Minhas aulas com Haddad
Num ambiente conservador, o velho Haddad era ainda um jovem professor
idealista, mas, ainda que militante, era fundamentalmente um intelectual de
esquerda, desses que aparentam efetivamente acreditar em certos sonhos
coletivos. O demônio das circunstâncias lhe ofereceu poder e glória em troca do
seu coração e da sua consciência. Ao demônio não se pode negar, a ele não se
diz não, assim como as circunstâncias o levaram à casa de Maluf, elas também o
levarão a negar o óbvio, a dizer o que não pensa, a se calar quando o grito
quer se impor, a fazer o que não quer e a desejar o que não se pode querer.
Triste destino de um homem que já não pode ser ele mesmo! O curso acabou, as
aulas se foram e já não há tempo para as últimas dúvidas, agora é tarde e eu já
não posso perguntar: professor, o que fizeram de ti, o que farão de ti?
'Qual o primeiro dever de um homem? A resposta é simples: ser ele
mesmo!' Por anos acreditei nisso, essa resposta me marcou desde que li Peer
Gynt, a frase é dele, devia ter uns quinze anos e essa ilusão ainda combinava
bem com meus outros sonhos. Ibsen havia plantado uma fraude em mim; era
mentira, um engodo, nós não podemos ser nós mesmos, somos o que mundo faz de
nós. As circunstâncias é que constroem os homens e raros são os que escolhem
seus destinos. As ruas escolhem os nossos passos e os relógios dominam o tempo
atropelando nossas escolhas como um demônio que nos manipula como marionetes,
com a diferença de sermos fantoches capazes de buscar prazer e glória: por elas
vendemos a alma ao diabo das circunstâncias. Parece ter acontecido algo assim
com Fernando Haddad: conheci um que foi meu professor, o homem do conhecimento
que desejava usar o saber para reconstruir o mundo; agora conheço um outro, o
que agora é o prefeito da cidade, o que se dedica à política e ao poder, aquele
que pela prática terá que saber que o bem poderá vir do mal e que o mal poderá
vir do bem, o Haddad que abdicou de ser ele mesmo para ser uma personagem para
si mesmo. Continue lendo:
Imagem: Cena do filme O sétimo selo [Det sjunde inseglet] de Ingmar Bergman (1956).
“Quem
se dedica à política, ou seja, ao poder e à força como meios, faz um
contrato com as potências diabólicas, e pela sua ação sabe-se não ser
certo que o bem só possa vir do bem e o mal possa vir do mal, ocorrendo
com frequência exatamento o contrário. Quem deixar de perceber isso é,
na realidade, um ingênuo em política.” Max Weber
