Entre os trópicos existe país
onde quebrar vidraças é violência e pichar muros é vandalismo. Não seria
estranho se não fosse o mesmo país em que crianças morrem de desnutrição e fome,
em que há pessoas vivendo nas ruas por falta de moradia, em que faltam professores
nas escolas, faltam médicos e medicamentos básicos nos hospitais e onde tudo isso
assusta menos que a perturbação da ordem. Quem vê de longe pode acreditar que o
povo que vive nesse triste lugar se preocupa mais com a propriedade privada que
com a dignidade da vida humana. Esse povo que lamenta pela parede, pelo poste e
pela porta do banco não costuma lamentar por seus miseráveis, não estranha ter
uma polícia assassina bancada com dinheiro público, não se importa com suas
crianças abandonadas nem com seus velhos esquecidos ou com quem é obrigado a se
submeter a trabalho escravo. É uma população que por incapacidade ou
indiferença costuma escolher e eleger políticos corruptos e partidos mafiosos,
que adula suas elites perversas e fecha os olhos para os mais pobres. Esse
povo, que se diz pacífico e ordeiro, se nega a reconhecer que também é machista
e racista, que entre suas fronteiras milhões de
inocentes são torturados, feridos, agredidos e mortos, que cotidianamente seus ódios e preconceitos espalham terror e
violência. Continue lendo...
É um povo de glórias, sempre entre os primeiros em assassinatos de animais humanos e não
humanos, em injustiça e desigualdade social. Nesse país, milhões de operários e trabalhadores das periferias nascem
e morrem sem saber o que são direitos fundamentais, vivem como se fossem
instrumentos de uma máquina de produzir riquezas que nunca vão conquistar;
alguns vivem no luxo e milhões vivem no lixo, ali as pessoas são aquilo que
elas consomem e cada uma vale o quanto tem. Homens e mulheres são mercadorias e
talvez por isso se tornam insensíveis e violentos e nesse jogo de forças para
ter mais e ser mais se tornam desonestos e desorientados. Mas nesse país não
pode haver revolta nem vingança e a indignação tem que ser ordeira, o protesto
tem que ser dentro dos parâmetros estabelecidos pelos opressores, lá se
protesta cantando o amor e a união entre oprimidos e opressores. De longe pode
parecer um país dominado pela ignorância, hipocrisia e estupidez; mas não para
eles, que preferem pintar seus rostos e sair às ruas com suas alegrias vaidosas
cantando um refrão velho e injustificado: ‘eu sou brasileiro com muito orgulho
e com muito amor!’
