Um homem só é homem diante da guerra! Somente com armas em punho e possibilidade de ser cruel e violento sem temer represálias é que ele pode ser aquilo que realmente é. Quando se pode receber condecorações por ser desumano e ser condenado por sentir piedade, quando se pode conseguir honra e glória por matar, quando compaixão vira sinônimo de covardia e quando se tem salvo conduto para praticar crimes e para reduzir o outro a lixo, somente nesses casos é que podemos conhecer o valor de um homem, suas convicções mais profundas e a natureza dos seus sentimentos. Nessa situação, no momento da guerra em que o poder está em suas mãos é se pode medir o quanto se é efetivamente humano. E isso é para poucos, bem poucos. A história mostra que a bestialidade é a regra, que a crueldade e a violência são quase inseparáveis e estão mais próximas a cada um de nós do que jamais assumiríamos; foi assim na Alemanha nazista, em Ruanda e no genocídio armênio, na guerra da Bósnia e no Camboja; foi assim sempre. Cada um de nós que se autoengana com a própria aparência de bondade se esquece que no fundo somos animais brutos que se escondem sob um verniz fino e opaco chamado civilização. Continue lendo
Queremos acreditar que o monstro, que a besta-fera ou que o mau é sempre o outro e que nós não seríamos capazes de praticar as piores crueldades. Mentira, na imensa maioria das vezes, somos capazes de coisas que nos assustaria, coisas que nos pareceriam inimagináveis até nos piores pesadelos. Tivesse o destino colocado cada um de nós no posto de um soldado da SS ou de um interrogador do Dops, tivesse o destino nos colocado o poder de decidir a vida ou a morte dos nossos inimigos, o que seria de nós? Melhor desconfiar de mim, desconfiar de todos! Deveríamos colocar imagens dos maiores e dos piores massacres da humanidade ao lado do espelho que temos no banheiro e, todos os dias, ao escovar os dentes, lembrar do que somos capazes de fazer, lembrar do que a humanidade foi e é capaz de fazer. As guerras, os massacres, os genocídios e o holocausto foram obras humanas, coisa de gente como eu e você; devemos, portanto, cuidar cotidianamente para que nenhum homem possa ter o poder de se impor sobre qualquer outro pois sempre o que teve o resultado nunca foi bom.
