Tive um grande amor aos doze anos, se chamada Tetéia. Sei que nessa idade todos nós temos desses amores estranhos, inexplicáveis e impossíveis, sei que fui só mais um, mas também sei que a frieza estatística é sempre inútil para explicar o que cada um de nós pode sentir e levar no coração. Foi dessas paixões que ardem em chamas e incendeiam o sangue, das que não morrem e se eternizam em lembranças vivas. Lembro e vivo na memória o seu cheiro, o brilho dos seus olhos, a sua boca; sua extraordinária boca! A cada passo seu eu suspirava, desejando transformar o etéreo
Agora só me resta a esperança do céu. Eu estava longe quando Tetéia morreu naquele mês de agosto. Já não resistia às suas dores, tinha anemia, úlceras, artrose, insuficiência renal crônica: foi sacrificada. Soube que passou seus últimos anos ao lado de sua filha Sininho, aquela que longe dos meus olhos viu a mãe adoecer e morrer, a única que a acompanhou nos meses de agonia e na eutanásia. Sininho ficou dias sem comer e sem sair da água. Ontem eu a visitei e à noite pensei, sonhei, revivi meus doze anos. Amanhã talvez procure um psicólogo; senhores, o amor renasceu. Sou um homem de família!
