terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Milionário e José Rico

Milionário e José Rico

Brasileiro odeia pobre e ama a riqueza; os mais pobres não são vistos como pessoas iguais em caráter e em direitos e, paradoxalmente, os ricos, mesmo invejados, estão sempre sob suspeita quanto à origem da sua riqueza! Assim como os americanos do norte, vivemos a ilusão de que o pobre é responsável pela situação em que vive, nosso pensamento individualista tosco coloca na testa de cada um deles a marca do fracassado e o estigma do incapaz enquanto ao rico a cabe a pecha da desonestidade; essa como uma falha suavizada, não como uma falta do caráter mas quase como um destino que lhe permite uma mistura de esperteza e oportunidade. Por essas terras é mais vergonhoso ser pobre honesto que ser rico a base de falcatruas, afinal o importante é levar vantagem sempre, certo? Nesse mundo parece não haver espaço para luta de classes. A velha classe média e a nova classe C se incomodam com os programas assistenciais do governo que não lhes beneficiam, não querem pagar pelo Bolsa Família ou pelo bolsa qualquer coisa e se esperneiam ao dizer que esses programas só servem para sustentar vagabundos e seus vícios. Não pensam assim por serem liberais mas por preconceito e desconhecimento. No Brasil são os mais pobres que, proporcionalmente, pagam mais impostos e o governo age como um Hobin Hood às avessas, distribuindo aos ricos o que tirou da maioria. No último ano o orçamento da União mostra que quase metade do que foi arrecadado serviu para o pagamento de dívidas, geralmente com grandes bancos nacionais ou estrangeiros. Bilhões de reais em juros de dívida mas também bilhões de reais em corrupção, de impostos que saem do arroz e do feijão e vão parra em bancos suíços, é dinheiro fácil que circula entre mãos de pessoas que não usam transporte público, que não trabalham 40 horas semanais, que não vivem de salários e que não chegam endividadas ao fim de cada mês. Mas a riqueza tem brilho e a pobreza cheiro ruim e a sensibilidade dos sentidos nos aproxima daquilo que desejamos ter e ser, danem-se os famintos.

Meses atrás um grupo de milionários americanos e europeus propôs que os governos de seus países cobrassem impostos maiores sobre eles – os ricos, que assim contribuiriam com suas cotas para que seus países pudessem sair da crise. Ainda que tenha vindo de quem não se esperaria, a proposta trabalha sobre o óbvio: se as cargas tributárias tendem a pesar mais sobre os pobres que sobre o ricos e os governos tendem a apoiar mais os mais esses últimos, quem se beneficiou mais que pague mais. O salvador deverá voltar antes que algum milionário brasileiro se apronte a defender algo semelhante por aqui, onde ninguém parece disposto a encampar esse tipo de heresia; taxar fortunas e heranças ou distribuir riquezas ainda é coisa de comunista ou coisa do capeta. Na falta de ética, o povo gosta mesmo é de ver ostentações, se o mundo é injusto ao menos ele brilha.