terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

De volta a Idade Média

De volta a Idade Média

Uma das características mais marcantes do período medieval é o controle de todas as esferas da vida pela Igreja. O poder eclesiástico dominava a vida coletiva, determinando o certo e o errado, o bom e o ruim, o justo e o injusto, o belo e o feio e tudo o mais que envolvesse ideias, crenças e comportamentos. Cinco séculos depois corremos perigo, há quem deseje a volta desse mundo! Não faltam grupos que querem impor suas verdades e dogmas religiosos para toda a sociedade, que querem dominar a vida coletiva a partir de crenças religiosas. A escolha do novo ministro da pesca indica apenas um aspecto desse perigo. Talvez seja muito afirmar que o Ministério da pesca não vale nada ou não serve para nada, mas de fato não tem nenhuma relevância política, ainda assim a escolha de Marcelo Crivella para assumir o seu comando revela algo para além do conhecido jogo de toma lá da cá que caracteriza a política nacional. Crivella fez-se ministro por seu currículo: cantor e bispo da Igreja Universal, sobrinho do poderoso Edir Macedo e líder do PRB, partido dominado pelos evangélicos da IURD. Os petistas sabem que ao lado dos bispos não estão em boa companhia, a Universal vive metida em escândalos, mas sabe que é melhor tê-los como amigos que como adversários. Sabe que Edir Macedo comanda um império que movimenta bilhões de dólares e possui um dos mais importantes conglomerados de mídia do país – com a Record como carro chefe; um poder que atrai e assusta. Essa não é a pior parte. A escolha do ministro em grande medida se deve à pressão de grupos evangélicos para que o governo se curve diante de seus interesses, dogmas e crenças. São dezenas de parlamentares que se indispõem com o executivo por serem contra importantes avanços no campo dos direitos individuais; a maioria dos líderes das mais importantes igrejas evangélicas querem um Estado teocrático que restrinja as liberdades individuais em nome de suas crenças e os principais partidos do país, tremendo de medo, se curvam como moleques no colégio interno. De fato o Brasil nunca conseguiu ter um Estado laico nem afastar a influência das religiões nos assuntos públicos e nem é o caso de se desejar que esses grupos não lutem pelo que creem e pelo que lhes possa interessar, mas é preciso que esses grupos deixem claro que desejam impor seus dogmas, que não desejam um Estado laico e que, caso a população queira se submeter a eles, o país caminhará a passos largos para voltar à Idade Média.