Brasileiro odeia pobre e ama a
riqueza; os mais pobres não são vistos como pessoas iguais em caráter e em
direitos e, paradoxalmente, os ricos, mesmo invejados, estão sempre sob
suspeita quanto à origem da sua riqueza! Assim como os americanos do norte,
vivemos a ilusão de que o pobre é responsável pela situação em que vive, nosso
pensamento individualista tosco coloca na testa de cada um deles a marca do
fracassado e o estigma do incapaz enquanto ao rico a cabe a pecha da
desonestidade; essa como uma falha suavizada, não como uma falta do caráter mas
quase como um destino que lhe permite uma mistura de esperteza e oportunidade.
Por essas terras é mais vergonhoso ser pobre honesto que ser rico a base de
falcatruas, afinal o importante é levar vantagem sempre, certo? Nesse mundo parece
não haver espaço para luta de classes. A velha classe média e a nova classe C
se incomodam com os programas assistenciais do governo que não lhes beneficiam,
não querem pagar pelo Bolsa Família ou pelo bolsa qualquer coisa e se
esperneiam ao dizer que esses programas só servem para sustentar vagabundos e
seus vícios. Não pensam assim por serem liberais mas por preconceito e
desconhecimento. No Brasil são os mais pobres que, proporcionalmente, pagam
mais impostos e o governo age como um Hobin Hood às avessas, distribuindo aos
ricos o que tirou da maioria. No último ano o orçamento da União mostra que
quase metade do que foi arrecadado serviu para o pagamento de dívidas,
geralmente com grandes bancos nacionais ou estrangeiros. Bilhões de reais em
juros de dívida mas também bilhões de reais em corrupção, de impostos que saem
do arroz e do feijão e vão parra em bancos suíços, é dinheiro fácil que circula
entre mãos de pessoas que não usam transporte público, que não trabalham 40
horas semanais, que não vivem de salários e que não chegam endividadas ao fim
de cada mês. Mas a riqueza tem brilho e a pobreza cheiro ruim e a sensibilidade
dos sentidos nos aproxima daquilo que desejamos ter e ser, danem-se os famintos.
Meses atrás um grupo de milionários americanos e europeus propôs que os
governos de seus países cobrassem impostos maiores sobre eles – os ricos, que
assim contribuiriam com suas cotas para que seus países pudessem sair da crise.
Ainda que tenha vindo de quem não se esperaria, a proposta trabalha sobre o
óbvio: se as cargas tributárias tendem a pesar mais sobre os pobres que sobre o
ricos e os governos tendem a apoiar mais os mais esses últimos, quem se
beneficiou mais que pague mais. O salvador deverá voltar antes que algum
milionário brasileiro se apronte a defender algo semelhante por aqui, onde
ninguém parece disposto a encampar esse tipo de heresia; taxar fortunas e
heranças ou distribuir riquezas ainda é coisa de comunista ou coisa do capeta. Na
falta de ética, o povo gosta mesmo é de ver ostentações, se o mundo é injusto
ao menos ele brilha.
