terça-feira, 18 de junho de 2013

Vândalos e violentos

Vândalos e violentos

Entre os trópicos existe país onde quebrar vidraças é violência e pichar muros é vandalismo. Não seria estranho se não fosse o mesmo país em que crianças morrem de desnutrição e fome, em que há pessoas vivendo nas ruas por falta de moradia, em que faltam professores nas escolas, faltam médicos e medicamentos básicos nos hospitais e onde tudo isso assusta menos que a perturbação da ordem. Quem vê de longe pode acreditar que o povo que vive nesse triste lugar se preocupa mais com a propriedade privada que com a dignidade da vida humana. Esse povo que lamenta pela parede, pelo poste e pela porta do banco não costuma lamentar por seus miseráveis, não estranha ter uma polícia assassina bancada com dinheiro público, não se importa com suas crianças abandonadas nem com seus velhos esquecidos ou com quem é obrigado a se submeter a trabalho escravo. É uma população que por incapacidade ou indiferença costuma escolher e eleger políticos corruptos e partidos mafiosos, que adula suas elites perversas e fecha os olhos para os mais pobres. Esse povo, que se diz pacífico e ordeiro, se nega a reconhecer que também é machista e racista, que entre suas fronteiras milhões de inocentes são torturados, feridos, agredidos e mortos, que cotidianamente seus ódios e preconceitos espalham terror e violência. Continue lendo...

É um povo de glórias, sempre entre os primeiros em assassinatos de animais humanos e não humanos, em injustiça e desigualdade social. Nesse país, milhões de operários e trabalhadores das periferias nascem e morrem sem saber o que são direitos fundamentais, vivem como se fossem instrumentos de uma máquina de produzir riquezas que nunca vão conquistar; alguns vivem no luxo e milhões vivem no lixo, ali as pessoas são aquilo que elas consomem e cada uma vale o quanto tem. Homens e mulheres são mercadorias e talvez por isso se tornam insensíveis e violentos e nesse jogo de forças para ter mais e ser mais se tornam desonestos e desorientados. Mas nesse país não pode haver revolta nem vingança e a indignação tem que ser ordeira, o protesto tem que ser dentro dos parâmetros estabelecidos pelos opressores, lá se protesta cantando o amor e a união entre oprimidos e opressores. De longe pode parecer um país dominado pela ignorância, hipocrisia e estupidez; mas não para eles, que preferem pintar seus rostos e sair às ruas com suas alegrias vaidosas cantando um refrão velho e injustificado: ‘eu sou brasileiro com muito orgulho e com muito amor!’