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terça-feira, 9 de abril de 2013

Culto à futilidade

Culto à futilidade

Qual o foi a última vez que você abriu a boca para falar algo que não fosse futilidade? Levando em conta que o cérebro humano, com dezenas de bilhões de neurônios interligados por outras dezenas de trilhões de sinapses, é a estrutura conhecida mais complexa do universo, é surpreendente a nossa capacidade de agirmos como idiotas a maior parte do tempo. Não é simples definir com exatidão o que é fútil ou irrelevante, o contexto ou a ocasião importam, mas isso é irrelevante, o que conta é o nosso ato voluntário de tentar viver num mundo infantil o tempo todo e de nos esquivarmos dos assuntos sérios e das questões espinhosas e o nosso medo de encaramos de frente as ideias que nos são contrárias. Braima foi meu aluno e professor, um sujeito raro, muçulmano nascido na Guiné Bissau ele vive no Brasil a poucos anos; talvez sem perceber, tinha o olhar estrangeiro que permite ver aquilo que já não conseguimos enxergar por nos ter se tornado óbvio, o olhar que o permite perguntar aquilo que nós não nos perguntamos: por que os brasileiros não conversam sobre coisas sérias e relevantes? No papel de professor nunca lhe dei uma resposta minimamente convincente, mas descobri na pergunta que o mestre da situação era ele, aquele que pôs a perturbadora questão a ser pensada. Obvio, como sempre, não tenho respostas mas devo ter passado mais que sete minutos especulando. Tenho dois palpites: somos umas bestas e queremos parecer legais. Continue lendo:
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A miséria e a filosofia

A miséria e a filosofia

É provável que em nenhum outro lugar do mundo se venda tantos livros de filosofia quanto no Brasil, é possível que a cada década se venda por aqui mais livros de Kant ou Hegel que em toda a história da Alemanha. Os grandes clássicos do pensamento ocidental podem ser encontrados em cada esquina, nas livrarias de aeroportos e rodoviárias, nas lojas dos shopping centers ou nas bancas de jornal. Todos citam, curtem e compartilham frases de Nietzsche e Schopenhauer como quem canta e repete os refrões de um samba enredo, nos enganando pensamos ser maquiavélicos e imaginamos sofrer com amores platônicos. As frases soltas, desconexas e sem sentido infestam o ar exalando o perfume da tolice mal disfarçada. Esse país de filosofia parece não ser aquele mesmo em que um terço dos universitários não consegue compreender os textos que leem ou o país que tem um terço dos adultos em situação de analfabetismo funcional nem o país que tem um dos piores sistemas educacionais do mundo. Mas é; e talvez esteja na nossa ignorância a explicação para o nosso consumismo filosófico. Nós desejamos consumir por status, para fingir ser o que não somos, para aparentar ter o que não temos, assim como os miseráveis que desejam comprar produtos de grife e celulares de última geração uma certa classe média quer consumir o que lhe dê uma aparência culta, quando percebe a miséria do seu capital cultural ela consome marcas filosóficas como se fossem etiquetas. Continue lendo:

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Indiferença criminosa

Indiferença criminosa

Nosso mundo é assim: algumas pessoas não importam, outras simplesmente não se importam. O valor da vida é proporcional à riqueza material e à conta bancária de cada um e quem determina isso é a nossa pobre (di)visão dos homens, nossa cumplicidade e o nosso silêncio, os que morreram ontem ou no mês passado, os que morrerão hoje ou amanhã serão da nossa conta conforme o tamanho da conta que tinham no banco, a cor da pele, o bairro onde moravam. Aqueles que morreram nas últimas semanas não importavam, talvez já nem se lembre. A cena e o roteiro eram sempre os mesmos: uma moto com dois homens encapuzados parando em frente a um grupo de jovens, tiros, alguns baleados, uns mortos, outros feridos. Quantos morreram assim ninguém vai saber, eram pobres e moravam na periferia. Os assassinos, esses nunca serão conhecidos, nunca pisarão num tribunal, jamais serão julgados. Desconfiamos de quem atirou, existem testemunhas, mas palavras de pobre ou de preto também não contam. A polícia não quer e não vai investigar e todas sabem o motivo. Quando os homens da lei esquecem as regras e agem por conta própria, quando se tornam justiceiros bancados com dinheiro público, quando formam esquadrões da morte e agem na clandestinidade ou quando atiram e matam para espalhar o terror eles fazem isso com a cumplicidade daqueles que não se importam e são esses os que importam, são esses que garantirão o silêncio e a impunidade. Continue lendo:


terça-feira, 30 de outubro de 2012

O inferno dos jornais

O inferno dos jornais

O jornalismo brasileiro se sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos: dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam a democratização da informação e são contrários às transformações e aos movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder, segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite conservadora e autoritária... continue lendo:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fezes honestas

Fezes honestas

O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves, afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o outro.  Continue lendo

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Minha Boca e seus olhos

Minha Boca e seus olhos

Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos, assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo de ver o homem e o mundo. Continue lendo