as melhores ofertas, alguns
segundos podem valer um vice, podem valer alguns ministérios ou secretarias,
isso para não entrar em questões mais evidentes de corrupção. Continue lendo
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
De volta a Idade Média
De volta a Idade Média
Uma das características mais marcantes do período medieval é o controle de todas as esferas da vida pela Igreja. O poder eclesiástico dominava a vida coletiva, determinando o certo e o errado, o bom e o ruim, o justo e o injusto, o belo e o feio e tudo o mais que envolvesse ideias, crenças e comportamentos. Cinco séculos depois corremos perigo, há quem deseje a volta desse mundo! Não faltam grupos que querem impor suas verdades e dogmas religiosos para toda a sociedade, que querem dominar a vida coletiva a partir de crenças religiosas. A escolha do novo ministro da pesca indica apenas um aspecto desse perigo. Talvez seja muito afirmar que o Ministério da pesca não vale nada ou não serve para nada, mas de fato não tem nenhuma relevância política, ainda assim a escolha de Marcelo Crivella para assumir o seu comando revela algo para além do conhecido jogo de toma lá da cá que caracteriza a política nacional. Crivella fez-se ministro por seu currículo: cantor e bispo da Igreja Universal, sobrinho do poderoso Edir Macedo e líder do PRB, partido dominado pelos evangélicos da IURD. Os petistas sabem que ao lado dos bispos não estão em boa companhia, a Universal vive metida em escândalos, mas sabe que é melhor tê-los como amigos que como adversários. Sabe que Edir Macedo comanda um império que movimenta bilhões de dólares e possui um dos mais importantes conglomerados de mídia do país – com a Record como carro chefe; um poder que atrai e assusta. Essa não é a pior parte. A escolha do ministro em grande medida se deve à pressão de grupos evangélicos para que o governo se curve diante de seus interesses, dogmas e crenças. São dezenas de parlamentares que se indispõem com o executivo por serem contra importantes avanços no campo dos direitos individuais; a maioria dos líderes das mais importantes igrejas evangélicas querem um Estado teocrático que restrinja as liberdades individuais em nome de suas crenças e os principais partidos do país, tremendo de medo, se curvam como moleques no colégio interno. De fato o Brasil nunca conseguiu ter um Estado laico nem afastar a influência das religiões nos assuntos públicos e nem é o caso de se desejar que esses grupos não lutem pelo que creem e pelo que lhes possa interessar, mas é preciso que esses grupos deixem claro que desejam impor seus dogmas, que não desejam um Estado laico e que, caso a população queira se submeter a eles, o país caminhará a passos largos para voltar à Idade Média.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Lousa de vidro e cara de pau
Lousa de vidro e cara de pau
Semana sim, semana não, um político de peso escreve algo sobre a importância da educação para o futuro do país. No último sábado foi a vez de Aécio Neves vomitar sua hipocrisia. Fora do estado, a greve de professores de Minas Gerais passou despercebida, como se não fosse um assunto importante e nacional mas quem se importa minimamente com a educação não pode esquecer a greve de professores em Minas. Para além da chance (mais uma) de se discutir os rumos da educação e do país, foi esquecido um ponto fundamental: a de que o estado foi governada oito anos por Aécio Neves, mais provável candidato da oposição à presidência do país em 2014. O fato de ter descumprido a lei nacional do piso do magistério e deixado o estado com o menor piso salarial do país (616 reais por 40 horas semanais, pouco mais da metade do mínimo exigido) e de não ter cumprido a norma que fixa que um terço da jornada seja destinado a atividades extraclasse não é um bom cartão de visita para um presidenciável. É fato que nenhum professor recebe apenas o piso mas o fato de não cumprir com o mínimo mostra a importância que Aécio deu à educação em seu governo. Também não cumprem a lei do piso os estados da Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul, enquanto a lei da jornada extraclasse é descumprida por pelo menos quinze estados, entre eles Ceará, Paraná e Pernambuco e São Paulo, estado mais rico da união – e onde mais de 60% das escolas possui problemas de superlotação em pelo menos uma sala. Esses números mostram o quanto o discurso está longe da realidade, enquanto todos falam da importância da educação a maioria dos governadores não cumprem com o mínimo exigido por lei; o baixo salário dos professores (em média 40% do que ganha um profissional com o mesmo nível de escolaridade, segundo a Pnad de 2009) e as precárias condições de trabalho afastam os profissionais mais qualificados, desestimula a formação de novos e dificulta o trabalho. Falar em educação como prioridade é muito fácil levar a educação à sério ainda não.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O grito das ruas
O grito das ruas
O ano de 2011 foi marcado pelas manifestações políticas nas ruas de cidades ao redor do mundo. Da praça Tahrir no Cairo a Wall Street em Nova York, das ruas de Londres a capital chilena. Em Israel, Espanha, Índia, Líbia, Grécia e nos cafundós do Judas as ruas foram tomadas por multidões em busca de mudanças maiores ou menores. Não há uma pauta de reivindicações que una esses manifestantes, existe, contudo, alguns pontos que permitem pensar uma certa unidade entre esses fenômenos; o primeiro, e talvez mais importante, é o fato da desconfiança e descrença generalizada nas regras do jogo e na política institucionalizada, mesmo aqueles que reivindicam a democracia representativa se mostram com um pé atrás em relação aos políticos e partidos tradicionais; o segundo é a centralidade da questão da desigualdade econômica, a afirmação de que a plenitude dos direitos e a própria possibilidade democrática só é possível com a redução das desigualdades econômicas; o terceiro é o uso das novas tecnologias que permitem novas formas de comunicação; o acesso à Internet e a utilização das redes sociais possibilitaram a mobilização rápida e um novo sistema de organização. Em grande medida esses acontecimentos remetam às manifestações ocorridas no início da década de 1990, chamadas pela grande mídia como movimento anti-globalização, que foram sufocadas após os atentados de 11 de setembro. Essas manifestações apontam para novas formas de organização política, muito mais difusa, menos coesa e mais pontual, portanto menos ideológica, porém mais forte, pois se forma numa nova forma de poder: aquele mesmo relacionado à comunicação e à formação da opinião pública mas agora menos atrelado à grande imprensa e às grandes corporações que controlam os meios de comunicação de massa.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O mocinho e o bom velhinho
O mocinho e o bom velhinho
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Por pouco não acreditei em Papai Noel! Se o bom velhinho não apareceu, o Correio trouxe o presente; veja que coincidência supimpa: ganhei um livro do Gabriel Chalita, e na minha ingenuidade nem sei exatamente por quê. Nunca o vi, jamais comprei ou compraria um livro seu, mas não é que o bom mocinho soube da minha existência e resolveu me presentear? Sei que mereço até mais, entretanto, não estivesse com a alma limpa pelo espírito natalino desconfiaria; afinal não é ele um dos nomes cotados para ser um dos homens fortes do PMDB e possível candidato à prefeitura de São Paulo? Se tivesse espírito de porco (como tenho) perguntaria como ele sabe meu endereço e quem bancou o livro, afinal imagino que mais algumas dezenas de milhares de exemplares foram deixados por aí para pessoas batutas como eu. Sua literatura de quinta categoria, mistura de auto-ajuda, citações filosóficas rasas e pregações de inspiração carismáticas não me convencem, como político não se sabe exatamente a que veio: ex-pupilo de Alckmin, como secretário da educação foi um fiasco – mais um no patético descaminho da administração tucana para a educação paulista, como deputado é só mais um, mas a cara de bom moço, a fala mansa e ordenada, o discurso contido de coroinha bem treinado e o enorme tempo que possuirá na televisão fazem de Chalita um político com grande potencial de voto, não à toa foi o deputado estadual mais votado nas últimas eleições e um dos favoritos na corrida pela prefeitura paulista. Ele é tudo o que o PMDB paulista precisava, é tudo o que a cidade não precisa!
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Deus e o Diabo nas urnas
Deus e o Diabo nas urnas
Neste mês de novembro um dos mais importantes partidos políticos do país completa cem anos: a igreja pentecostal Assembléia de Deus, o maior agrupamento evangélico pentecostal do país com cerca de 20 milhões de fiéis. Ao longo de um século a Assembléia cresceu, se organizando em diversos ministérios, e ganhou além de milhões de fiéis um enorme poder de influência sobre a vida pública nacional. Para além dos seus 23 deputados federais, a igreja abriga diversos outros políticos, lidera a Frente Parlamentar Evangélica da Câmara que agrega 63 parlamentares e tem se mobilizado para defender no pais algumas das mais importantes bandeiras conservadoras: a restrição de direitos para determinadas parcelas da sociedade, a intolerância contra homossexuais, a inferioridade da mulher na vida pública e a submissão da vida política aos valores religiosos. Nas últimas eleições presidenciais a Assembléia elegeu 73% dos seus candidatos ao Congresso, apoiou e se engajou na campanha de José Serra – que teve no pastor Silas Malafaia um de seus homens mais importantes e entusiastas – guiando seu rebanho de cabos eleitorais contra o ‘perigo comunista’ Dilma. Nenhum político pode desprezar uma organização que conta com mais de 10% da população do país, nenhuma Igreja quer se distanciar dos homens que podem lhe garantir privilégios e poder de influência; no culto em comemoração ao centenário estavam o prefeito Kassab, o governador Alckmin e o ministro Secretária Geral da presidência, talvez não exatamente por uma questão de fé.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Ilusões perdidas
Ilusões perdidas
Século passado. Devia ter uns catorze ou quinze anos e gostava de super-heróis: Marighella, Lamarca, Lênin, Marx... talvez quem sabe como substitutos de um Papai Noel ou de um Deus que já não fazia parte do meu mundo. Acreditava na revolução, na luta armada, sonhava em pegar em armas e transformar o mundo... Lia Os carbonários, O mini-manual do guerrilheiro urbano, Combate nas trevas e alguns textos mais fáceis de teoria política como cadernos de formação para jovens revolucionários. Com essa pequena bagagem, com sonhos e desejos de fazer a revolução fui eu atrás daqueles que então acreditava serem os sujeitos preparados para mudar o mundo: os companheiros do Partido Comunista. Na minha tola ilusão ali estariam os grandes homens que desprendidos de interesses pessoais mesquinhos se organizavam para construir um mundo mais justo, mais livre, mais igual, melhor. Em semanas estava eu nas passeatas e manifestações, levantando bandeiras, distribuindo panfletos, militando na União da Juventude Socialista – braço do partido, debatendo nos bares e escolas, pregando as boas novas. Meu muro caiu rápido, logo vi que daquele mato não sairia coelho, que sob uma sigla e um símbolo, sob uma foice e um martelo, estavam sujeitinhos medíocres, políticos profissionais e amadores em busca de status pessoal, de mesquinharias, vivendo de migalhas de poder. Nos últimos anos o partido cresceu e piorou, de certa forma chegou ao poder, faz parte do governo federal e tem espaço para mostrar a sua cara, teria espaço para mostrar suas ideias caso quisesse, caso as tivesse. Quando agora vejo diversas acusações de corrupção pairando sobre a velha sigla, ou talvez mais precisamente sobre alguns dos seus líderes, não tenho qualquer reação de espanto; era uma questão de tempo, o que me parecia óbvio um dia se tornaria público, o que me espanta é que aos catorze ou quinze eu tenha deixado de jogar bola na rua para participar de uma farsa que não era minha, me espanta que eu tenha jogado algumas fichas de sonhos num joguinho de cartas marcadas. Que vergonha, que vergonha!
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Crimes sem castigo
Crimes sem castigo
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Na falta de uma oposição minimamente consistente a base aliada parece se esforçar diariamente para atrapalhar o governo Dilma; entre escândalos de corrupção e incompetências, os partidos que sustentam o governo cavam os buracos nos quais pedem para serem sepultados. Não é, contudo, a má sorte ou o desígnio divino que explicam as seguidas crises, os problemas do governo começaram antes mesmo da posse da presidente, mais exatamente na composição das forças partidárias na partilha dos ministérios e cargos de alto escalão. Na busca de apoio e vantagens oficializou-se o jogo do toma lá-da-cá, o apoio partidário em troca de cargos e parcelas de poder. A escolha dos ministros foi negociada em balcões, nenhum critério técnico, nenhuma competência foi exigida, Dilma simplesmente aceitou nomes em troca de apoio; deu no que deu. Não há novidade na corrupção mas, por anos, a população apenas imaginava as vantagens dos homens do poder e pensava nas sofisticadas estratégias de corrupção e desvios de verbas públicas, hoje já não sabemos se esses homens são tão idiotas que já não conseguem esconder seus desvios ou se são tão autoconfiantes que já não se esforçam para esconder seus crimes. Cai um sobe outro. Ocorre que os partidos e seus homens parecem ter definitivamente perdido qualquer vergonha ou então chegaram a acreditar na mais completa leniência da sociedade, as precauções mais óbvias foram esquecidas como se o apadrinhamento fosse suficiente para esconder os erros mais primários. O custo disso será pago, primeiro pela população depois pelo governo.
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terça-feira, 16 de agosto de 2011
Caminhando e cantando
Caminhando e cantando
Uma série de manifestações tem ocorrido no Chile nos últimos meses para protestar contra o modelo de sistema educacional adotado no país. Grande parte das instituições de ensino secundário e superior está parada a pelo menos três meses, grandes protestos de rua, conflitos com a polícia, centenas de presos e alunos em greve de fome. O contraponto à revolta dos chilenos é a apatia bovina dos estudantes brasileiros. As avaliações internacionais mostram que o sistema chileno quando comparado ao brasileiro tem qualidade ainda muito superior e a porcentagem de jovens universitários também é maior por lá. Com reformas que vêm da ditadura Pinochet, o Chile é um dos países que mais longe levou o processo de privatização do ensino: na prática o governo sustenta boa parte do sistema educacional privado pagando, através de bônus – os vouchers – a permanência dos estudantes nas escolas e universidades. Como o bônus nem sempre é suficiente, os estudantes mais pobres usam esses recursos para pagar instituições mais baratas e de baixa qualidade enquanto os mais ricos os complementam para estudar nas melhores, bem mais caras; esse sistema não apenas reproduz como aumenta as já enormes desigualdades sociais. Os manifestantes, que contam com o apoio da maioria da população, exigem o fim desse sistema e pedem que os recursos públicos sejam destinados às instituições públicas e que o ensino seja gratuito e de boa qualidade para todos, se opondo ao governo que se recusa a rever essa política. Enquanto isso na Terra Brazilis o sistema educacional que segrega e cria ilusões individualistas continua indo de mal a pior mas com total aprovação dos jovens, que se contentam com qualquer coisa e ainda batem palmas. Talvez seja na capacidade de bater palmas que os estudantes brasileiros se diferenciem dos bois.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Quem quer manter a ordem?
Quem quer manter a ordem?
Saques, incêndios, barricadas, mais de mil presos. Para a governo é desordem, para a polícia é baderna e atividade criminosa, para a imprensa... bem a imprensa não costuma pensar, prefere repetir o discurso do governo, da polícia, de quem manda. Os protestos dos jovens ingleses começou em Tottenham após a morte Mark Duggan, líder comunitário vítima da violência policial. Óbvio, o assassinato foi apenas o estopim para uma revolta que se constrói ao longo de muitos anos, aqueles que se manifestam na rua são os mesmos que saíram às ruas para saudar o casamento do príncipe, são as vítimas do preconceito racial, da desigualdade falta de perspectiva econômica de uma sociedade em crise que se manifestam atacando aquilo que por anos lhes foi negado, são jovens que tem pouco a perder e não têm nenhuma crença na capacidade ou possibilidade de que as instituições e o poder público possam ou queiram resolver as questões que lhes doem na pele. Sobra a ironia: quando as manifestações contra o governo acorrem no oriente Médio o nome é democracia, quando as manifestações ocorrem nas cidades européias o nome é apenas vandalismo. Pode-se não perceber nada na superfície, mas nas profundezas o inferno está em chamas.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Portas fechadas
Portas fechadas
Anders Behring Breivik, tem 32 anos, é filho de diplomata, nasceu num dos países com melhor nível de vida do mundo, tímido e educado, cristão fervoroso, alto loiro, rico, ganhou seu primeiro milhão de dólares aos 24 anos. Anders Behring Breivik é o autor dos atos terroristas que mataram dezenas de pessoas na Noruega. Não vão faltar leigos e especialistas a dizer que o sujeito é um louco, nem aqueles que vão procurar justificativas em problemas mentais para o ato. Pode ser, mas não é o mais relevante, Anders é um homem racional que pratica ações baseadas em valores e esses valores é o que importa; suas idéias e seus ódios são compartilhados por milhões de europeus; o atirador matou em nome da fé cristã, das tradições nacionais e da pureza étnica, seus valores são os da extrema direita que admira Hitler e os regimes totalitários, que odeia imigrantes, sejam eles muçulmanos ou não. Mesmo agindo sozinho ele não estava só, Anders não saiu do nada, ele representa a extrema direita racista, xenófoba e intolerante que cresce em praticamente todos os países europeus, que ganha poder nas ruas e nos parlamentos e vem ganhando o establishment.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Tentação e decepção
Tentação e decepção
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Escrevi aqui meses atrás que o Partido Verde efetivamente não existe para além da sua sigla, que é um partido que não tem um programa que vá muito além das questões ambientais mais rasas e óbvias. Disse que a Marina Silva, sua candidata à presidência, pela sua trajetória pessoal representava aquilo que o PV sempre quis ter e não tinha, uma cara popular que o desligasse da figura classe média aburguesada ou da persona de um Fernando Gabeira cada dia mais conservador e atucanado, mas que ela era essencialmente petista e só saiu do partido a muito custo, com a promessa de que teria a candidatura assegurada. A união foi um jogo de interesses que agora chega ao fim. Por trás da imagem de bonzinhos, os verdes formam apenas mais um partido fisiológico; seus membros querem poder, cargos e benefícios e para isso estão dispostos às mais variadas trocas de favores e Marina foi um empecilho nesse jogo, embora estivesse deslocada e perdida não podia dar um passo à esquerda ou à direita sem desagradar a alguém ou sem colocar em risco os interesses oportunistas da cúpula do partido. A esperança não venceu o medo e ela capitulou, teve que sair do partido para não sucumbir com ele, com isso perde o palanque mas ganha em discurso, se conseguir uma sigla que lhe dê suporte pode voltar com alguma força, se não conseguir pode perder os holofotes da mídia e continuar escrevendo e falando apenas para os seus, caso tenha realmente algo a dizer.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Partido anencéfalo
Partido anencéfalo
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No geral, os partidos políticos brasileiros não passam de siglas para nomenclaturas que não significam nada ou quase nada. Servem mais para esconder um aglomerado de interesses individuais que como instrumento de luta em torno de ideias ou ideologias. Saído da cabeça do prefeito Gilberto Kassab, o Partido Social Democrata – PSD nasce como nascem os anencéfalos: fadado à morte prematura. É um partido que não representa coisa alguma, um aglomerado de interesses surgido da união de diversos políticos que não querem mais do que se livrar de suas antigas siglas e buscar migalhas em novas alianças com antigos adversários. Kassab, como figura mor, simboliza a nova sigla: não quer encrenca com ninguém, não é situação nem oposição; imaginando que assim é possível conquistar boquinhas em qualquer esfera do executivo ou legislativo afinal o que interessa é o poder pelo poder e as vantagens que dele decorre. Para muitos dos seus fundadores o PSD deve ser apenas um atalho, seria um caminhão de mudanças entre a velha e a nova casa não fosse o fato de não ter interesse de ir a lugar algum.



















