Eu me recuso a assistir a certos filmes. Por pura arrogância. Acredito
que minha imaginação é muito mais genial do que as imagens que qualquer cineasta pode
colocar nas telas. Por isso não desejo assistir a versões de estórias
que estão construídas na minha cabeça, elas provavelmente destruiriam as
minhas construções mentais. Não quero ver imagens e personagens que
arduamente construí no meu mundinho imaginário ganharem aspecto de cidades
cenográficas e os mesmos rostos conhecidos de personagens de outros filmes, eu
não crio personagens com cara de ator. Por isso não pretendo assistir Boca, filme
baseado na vida de Hiroito Joanides, meu herói. Tentei, perdi uns dois ou três minutos,
assisti mais que o trailer, não me vale a pena. Quando, a dois anos, soube que
o filme seria feito escrevi: estou feliz e triste ao mesmo tempo, pelo mesmo
motivo, a figura mais extraordinária da vida paulistana vai parar no cinema. Agora
estão aí, o filme e o homem. Para quem não conhece, Hiroito foi entre as
décadas de 1950 e 60 o rei da Boca do Lixo, a nossa mais famosa zona de baixo
meretrício de São Paulo. Para mim, há uma década ele tem sido uma espécie de
companheiro invisível, um amigo constante, um sujeito que me influenciou o modo
de ver o homem e o mundo. Continue lendo
Foi cafetão, traficante, ladrão, assassino, passou anos na cadeia, saiu, virou escritor e fez um livro fascinante. Também era metido a intelectual, foi leitor de Heidegger e Baudelaire. Cínico, arrogante, hipócrita e gênio, usava o que aprendia nos livros de filosofia para dominar e transformar o submundo da cidade e, entre prazeres e vícios proibidos, à margem da lei e dos bons costumes, dominar o quadrilátero do pecado, na atual Cracolândia. Personagem de si mesmo, anos depois ele diria: 'eu e a sociedade estamos quites; o muito de mal que ela causou-me, retribuí-lhe com o muito de perturbação que lhe causei'. Seria uma personagem que certamente poderia dar um filme extraordinário. Por anos pensei em escrever sobre ele e sobre a Boca, se pudesse eu teria feito esse filme. Até agora era uma figura que fazia parte da minha vida e talvez de mais umas duas ou três pessoas, era quase um segredo; lembro que criei uma comunidade no Orkut, talvez tenha conseguido juntar umas cinco pessoas. Provavelmente agora ele se tornará famoso, muita gente vai falar dele. Meu egoísmo será ferido, mas o lendário Hiroito, e quem assistir o filme, certamente vão sair ganhando. Tomara que ele crie novos discípulos! Que o filme faça sucesso. Mentira, que não faça! Quanto mim, prefiro a minha memória e a minha imaginação, meu modo de fantasiar o mundo pode não ser o melhor ou o mais belo, mas é meu, parte de mim e me contenta. Azar o seu se você não é capaz de entrar nos pesadelos que povoam meu ser, se não pode conhecer as trevas da minha imaginação e os abismos da minha alma, azar o seu!
