terça-feira, 1 de abril de 2014

Nada absoluto

Nada absoluto

Poucas coisas são tão difíceis de conceituar ou delimitar quanto a arte. Definir entre as diversas atividades humanas aquilo que é uma expressão artística e definir seu valor é uma tarefa extremamente complexa e envolve dilemas estéticos e ingredientes culturais os mais diversos. Podemos pensar arte em suas relações com a comunicação ou a psique humana, pensar a arte como linguagem ou como expressão de realidades interiores e exteriores ligadas à percepções, sentimentos ou ideias. Caminho menos árduo talvez seja o da visão sociológica: o da arte que expressa o mundo e o sentido coletivo que envolve a criação do artista; arte como efeito, reflexo e representação de um processo social. A arte é a marca mais visível do espírito de uma sociedade! Digo, o que talvez seja o óbvio, para afirmar o que de certo é extremamente duvidoso: que Lady Gaga é a maior artista do século XXI. Digo isso sem nenhuma referência às suas canções eficazes e banais. Ela é a maior como figura, forma e imagem. A obra de arte é a própria Gaga, criação e criatura, ela é a obra que se veste e se despe, que fala e anda como um objeto estético, como um produto em construção que comunica e provoca, que faz questionar, consumir, sentir e refletir sobre o mundo, sobre o absurdo da vida nesse início de milênio, sobre uma existência sem certezas e sem nenhum sentido. Há algo de profundo na sua aparente frivolidade... Continue lendo


(tema de um curso de sociologia na University of South Carolina). Sem nenhum grande talento que não fosse a extraordinária capacidade de compreender o que é pop art, Stefani Germanotta, soube mais do que ninguém, compreender o espírito desse mundo e se vender como mercadoria numa obra que intriga e fascina, nisso suas referências (e possíveis comparações) não estão na música mas nas artes plásticas e no impacto sofrido diante de Andy Warhol, Damien Hirst, Marina Abramovic e na cultura da por art americana. Nada é por acaso, ela não é tola, tudo é minuciosamente calculado, reflexo de estudos dedicados no período em que esteve na Tisch School of Arts da New York University. É essa capacidade de compreensão da realidade que a diferencia. Num mundo onde tudo que era sólido há muito já de desfez em poeira, em que tudo parece permitido e onde nada mais parece provocar qualquer reação de espanto, a criação de Stefani ainda consegue polemizar, se manter sob holofotes, dar um passo à frente – ainda que em direção ao nada absoluto. Não há de novo, não há nenhuma criação original, o que a torna grande é capacidade de perceber sentimentos e sensações, transformá-los em expressão estética e levá-los às últimas conseqüências. Nada mal para um mundo onde a arte está deitada em seu leito de morte e onde nada se cria e nada se transforma.



Atenção, esse texto possui algumas doses de ironia, sarcasmo e provocações baratas...