terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A corda e o pescoço

A corda e o pescoço

Somos assim, na superfície tudo parece calmo, mas nas profundezas o inferno arde em chamas, pronto para explodir. Nos poços mais profundos da alma podemos perceber a engrenagem dessa máquina movida por desejos, instintos e interesses; é lá que poderemos encontrar o tênue equilíbrio entre o fogo que sustenta a vida e as chamas que nos levam à morte. Somos a espécie única de uma máquina capaz de autodestruir, apenas para nós o suicídio é uma possibilidade, como se a cada dia tivéssemos que nos responder a nós mesmos por que a vida vale a pena. Jacintha Saldanha resolveu morrer. Como tantas outras pessoas ao redor do mundo, num dia igual a qualquer outro dia decidiu dizer chega, saiu de casa, se despediu do marido e dos três filhos, escreveu três cartas de despedida foi para seu trabalho. Enfermeira, foi para o mesmo hospital onde cuidava da vida das pessoas e resolveu apelar para a tradição, amarrou uma corda no pescoço e se enforcou. Ninguém jamais poderá chegar às profundezas da sua alma, ninguém saberá seus motivos. Seria mais uma suicida, mais um número, faria parte das estatísticas, mas Jacintha havia se tornado conhecida três dias antes... Continue lendo:


como vítima de um trote passado por dois locutores de uma emissora de rádio australiana que se fizeram passar pela rainha Elizabeth e pelo príncipe Charles. Enganada, a enfermeira passou a ligação para outra enfermeira que acabou revelando detalhes sobre a gravidez da princesa Kate Mindleton. Poderia ter sido apenas mais um trote, poderia ter causado apenas risos, mas não. Por que alguém que foi enganada publicamente poderia se sentir culpada, constrangida, envergonhada ou desonrada o suficiente para dar fim à própria vida ou para se autopunir por um ato involuntário? Qual o peso do erro ou do engano, da exposição pública ou da humilhação? Essas perguntas provavelmente ficarão apenas para os seus três filhos, que terão toda uma vida de tormentos para tentar responder. Saberemos apenas que, como em mim e em você, o inferno ardia em chamas mas e que essas chamas que sustentam a vida queimaram as engrenagens da máquina destruindo sonhos, honras e satisfações. talvez Camus tenha razão, só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio; julgar se a vida vale ou não ser vivida, se houvesse outro provavelmente este diria respeito ao momento certo de decidir pela morte.