terça-feira, 21 de agosto de 2012

O cadáver cordial

O cadáver cordial  


Nelson Rodrigues está completando um século, mais vivo do que nunca o desgraçadinho. Cem anos despertando amores e ódios intensos e eternos. Parece que hoje o respiramos em todos os ares, mas nos perfumes sublimes e não nos odores mais fétidos.  Desde o dia em que foi descansar o corpo no Cemitério do Caju, o milagre se operou, aquele que era odiado por todas as bandas passou a ser amado até pelos inimigos. Ah essa nossa canalhice! Aquele que nunca foi complacente, que nunca poupou ninguém e que atirava em todas as direções deve estar odiando saber que chega aos cem se aproximando da unanimidade; poderia ser uma rara unanimidade, precisa, inapelável e eterna como o Juízo Final, mas não, parece ser apenas mais uma unanimidade burra; a burrice se aproximou dele para torná-lo unânime. Sinal dos tempos, aquele que foi odiado, rejeitado e vaiado pela esquerda e pela direita, por conservadores e liberais, por putas e freiras, agora parece ser o defunto de casaca com cara de mordomo, querem deixá-lo livre das provocações e polêmicas, querem matá-lo. O sujeito obsceno, machista, conservador, reacionário e autoritário morreu para dar lugar a outro, o cara das frases feitas jogadas ao vento, o cadáver tranquilo que já não provoca iras e rancor. Continue lendo



Parte do mundo em que tio Nelson viveu já não existe, embora tanto naquele quanto neste os idiotas dominem tudo e nos matem um pouco a cada dia, o que o torna atual é aquilo que os antigos chamavam de natureza humana ou a capacidade de percebê-la envolta no lodo, na lama inconfessa e encantada da alma, ele sabe que o que nos torna grandes e pequenos; o nosso ponto demasiado humano é nossa capacidade de viver a contradição, coerência é para os fracos! Quem observa os sentimentos humanos sabe que coerência só serve para satisfazer os gramáticos. Sua grandeza está nos desafios que nos impõe, no espanto diante do óbvio, na provocação, na imposição de uma leitura que tenta desvendar as lógicas presentes ou ausentes nas contradições da alma. Num país onde a palavra é medida e a desfaçatez é regra, tio Nelson se tornou o maior dramaturgo brasileiro por ser o grande cronista da vida cotidiana, por expor a vida como ela é. Se não escrevia sobre pessoas normais é por que sabia que elas não existem, por traz do drama e da comédia suas personagens são pessoas ridículas rodeadas por farsas, movidas por elementos sórdidos, atraídas pela morbidez. O reacionário e o profundamente libertário que conviviam nele despertavam ódios por devassar nossa intimidade e expor as fraturas do nosso caráter, se hoje já não choca é porque as pequenas fraturas se tornaram grandes e estão expostas como ossos em açougue. Tio Nelson, só os tuberculosos podem ser capazes de compreendê-lo. Meu cinismo me faz agradecer aos deuses pela falta de caráter, só aquele que teve o seu caráter corrompido no caminho da escola pode gostar de fato do tio Nelson; eu gosto.