terça-feira, 9 de abril de 2013

Culto à futilidade

Culto à futilidade

Qual o foi a última vez que você abriu a boca para falar algo que não fosse futilidade? Levando em conta que o cérebro humano, com dezenas de bilhões de neurônios interligados por outras dezenas de trilhões de sinapses, é a estrutura conhecida mais complexa do universo, é surpreendente a nossa capacidade de agirmos como idiotas a maior parte do tempo. Não é simples definir com exatidão o que é fútil ou irrelevante, o contexto ou a ocasião importam, mas isso é irrelevante, o que conta é o nosso ato voluntário de tentar viver num mundo infantil o tempo todo e de nos esquivarmos dos assuntos sérios e das questões espinhosas e o nosso medo de encaramos de frente as ideias que nos são contrárias. Braima foi meu aluno e professor, um sujeito raro, muçulmano nascido na Guiné Bissau ele vive no Brasil a poucos anos; talvez sem perceber, tinha o olhar estrangeiro que permite ver aquilo que já não conseguimos enxergar por nos ter se tornado óbvio, o olhar que o permite perguntar aquilo que nós não nos perguntamos: por que os brasileiros não conversam sobre coisas sérias e relevantes? No papel de professor nunca lhe dei uma resposta minimamente convincente, mas descobri na pergunta que o mestre da situação era ele, aquele que pôs a perturbadora questão a ser pensada. Obvio, como sempre, não tenho respostas mas devo ter passado mais que sete minutos especulando. Tenho dois palpites: somos umas bestas e queremos parecer legais. Continue lendo:
 

Provavelmente, nunca antes na história a humanidade utilizou tanto tempo passando e recendo informações e é provável que o excesso de informações que circulam pelos nossos neurônios a cada dia serve para que fiquemos mais bobos e não menos. No Brasil esse drama ganha ares trágicos, passamos por escolas que mal servem para aprender a decifrar um texto e que em geral pouco ajudam para desenvolver o pensamento e saímos dela completamente despreparados para filtrar, questionar ou analisar informações. Em outros tempos a informação era a base do pensamento e diferenciava os cultos dos ignorantes, hoje há informação demais e raciocínio de menos porque ninguém tem tempo ou vontade para digerir as informações que engole sem parar. Por isso somos limitados, imaginamos conhecer muito mas nosso conhecimentos são como as finas camadas de gelo que no inverno recobrem os lagos, confortam os olhos com a ilusão da solidez mas são incapazes de resistir a qualquer provocação. Junta-se a isso a nossa vocação à cordialidade, somos eternas crianças em busca de atenção e afagos; as palavras se separam do pensamento e se tornam um alarido vazio de pessoas, que como cigarras, emitem sons o tempo para não comunicar nada que não seja a sua própria necessidade de atenção, desespero ou estupidez. Queremos parecer legais ou agradáveis e no nosso jardim da infância mental isso significa ser ou parecer um bestalhão. Sim, nossas vidas são essencialmente fúteis e, por falta de sentido, podem e devem continuar sendo assim, vividas ou levadas do modo mais leve possível, ocorre que a banalização dessa futilidade cotidiana não pode nos tirar a responsabilidade que temos sobre os rumos de toda a humanidade e sobre a vida do planeta; nossa futilidade contribui para um mundo pior.