terça-feira, 21 de maio de 2013

Palavra da salvação

Palavra da salvação

Os evangélicos têm razão em uma coisa: é necessário pregar a palavra. A palavra transforma vidas. Transformou a minha! Era ainda moleque, estava na quinta ou sexta série quando aconteceu. O fato é que quando eu voltei do recreio meu caderno estava aberto sobre a carteira e em letras garrafais lá estava a palavra: cínico! Eu era um cínico! Ou pelo menos era assim que alguém me enxergava naquela sala de aula. Sempre desconfiei de uma certa menina de quem hoje só lembro duas coisas: era gordinha e se chamava Célia; mas isso não é relevante. Importa que a tal palavra mudou minha vida, até aquele momento eu não era nada ou pelo menos não sabia quem eu era, eu não tinha identidade, não tinha uma qualificação... Era um sujeito sem predicado e sem adjetivo. Hoje eu poderia ser um desses sujeitos que vagam pelo mundo buscando um sentido para a sua existência. Mas daquele dia em diante passei a me ver com outros olhos, eu era alguém, eu tinha um atributo e uma qualidade: eu era um cínico! Eu podia abrir o dicionário e me encontrar numa palavra, do mesmo modo que eu podia abrir a enciclopédia e encontrar Jesus. Para um moleque de uns doze ou treze anos, ser cínico só poderia ser uma glória, afinal eu tinha um adjetivo sofisticado, imponente e, acima de tudo, um adjetivo com a força dos proparoxítonos. Tomei gosto, fui crescendo e incorporando novos atributos e novos predicados, todos proparoxítonos: crápula, hipócrita, sarcástico, sórdido, pérfido, estúpido, sádico, mórbido, lúgubre...  Talvez pela influência dos proparoxítonos tenha me tornado também cético e politólogo. Veja a beleza  e a sutileza da vida: sem querer, a menina que escreveu no meu caderno descobriu minha essência e mudou minha história, me transformou em alguém, me deu uma imagem, uma cara e uma personalidade bem resolvida. Um dia, se eu aprender a orar, talvez dê graças a ela; por nunca ter necessitado procurar um analista!