quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contra os idiotas

Contra os idiotas

Somos todos prisioneiros, embora tenhamos penas diferentes ninguém escapa de suas celas. A vida cotidiana representa a clausura do indivíduo preso às futilidades cotidianas onde o homem torna-se espectador do mundo, refém das necessidades imediatas ditadas pela lógica das relações de produção e do consumo. Isso seria óbvio se não nascesse de um paradoxo, nunca fomos tão livres. Ocorre que a liberdade do indivíduo que caracteriza a modernidade traz em si um avanço ambíguo. Nela os indivíduos já não estão presos a laços sociais hierárquicos, a amarras religiosas ou morais; é inteiramente de cada indivíduo a responsabilidade de criar a si mesmo, o homem é o responsável por instituir ou validar os valores sob os quais pode e quer viver; mas isso é uma possibilidade que não se concretiza. Sabemos que o mundo não trás em si nenhum sentido e se nenhum valor é transcendente, universal ou divino, eles só podem ser estabelecidos na luta entre os homens, como arma e resultado de processos de dominação. O esfacelamento da moral cristã como denominador comum do mundo ocidental dá ao indivíduo a possibilidade de criar e recriar os valores sob os quais pretende viver mas isso exige uma racionalidade que é cada vez mais rara. Continue lendo: 


O mundo exterior não é capaz de dar qualquer sentido objetivo a vida humana, portanto essa tarefa poderia e deveria ser obra para cada indivíduo, escolher seu deus ou demônio, escolher a que ordem seguir e a partir dessa escolha conduzir sua vida. Nesse sentido o homem é livre, ocorre que, na sua vida cotidiana irracional ele está cada vez mais condenado à escravidão. Essa condenação significa o cerceamento das possibilidades de escolhas individuais e da dotação de sentido da vida a uma existência cada vez mais atrelada às necessidades exteriores e aos meios de sobrevivência material. A sociedade moderna, o Estado e a economia capitalista formam uma teia que se torna mais rígida a cada dia, da qual não é mais possível escapar mas é possível resistir.O cotidiano, a vida rotineira e disciplinada, o mundo racionalizado do especialista sem espírito e do homem do prazer sem coração tiram do homem a única tarefa que lhe resta: a de dar sentido a sua vida e conduzi-la de acordo com suas escolhas racionais. Ocorre que a condução da vida depende da capacidade e da vontade de tomar posição de maneira consciente ante o mundo e dar-lhe um sentido. O nascimento da lucidez perante o mundo só é possível a partir da noção do absurdo da existência humana; contudo, o cotidiano foi naturalizado e o espanto ao morrer nos leva junto ao seu túmulo. Diante do absurso não podemos nem devemos procurar a origem do mundo, mas, dado que ele existe e tal qual ele se mostra, saber como se deve, ou se pode, conduzir a vida. Se o mundo é absurdo, se a existência humana é absurda, o que se pode tentar, no fim das contas, é a superação da rotina inflexível e constante, que ao mesmo tempo embala o cotidiano mas não é capaz de dar qualquer fundamento a existência humana. O homem, individualmente, só é capaz de ser dono do seu destino, ou pelo menos de conduzir sua vida quando ele encontra em si uma unidade. Unidade aqui significa escolher qual o critério sob o qual vai entender e agir sobre o mundo. Vivemos em labirintos e não temos ao menos um fio que nos ajude a sair deles, a racionalidade ao menos nos permite imaginar a vida fora dele e sonhar com a possibilidade ou capacidade do homem de tomar as rédeas de uma situação, colocar-se acima da ‘massa’, sair do rebanho e ir além.