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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O sorriso das hienas

O sorriso das hienas

Adeus revolução, adeus minha ilusão! Como descontente e insatisfeito, sempre imaginei que as pessoas desejavam viver em um outro mundo e que a vida cotidiana do trabalhador assalariado seria um fardo indesejado, pensava que aquelas pessoas com quem eu trombava nos ônibus e trens lotados estariam descontentes com suas rotinas, seus empregos e salários, com os serviços públicos e com o governo. Estava errado, assim como meu tio Marx! Os trabalhadores do mundo estão unidos em satisfação e meus companheiros de lotação só não sorriem mais por falta de dentes. Pesquisa realizada com mais de 9 mil trabalhadores de 16 países mostra que imensa maioria das pessoas sentem prazer em ir trabalhar, em 15 desses países o índice supera 80% e chega a 96% no topo da lista. Entre outras coisas, os trabalhadores estão satisfeitos com o tipo de trabalho, com a quantidade de horas, a estabilidade, a relação com seus chefes e a remuneração. E adivinha quem é o mais satisfeito? É nóis! Comparativamente, os brasileiros ganham menos que os europeus, americanos e japoneses, geralmente trabalham mais, vivem menos e em condições materiais inferiores, entretanto mais satisfeito. Não é surpresa, uma outra pesquisa, essa realizada com cerca de 200 mil pessoas em 158 países, mostra que o Brasil é também campeão em felicidade. Continue lendo


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contra os idiotas

Contra os idiotas

Somos todos prisioneiros, embora tenhamos penas diferentes ninguém escapa de suas celas. A vida cotidiana representa a clausura do indivíduo preso às futilidades cotidianas onde o homem torna-se espectador do mundo, refém das necessidades imediatas ditadas pela lógica das relações de produção e do consumo. Isso seria óbvio se não nascesse de um paradoxo, nunca fomos tão livres. Ocorre que a liberdade do indivíduo que caracteriza a modernidade traz em si um avanço ambíguo. Nela os indivíduos já não estão presos a laços sociais hierárquicos, a amarras religiosas ou morais; é inteiramente de cada indivíduo a responsabilidade de criar a si mesmo, o homem é o responsável por instituir ou validar os valores sob os quais pode e quer viver; mas isso é uma possibilidade que não se concretiza. Sabemos que o mundo não trás em si nenhum sentido e se nenhum valor é transcendente, universal ou divino, eles só podem ser estabelecidos na luta entre os homens, como arma e resultado de processos de dominação. O esfacelamento da moral cristã como denominador comum do mundo ocidental dá ao indivíduo a possibilidade de criar e recriar os valores sob os quais pretende viver mas isso exige uma racionalidade que é cada vez mais rara. Continue lendo: 


terça-feira, 7 de maio de 2013

O suicídio e a vida

O suicídio e a vida   


Jéssica decidiu morrer; para ser mais exato decidiu desistir da vida. Vítima de transtornos alimentares desde a infância, anoréxica em situação de magreza extrema, a mais de um ano ela não come alimentos sólidos esperando se livrar das dores que lhe atormentam o corpo e a alma. Hoje, aos 32 anos, ela vive em estado deplorável e certamente já não lembre aquela moça inteligente e simpática que estudou medicina por acreditar na vida quando ainda conseguia não apenas sorrir com seus prazeres mas também lutar para que outros sofressem menos. Pouco mais de três décadas foram o bastante para acumular problemas, sofrimentos e angústias suficientes para que simplesmente decidisse escolher ou aceitar a morte, seu último ou único desejo. Poderia como outros ter escolhido a hora e local, poderia ter se jogado da ponte, tomado veneno, escolhido a arma e a munição, mas escolheu a morte lenta, decidiu apenas se entregar, se deixar tomar. Por amor e piedade seus pais e amigos entenderam e respeitaram essa vontade e tudo chegaria ao fim dignamente não fosse uma decisão judicial. Jéssica, que na verdade não tem esse nome, não poderá levar a cabo seu último ou único desejo, deverá ser obrigada a se alimentar por ordem da justiça; seu destino foi decidido num tribunal, na cabeça de um juiz, um representante do Estado que não viveu sua vida, não sentiu suas dores nem partilhou suas angústias ou sofrimentos. Continue lendo

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A corda e o pescoço

A corda e o pescoço

Somos assim, na superfície tudo parece calmo, mas nas profundezas o inferno arde em chamas, pronto para explodir. Nos poços mais profundos da alma podemos perceber a engrenagem dessa máquina movida por desejos, instintos e interesses; é lá que poderemos encontrar o tênue equilíbrio entre o fogo que sustenta a vida e as chamas que nos levam à morte. Somos a espécie única de uma máquina capaz de autodestruir, apenas para nós o suicídio é uma possibilidade, como se a cada dia tivéssemos que nos responder a nós mesmos por que a vida vale a pena. Jacintha Saldanha resolveu morrer. Como tantas outras pessoas ao redor do mundo, num dia igual a qualquer outro dia decidiu dizer chega, saiu de casa, se despediu do marido e dos três filhos, escreveu três cartas de despedida foi para seu trabalho. Enfermeira, foi para o mesmo hospital onde cuidava da vida das pessoas e resolveu apelar para a tradição, amarrou uma corda no pescoço e se enforcou. Ninguém jamais poderá chegar às profundezas da sua alma, ninguém saberá seus motivos. Seria mais uma suicida, mais um número, faria parte das estatísticas, mas Jacintha havia se tornado conhecida três dias antes... Continue lendo:


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fezes honestas

Fezes honestas

O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves, afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o outro.  Continue lendo

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ídolos e heróis

Ídolos e heróis

Éramos crianças e escolhíamos os nossos super-heróis favoritos, aqueles que detinham os poderes que gostaríamos de ter. Desejávamos força e poderes extraordinários, capacidade de voar ou ficar invisível, viajar no tempo ou se tornar gigante, talvez combater monstros, o mal ou as injustiças do mundo. Sem perceber, crescemos, perdemos algumas ilusões, ganhamos outras, mas em nós aquele herói continua vivo e preso, ele sobrevive em algum lugar obscuro das nossas almas, talvez lutando contra as trevas que nos habitam. Trocamos o sonho de poderes sobrenaturais pelo desejo de ter qualidades que sabemos não possuir, mas que são acessíveis aos homens. Os heróis dão lugar aos ídolos, os homens medíocres trocam seus heróis completos mas inatingíveis por mortais que assim como nós são formados de carne, osso, estupidez e canalhice; mas tanto uns quanto os outros continuam dizendo mais sobre cada um de nós do que gostaríamos ou suportaríamos ouvir. Continue lendo