terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Somos meio Nelson Ned

Somos meio Nelson Ned

Por vezes a vida imita a arte, mas é ainda mais provável ver que a arte imita a vida quase sempre numa falsificação mal feita. As criações humanas e os frutos da imaginação geralmente são insuficientes para retratar o absurdo, enquanto que a realidade da vida pode ser mais fantástica que a mais complexa e extraordinária das narrativas. Há personagens que se fossem ficções das criações humanas seriam absurdamente fantasiosos, inverossímeis, talvez caricatos. Nelson Ned foi uma dessas personagens do realismo fantástico; dentre os homens destes confins sul-americanos certamente um dos que mais merecem biografias em livros ou filmes e memórias em teses e versos. Esse outro tio Nelson, foi um desses que viveu todas as dores da vida e também todos os prazeres que o dinheiro pode comprar, viveu no luxo todo o lixo da experiência humana; teve a riqueza que, se não comprou o amor verdadeiro, comprou incontáveis noites de sexo e prazeres com as mais belas mulheres e toda as bebidas e drogas que transformavam os sonhos em alucinações necessárias e morfina para dor. Se a fama lhe trouxe grandeza e infortúnios, o dinheiro lhe trouxe o conforto da fantasia-mentira, quisera fosse tão fácil como comprar ouro ser capaz de comprar o véu que encobre a canalhice humana. Continue lendo...





Viveu como poucos o mundo da mercadoria, teve muito e gastou tudo, cada moeda um drama e um alívio, morreu pobre e sem saúde, cuidado pelas irmãs como se fosse uma criança incapaz. Enquanto vendia mais de um milhão de discos nos States e colecionava discos de ouro por todo o continente, Nelson Ned conquistava humilhações, desilusões, desprezo e dores, os mais verdadeiros dos troféus que a vida oferece. Era o homem que conseguia lotar estádios por toda a América Latina mas não conseguia preencher os vazios da alma. Sua música não era a do romantismo brega do corno da festa de rodeio, era, como ele dizia, conseqüência da sua mais profunda dor. Não da dor fingida do poeta mas daquela realmente vivida, e vivida não apenas na cegueira, diabete, alcoolismo e Alzheimer, mas da dor da criança que nunca foi amada, da dor de uma alma gigante presa num corpo de pouco mais de um metro. Acometido de nanismo e deformações nos ossos, soube como poucos o que é ver as limitações do corpo se apresentarem como chagas do espírito – que na solidão e no desespero tenta encontrar deus enquanto passeia no caminho de trevas. Lá se foi um triste. A angústia encontrou a morte, sua liberdade.  Nelson foi gigante na sua complexidade existencial, foi um de nós e diante dele somos todos meio Nelson Ned e como ele sabemos que nem tudo passa, nem tudo passará