segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Propriedade privada

Propriedade privada  


Podemos gostar de diversas cores e de diversos lugares, reconhecermos que cada coisa tem o seu brilho, o seu espaço e a sua hora, podemos gostar de dois cães ou três gatos e desejar mamão à tarde e goiaba à noite. Não questionamos que um pai ou uma mãe seja capaz de amar intensamente cada um dos seus filhos. Ao longo da vida nos deparamos com milhões de pessoas e dessas nos olhares se deterão em milhares, nos sentiremos atraídos por centenas e com algum ardor podemos desejar algumas dezenas. No fundo, a maioria de nós entende que podemos desejar e mesmo amar duas ou mais pessoas simultaneamente, que podemos desejar pessoas diferentes assim como desejamos coisas diferentes, que podemos amar pessoas diferentes como amamos nossos pais e mães ou como amamos cães e gatos. Um amor não exclui outro, um desejo não acaba com outro. O que diferencia o amor humano, o tal amor romântico, é que esse ao contrário daqueles nos pede e exige exclusividade. Mas o amor nunca criou a monogamia, quem a criou foi o egoísmo do ser amado. A insegurança, o medo, o orgulho e a vontade de subordinar o outro aos nossos desejos e interesses é que nos fazem impor o relacionamento monogâmico, nos fazem exigir que o outro nos olhe como se fôssemos únicos quando na verdade somos só mais um; como qualquer outro, cada um de nós é um conjunto de ideias, crenças, comportamentos que povoam um corpo construído em ossos e carnes. Continue lendo:



Embora sejamos um conjunto único somo como uma colcha de retalhos e os retalhos que nos formam estão por aí espalhados nuns e noutros. O que nos atrair na pessoa x também encontraremos em dezenas pessoas y ou noutras tantas entre a e z. Ninguém nasce pra ninguém, não somos feitos um para o outro. No passado talvez tenha havido razões para a defesa da propriedade privada dos meios de reprodução, o acasalamento tinha uma relação direta com a sobrevivência da espécie, mas isso é passado e hoje e que nos cabe é um pouco de hipocrisia para dizemos que amamos um e não desejamos outro, ou será que posso desejar a perna e o braço de Maria sem desejar o braço e a perna de Tereza, e as costas daquela, os olhos da outra... Apenas o pacto que tenho com uma é que me faz negar a mim mesmo e ao mundo o desejo que sinto pela outra. O desejo de exclusividade só se explica pelo mais profundo egoísmo, pela vontade de ser único e, como tal, endeusado por alguém. Isso não significa uma negação do amor ou da paixão, mas apenas que eles são efetivamente raros e com prazo de duração.  A exclusividade é fruto não do amor que respeita o outro mas da paixão que só percebe a si, a dolorosa e obsessiva doença da alma que causa a patológica sensação de que a felicidade e a satisfação se encontram no outro. Os antigos gregos e romanos sabiam que essa perda da razão e causa de sofrimento é passageira, os neurocientistas de hoje sabem que a causa é apenas um desequilíbrio bioquímico no cérebro; talvez em breve teremos comprimidinhos a venda nas farmácias para esse mal. Para o egoísmo é mais difícil.