O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a
porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não
imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um
atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade
de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você
não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria
respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora
um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves,
afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava
assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender
a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia
deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E
nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três
minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja
preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana
já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice
diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o
outro. Continue lendo
Não nos importa saber quantos psiquiatras encontraremos prontos para
vender atestados ou cobrando 300 reais para fazer três perguntas, é direito
dele. O tal doutor também não deve se considerar desonesto, ao contrário, e
ainda acredita que tem envergadura moral para criticar e julgar os impuros. No discurso,
todos se indignam com desvios de dinheiro público, falcatruas, corrupção e
blá-blá-blá, e é bom que assim seja ou que assim fosse, mas a corrupção, a
desonestidade e a roubalheira estão muito mais embaixo, fazem parte do nosso
dia-a-dia, aqui quem pode dá um jeitinho: o feirante mexe na balança, o dono do
posto adultera o combustível, o policial corrompe o ladrão, a diretora desvia
verbas da escola. Desde a infância aprendemos a dar um jeitinho de levar
vantagem, aprendemos que achado não é roubado, dividimos os homens entre
malandros e otários... Temos uma visão
de mundo profundamente individualista e esquecemos que enquanto cada um buscar
uma brechinha onde pode e todos tentarem se dar bem às custas do prejuízo
alheio, a maioria vai se dar mal. Sem problemas, como diz o ditado: se a
farinha é pouca, meu pirão primeiro! De mim, mau caráter assumido, falo depois,
primeiro preciso relacionar a merda que deixo de comer com as merdas que tenho
que pagar.
