Qual o foi a última vez que você abriu a boca para falar algo que não fosse futilidade? Levando em conta que o cérebro humano, com dezenas de bilhões de neurônios interligados por outras dezenas de trilhões de sinapses, é a estrutura conhecida mais complexa do universo, é surpreendente a nossa capacidade de agirmos como idiotas a maior parte do tempo. Não é simples definir com exatidão o que é fútil ou irrelevante, o contexto ou a ocasião importam, mas isso é irrelevante, o que conta é o nosso ato voluntário de tentar viver num mundo infantil o tempo todo e de nos esquivarmos dos assuntos sérios e das questões espinhosas e o nosso medo de encaramos de frente as ideias que nos são contrárias. Braima foi meu aluno e professor, um sujeito raro, muçulmano nascido na Guiné Bissau ele vive no Brasil a poucos anos; talvez sem perceber, tinha o olhar estrangeiro que permite ver aquilo que já não conseguimos enxergar por nos ter se tornado óbvio, o olhar que o permite perguntar aquilo que nós não nos perguntamos: por que os brasileiros não conversam sobre coisas sérias e relevantes? No papel de professor nunca lhe dei uma resposta minimamente convincente, mas descobri na pergunta que o mestre da situação era ele, aquele que pôs a perturbadora questão a ser pensada. Obvio, como sempre, não tenho respostas mas devo ter passado mais que sete minutos especulando. Tenho dois palpites: somos umas bestas e queremos parecer legais. Continue lendo:
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 9 de abril de 2013
Culto à futilidade
Culto à futilidade
Qual o foi a última vez que você abriu a boca para falar algo que não fosse futilidade? Levando em conta que o cérebro humano, com dezenas de bilhões de neurônios interligados por outras dezenas de trilhões de sinapses, é a estrutura conhecida mais complexa do universo, é surpreendente a nossa capacidade de agirmos como idiotas a maior parte do tempo. Não é simples definir com exatidão o que é fútil ou irrelevante, o contexto ou a ocasião importam, mas isso é irrelevante, o que conta é o nosso ato voluntário de tentar viver num mundo infantil o tempo todo e de nos esquivarmos dos assuntos sérios e das questões espinhosas e o nosso medo de encaramos de frente as ideias que nos são contrárias. Braima foi meu aluno e professor, um sujeito raro, muçulmano nascido na Guiné Bissau ele vive no Brasil a poucos anos; talvez sem perceber, tinha o olhar estrangeiro que permite ver aquilo que já não conseguimos enxergar por nos ter se tornado óbvio, o olhar que o permite perguntar aquilo que nós não nos perguntamos: por que os brasileiros não conversam sobre coisas sérias e relevantes? No papel de professor nunca lhe dei uma resposta minimamente convincente, mas descobri na pergunta que o mestre da situação era ele, aquele que pôs a perturbadora questão a ser pensada. Obvio, como sempre, não tenho respostas mas devo ter passado mais que sete minutos especulando. Tenho dois palpites: somos umas bestas e queremos parecer legais. Continue lendo:
Qual o foi a última vez que você abriu a boca para falar algo que não fosse futilidade? Levando em conta que o cérebro humano, com dezenas de bilhões de neurônios interligados por outras dezenas de trilhões de sinapses, é a estrutura conhecida mais complexa do universo, é surpreendente a nossa capacidade de agirmos como idiotas a maior parte do tempo. Não é simples definir com exatidão o que é fútil ou irrelevante, o contexto ou a ocasião importam, mas isso é irrelevante, o que conta é o nosso ato voluntário de tentar viver num mundo infantil o tempo todo e de nos esquivarmos dos assuntos sérios e das questões espinhosas e o nosso medo de encaramos de frente as ideias que nos são contrárias. Braima foi meu aluno e professor, um sujeito raro, muçulmano nascido na Guiné Bissau ele vive no Brasil a poucos anos; talvez sem perceber, tinha o olhar estrangeiro que permite ver aquilo que já não conseguimos enxergar por nos ter se tornado óbvio, o olhar que o permite perguntar aquilo que nós não nos perguntamos: por que os brasileiros não conversam sobre coisas sérias e relevantes? No papel de professor nunca lhe dei uma resposta minimamente convincente, mas descobri na pergunta que o mestre da situação era ele, aquele que pôs a perturbadora questão a ser pensada. Obvio, como sempre, não tenho respostas mas devo ter passado mais que sete minutos especulando. Tenho dois palpites: somos umas bestas e queremos parecer legais. Continue lendo:
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A miséria e a filosofia
A miséria e a filosofia
É provável que em nenhum outro lugar do mundo se
venda tantos livros de filosofia quanto no Brasil, é possível que a cada década
se venda por aqui mais livros de Kant ou Hegel que em toda a história da
Alemanha. Os grandes clássicos do pensamento ocidental podem ser encontrados em
cada esquina, nas livrarias de aeroportos e rodoviárias, nas lojas dos shopping
centers ou nas bancas de jornal. Todos citam, curtem e compartilham frases de
Nietzsche e Schopenhauer como quem canta e repete os refrões de um samba
enredo, nos enganando pensamos ser maquiavélicos e imaginamos sofrer com amores
platônicos. As frases soltas, desconexas e sem sentido infestam o ar exalando o perfume da tolice mal disfarçada. Esse país de filosofia parece não ser aquele mesmo em que um terço
dos universitários não consegue compreender os textos que leem ou o país que
tem um terço dos adultos em situação de analfabetismo funcional nem o país que
tem um dos piores sistemas educacionais do mundo. Mas é; e talvez esteja na
nossa ignorância a explicação para o nosso consumismo filosófico. Nós desejamos
consumir por status, para fingir ser o que não somos, para aparentar ter o que
não temos, assim como os miseráveis que desejam comprar produtos de grife e celulares de
última geração uma certa classe média quer consumir o que lhe dê uma aparência
culta, quando percebe a miséria do seu capital cultural ela consome marcas
filosóficas como se fossem etiquetas. Continue lendo:
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Indiferença criminosa
Indiferença criminosa
Nosso mundo é assim: algumas
pessoas não importam, outras simplesmente não se importam. O valor da vida é
proporcional à riqueza material e à conta bancária de cada um e quem determina
isso é a nossa pobre (di)visão dos homens, nossa cumplicidade e o nosso
silêncio, os que morreram ontem ou no mês passado, os que morrerão hoje ou
amanhã serão da nossa conta conforme o tamanho da conta que tinham no banco, a
cor da pele, o bairro onde moravam. Aqueles que morreram nas últimas semanas
não importavam, talvez já nem se lembre. A cena e o roteiro eram sempre os
mesmos: uma moto com dois homens encapuzados parando em frente a um grupo de
jovens, tiros, alguns baleados, uns mortos, outros feridos. Quantos morreram
assim ninguém vai saber, eram pobres e moravam na periferia. Os assassinos,
esses nunca serão conhecidos, nunca pisarão num tribunal, jamais serão julgados.
Desconfiamos de quem atirou, existem testemunhas, mas palavras de pobre ou de
preto também não contam. A polícia não
quer e não vai investigar e todas sabem o motivo. Quando os homens da lei
esquecem as regras e agem por conta própria, quando se tornam justiceiros
bancados com dinheiro público, quando formam esquadrões da morte e agem na
clandestinidade ou quando atiram e matam para espalhar o terror eles fazem isso
com a cumplicidade daqueles que não se importam e são esses os que importam,
são esses que garantirão o silêncio e a impunidade. Continue lendo:
terça-feira, 30 de outubro de 2012
O inferno dos jornais
O inferno dos jornais
O jornalismo brasileiro se
sustenta sobre dois pilares: a hipocrisia e a estupidez. É hipócrita porque
finge e alardeia ter virtudes que efetivamente não tem e é estúpido porque
imagina ter qualidades que não possui e por esse erro respira o ar da
superioridade. Nessas bandas, como no geral em toda a América Latina, a grande
imprensa nunca foi democrática e apenas raramente esteve ao lado dos interesses
do povo, ou pelo menos do povo mais pobre. Não é difícil entender os motivos:
dominado por grandes grupos econômicos e muitas vezes atrelado a oligarquias
políticas, o grosso da mídia é submisso e subserviente aos poderosos de
plantão, que os banca e sustenta. Os grupos que dominam a imprensa não desejam
a democratização da informação e são contrários às transformações e aos
movimentos sociais que a reivindica, primeiro porque temem perder o poder,
segundo porque são beneficiários dessa estrutura. Qualquer estudante de oitava
série sabe que não há imprensa imparcial e se souber um pouco de história
saberá também que os principais veículos de comunicação pediram, apoiaram e
sustentaram a ditadura militar e os mais obtusos grupos da nossa elite
conservadora e autoritária... continue lendo:
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Fezes honestas
Fezes honestas
O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a
porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não
imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um
atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade
de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você
não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria
respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora
um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves,
afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava
assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender
a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia
deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E
nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três
minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja
preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana
já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice
diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o
outro. Continue lendo
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Minha Boca e seus olhos
Minha Boca e seus olhos
Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito
que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode
colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias
que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as
minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que
arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades
cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu
não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme
baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos,
assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que
o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo
motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora
estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as
décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo
meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de
companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo
de ver o homem e o mundo. Continue lendo





