terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Minhas aulas com Haddad

Minhas aulas com Haddad

'Qual o primeiro dever de um homem? A resposta é simples: ser ele mesmo!' Por anos acreditei nisso, essa resposta me marcou desde que li Peer Gynt, a frase é dele, devia ter uns quinze anos e essa ilusão ainda combinava bem com meus outros sonhos. Ibsen havia plantado uma fraude em mim; era mentira, um engodo, nós não podemos ser nós mesmos, somos o que mundo faz de nós. As circunstâncias é que constroem os homens e raros são os que escolhem seus destinos. As ruas escolhem os nossos passos e os relógios dominam o tempo atropelando nossas escolhas como um demônio que nos manipula como marionetes, com a diferença de sermos fantoches capazes de buscar prazer e glória: por elas vendemos a alma ao diabo das circunstâncias. Parece ter acontecido algo assim com Fernando Haddad: conheci um que foi meu professor, o homem do conhecimento que desejava usar o saber para reconstruir o mundo; agora conheço um outro, o que agora é o prefeito da cidade, o que se dedica à política e ao poder, aquele que pela prática terá que saber que o bem poderá vir do mal e que o mal poderá vir do bem, o Haddad que abdicou de ser ele mesmo para ser uma personagem para si mesmo. Continue lendo:


Num ambiente conservador, o velho Haddad era ainda um jovem professor idealista, mas, ainda que militante, era fundamentalmente um intelectual de esquerda, desses que aparentam efetivamente acreditar em certos sonhos coletivos. O demônio das circunstâncias lhe ofereceu poder e glória em troca do seu coração e da sua consciência. Ao demônio não se pode negar, a ele não se diz não, assim como as circunstâncias o levaram à casa de Maluf, elas também o levarão a negar o óbvio, a dizer o que não pensa, a se calar quando o grito quer se impor, a fazer o que não quer e a desejar o que não se pode querer. Triste destino de um homem que já não pode ser ele mesmo! O curso acabou, as aulas se foram e já não há tempo para as últimas dúvidas, agora é tarde e eu já não posso perguntar: professor, o que fizeram de ti, o que farão de ti?


 


Imagem: Cena do filme O sétimo selo [Det sjunde inseglet] de Ingmar Bergman (1956).



“Quem se dedica à política, ou seja, ao poder e à força como meios, faz um contrato com as potências diabólicas, e pela sua ação sabe-se não ser certo que o bem só possa vir do bem e o mal possa vir do mal, ocorrendo com frequência exatamento o contrário. Quem deixar de perceber isso é, na realidade, um ingênuo em política.” Max Weber