Certezas fundamentais
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Temos idéias prontas e com elas enxergamos o mundo, os fatos são detalhes que servem para justificar as crenças que temos; a crise econômica e política nos Estados Unidos é uma mostra de como isso funciona, mesmo nas mentes que se pensam sofisticadas. Especialistas e analistas de esquerda e de direita, de dentro e de fora, se esforçam para encaixar os acontecimentos em suas teorias e ideologias, uns afirmam que é a decadência ou mesmo o fim da supremacia americana enquanto outros reafirmam a crença na capacidade do Império, uns sustentam que a crise tem origem na desregulamentação dos mercados e pedem mais intervenção dos governos enquanto outros tentam mostrar que a culpa é do Estado que se intromete demais. Entre o céu e a terra está o mundo palpável e nele os Estados Unidos ainda domina o jogo; o seu poder militar ainda é extraordinariamente superior ao de qualquer possível rival, seu poder ideológico, capaz de conquistar corações e mentes, é a cada dia mais hegemônico, o seu poder econômico ainda sustenta as relações entre os países, isso tudo lhe dá um poder político que está longe de definhar. Ao mesmo tempo, entretanto, temos um país em profunda crise política onde aqueles que deveriam representar os interesses da população se curvam diante dos interesses do mercado financeiro e esse mercado é refém de seus especuladores que insistem em privatizar os lucros e estatizar os prejuízos. Obama há muito deixou de ser esperança e mostrou-se um presidente fraco enquanto a oposição republicana a cada dia dá passos em direção ao conservadorismo fundamentalista. O cenário atual talvez evidencie apenas o crepúsculo, a escuridão ainda está por vir, enquanto isso, para nossa alegria ou tristeza, ainda teremos mais algumas décadas de domínio do Tio Sam. Quanto às certezas incertas, estas servem de conforto.
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