terça-feira, 7 de maio de 2013

O suicídio e a vida

O suicídio e a vida   


Jéssica decidiu morrer; para ser mais exato decidiu desistir da vida. Vítima de transtornos alimentares desde a infância, anoréxica em situação de magreza extrema, a mais de um ano ela não come alimentos sólidos esperando se livrar das dores que lhe atormentam o corpo e a alma. Hoje, aos 32 anos, ela vive em estado deplorável e certamente já não lembre aquela moça inteligente e simpática que estudou medicina por acreditar na vida quando ainda conseguia não apenas sorrir com seus prazeres mas também lutar para que outros sofressem menos. Pouco mais de três décadas foram o bastante para acumular problemas, sofrimentos e angústias suficientes para que simplesmente decidisse escolher ou aceitar a morte, seu último ou único desejo. Poderia como outros ter escolhido a hora e local, poderia ter se jogado da ponte, tomado veneno, escolhido a arma e a munição, mas escolheu a morte lenta, decidiu apenas se entregar, se deixar tomar. Por amor e piedade seus pais e amigos entenderam e respeitaram essa vontade e tudo chegaria ao fim dignamente não fosse uma decisão judicial. Jéssica, que na verdade não tem esse nome, não poderá levar a cabo seu último ou único desejo, deverá ser obrigada a se alimentar por ordem da justiça; seu destino foi decidido num tribunal, na cabeça de um juiz, um representante do Estado que não viveu sua vida, não sentiu suas dores nem partilhou suas angústias ou sofrimentos. Continue lendo

 

Um julgamento tão absurdo quanto a vida ou a morte e que reacende questões fundamentais e cotidianas da vida política: o que os governos e a sociedade devem ou podem decidir sobre a nossa vida ou a nossa morte? A quem pertence a vida de cada um de nós? Se a minha vida me pertence eu posso dar cabo dela quando bem entender? Ao julgar o caso, ocorrido semanas atrás no Reino Unido, Peter Jackson decidiu que "apesar de não entender neste momento que a sua vida é preciosa, pode ser que a jovem entenda no futuro", e, por isso, ela será obrigada a se alimentar mesmo que para isso tenha que ser sedada ou imobilizada. Não é um argumento a ser desprezado, mas prefiro ficar ao lado do escritor Stig Dagerman, também um suicida, para quem o suicídio é a única prova da liberdade do homem. Sim, decidir se a vida merece ou não ser vivida é a grande tarefa mental a que cada um de nós deve responder. Estou com você Jéssica, torço pela sua morte!