terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fezes honestas

Fezes honestas

O psiquiatra me recebeu com um sorriso. Boa tarde! Entre, feche a porta. Vamos lá, qual é o seu problema? Respondi o que me parecia óbvio: não imagino que tenha qualquer problema sério, só estou aqui porque preciso de um atestado de sanidade mental. Então tá, disse ele; você costuma sentir vontade de comer fezes, gosta de bater na sua mãe ou rasgar dinheiro? Não! Então você não é louco! Simples assim? Senti-me aliviado, mesmo sem convicção teria respondido com um não por mera conveniência, mas acho que fui sincero e agora um psiquiatra gabaritado confirmava que eu não tinha problemas mentais graves, afinal eu não comia merda, não batia na mãe e não rasgava o que não tinha. Bastava assinar o atestado e pronto, mas o doutor resolveu puxar um papo para estender a consulta, começou a falar de suas viagens e, véspera de eleição, não poderia deixar de falar em política e políticos; corrupção, roubalheira, uma vergonha! E nesse falar mal de tudo e de todos estendeu a consulta por mais dois ou três minutos. Papel na mão, eu poderia voltar pra casa sem nenhuma caixinha de tarja preta, só faltava pagar a consulta. A situação era maluca, mas de tão cotidiana já não causa espanto, afinal no nosso cotidiano é constante a soma da canalhice diária com o discurso moralista contra os políticos. Desonesto é sempre o outro.  Continue lendo

Não nos importa saber quantos psiquiatras encontraremos prontos para vender atestados ou cobrando 300 reais para fazer três perguntas, é direito dele. O tal doutor também não deve se considerar desonesto, ao contrário, e ainda acredita que tem envergadura moral para criticar e julgar os impuros. No discurso, todos se indignam com desvios de dinheiro público, falcatruas, corrupção e blá-blá-blá, e é bom que assim seja ou que assim fosse, mas a corrupção, a desonestidade e a roubalheira estão muito mais embaixo, fazem parte do nosso dia-a-dia, aqui quem pode dá um jeitinho: o feirante mexe na balança, o dono do posto adultera o combustível, o policial corrompe o ladrão, a diretora desvia verbas da escola. Desde a infância aprendemos a dar um jeitinho de levar vantagem, aprendemos que achado não é roubado, dividimos os homens entre malandros e otários...  Temos uma visão de mundo profundamente individualista e esquecemos que enquanto cada um buscar uma brechinha onde pode e todos tentarem se dar bem às custas do prejuízo alheio, a maioria vai se dar mal. Sem problemas, como diz o ditado: se a farinha é pouca, meu pirão primeiro! De mim, mau caráter assumido, falo depois, primeiro preciso relacionar a merda que deixo de comer com as merdas que tenho que pagar.