terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Fumaça preta

Fumaça preta

Dentre as minhas memórias mais remotas está a do seu Vicente. Era um vizinho gordo e careca, pai do Pingo, do Zé Galinha, da Rosa e da Regina. Lembro dele por uma única frase, talvez duas e nada mais, foi o primeiro sujeito que vi xingando o Papa. Eu era criança, ainda nem pensava em ser padre, o que aconteceria anos depois, e na minha cabeça João Paulo II ainda tinha uma certa aura de santidade. Aos oito ou nove anos não era possível entender o ódio que fazia o seu Vicente blasfemar, anos depois o que tentei foi entender o motivo dessa lembrança. Ainda criança, sonhei entrar para o clero, me apaixonei por uma freira, fui rejeitado e abandonei a igreja, na adolescência perdi a fé, condenei a instituição que havia me condenado e só lembrava do papa pop quando por alguma infelicidade ouvia uma certa canção da pior banda de todos os tempos. Bento XVI não foi pop, mas foi papa como um papa deve ser, não é dos meus, não concordo com seus pensamentos, não compartilho suas crenças, no campo das ideias ele estaria do outro lado do ringue, ainda assim eu o admiro e o vejo como um dos maiores sacerdotes dos últimos séculos. Joseph Ratzinger é antes de mais nada um grande intelectual, dentre os vivos provavelmente o maior intelectual da Igreja, mas a profundidade da sua fé e do seu pensamento se chocam com a visão rasa das crenças difusas dos fiéis – ele quis e não pôde ser pop. Continue lendo

Não é preciso ser católico para compreender que se o papa não adequa ao mundo o problema é do mundo e não dele, a igreja não tem se curvar às modernidades da cultura material do individualismo; sim, a igreja de Bento perde fiéis, não apenas por seus erros e vícios, não apenas pelos escândalos e disputas internas, mas também porque ela busca ser forte e verdadeira e não se vergar diante dos ventos do tempo. A fé tem seus custos e a salvação exige esforços, ser cristão pode ser uma escolha, mas não qualquer escolha, é um caminho que exige buscas constantes que impõe desafios cruéis e renúncias dolorosas. O reino da fé não é deste mundo nem para esse mundo, por isso Ratzinger está certo, o Deus da Igreja não pode ser o Deus dos cadernos do Smilinguido, não pode ser o Deus que dá carro novo em troca de dízimos e ofertas, não pode ser o Deus das baladas gospel, não pode ser o Deus dos tolos. Ele está certo ao não sucumbir diante da mediocridade, dos interesses momentâneos e às ideias que afirmam ser o prazer o supremo bem da vida humana. Para quem está do outro lado do ringue a renúncia de Bento é quase uma vitória, o papa fracassado e golpeado dentro do seu próprio terreno mostra uma Igreja incapaz de cuidar de si e direcionar seu rebanho; fragmentada, obtusa, reacionária e conservadora, a Igreja Católica caduca e se sacrifica para tentar se manter de pé; é bom ter um papa que veio do tribunal da inquisição, um líder radical que expõe sem disfarces a pior face da igreja. Mas mesmo para quem está do outro lado do ringue não é fácil perceber e sofrer com as dores e as angústias do adversário ferido e fragilizado que luta de forma honesta e corajosa por suas certezas e verdades – desejo que seus sapatos vermelhos não lhe aperte os calos, que o fogo lhe seja brando e que seu sucessor seja pior!