Fumaça preta
Dentre as minhas memórias mais remotas está a do seu Vicente. Era um
vizinho gordo e careca, pai do Pingo, do Zé Galinha, da Rosa e da Regina.
Lembro dele por uma única frase, talvez duas e nada mais, foi o primeiro
sujeito que vi xingando o Papa. Eu era criança, ainda nem pensava em ser padre,
o que aconteceria anos depois, e na minha cabeça João Paulo II ainda tinha uma
certa aura de santidade. Aos oito ou nove anos não era possível entender o ódio
que fazia o seu Vicente blasfemar, anos depois o que tentei foi entender o
motivo dessa lembrança. Ainda criança, sonhei entrar para o clero, me apaixonei
por uma freira, fui rejeitado e abandonei a igreja, na adolescência perdi a fé,
condenei a instituição que havia me condenado e só lembrava do papa pop quando por
alguma infelicidade ouvia uma certa canção da pior banda de todos os tempos.
Bento XVI não foi pop, mas foi papa como um papa deve ser, não é dos meus, não
concordo com seus pensamentos, não compartilho suas crenças, no campo das
ideias ele estaria do outro lado do ringue, ainda assim eu o admiro e o vejo
como um dos maiores sacerdotes dos últimos séculos. Joseph Ratzinger é antes de
mais nada um grande intelectual, dentre os vivos provavelmente o maior intelectual da Igreja,
mas a profundidade da sua fé e do seu pensamento se chocam com a visão rasa das
crenças difusas dos fiéis – ele quis e não pôde ser pop. Continue lendo
Não é preciso ser
católico para compreender que se o papa não adequa ao mundo o problema é do
mundo e não dele, a igreja não tem se curvar às modernidades da cultura material
do individualismo; sim, a igreja de Bento perde fiéis, não apenas por seus
erros e vícios, não apenas pelos escândalos e disputas internas, mas também
porque ela busca ser forte e verdadeira e não se vergar diante dos ventos do
tempo. A fé tem seus custos e a salvação exige esforços, ser cristão pode ser
uma escolha, mas não qualquer escolha, é um caminho que exige buscas constantes
que impõe desafios cruéis e renúncias dolorosas. O reino da fé não é deste
mundo nem para esse mundo, por isso Ratzinger está certo, o Deus da Igreja não
pode ser o Deus dos cadernos do Smilinguido, não pode ser o Deus que dá carro
novo em troca de dízimos e ofertas, não pode ser o Deus das baladas gospel, não
pode ser o Deus dos tolos. Ele está certo ao não sucumbir diante da mediocridade,
dos interesses momentâneos e às ideias que afirmam ser o prazer o supremo bem
da vida humana. Para quem está do outro lado do ringue a renúncia de Bento é
quase uma vitória, o papa fracassado e golpeado dentro do seu próprio terreno
mostra uma Igreja incapaz de cuidar de si e direcionar seu rebanho;
fragmentada, obtusa, reacionária e conservadora, a Igreja Católica caduca e se
sacrifica para tentar se manter de pé; é bom ter um papa que veio do tribunal
da inquisição, um líder radical que expõe sem disfarces a pior face da igreja. Mas
mesmo para quem está do outro lado do ringue não é fácil perceber e sofrer com
as dores e as angústias do adversário ferido e fragilizado que luta de forma
honesta e corajosa por suas certezas e verdades – desejo que seus sapatos vermelhos não lhe aperte os calos, que o fogo lhe seja brando
e que seu sucessor seja pior!
