Deus em Auschwitz
Qualquer inferno imaginado em séculos seria pouco, quase nada, diante do pior horror. Os campos de concentração de Auschwitz são o símbolo da máxima barbárie a que a humanidade ousou atingir. Neles morreram mais de um milhão e meio de pessoas; morreram de fome, fuziladas, morreram nas câmaras de gás, queimadas vivas ou das formas mais cruéis a que a imaginação humana conseguiu atingir. Homens, mulheres e crianças viraram cobaias, carrascos e vítimas se transformaram em coisas, em objetos. Diante do horror, como não questionar por que Deus permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava naqueles dias? Por que ficou em silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mau? Não, não é minha falta de fé quem questiona, essas perguntas não são minhas, são do senhor Joseph Ratzinger, o alemão que se tornou Papa e renunciou ao posto. Bento XVI fez essas perguntas quando visitou Auschwitz em 2006. Deus não respondeu, o papa também não pôde responder, para ele é impossível penetrar nos mistérios de Deus e nisso talvez ele se contente. Ratzinger possui uma inteligência incomum, ainda assim se curva diante daquilo que seria inexplicável: o que não pode ser explicado é apenas um mistério divino. Continue lendo:
Mas a questão se mantém, se Deus é aquele a quem se credita ter todos os poderes, todo o conhecimento e toda a bondade, por que ele se calou e se omitiu. Será que ele não via, não sabia? Será que nada poderia ter feito? Será que não foi tocado pelas vozes de milhões de almas? A quem tem fé não cabe respostas negativas, não cabe a dúvida. Assim como as mães que viam seus filhos morrerem em seus braços, ficaremos sem respostas. Sim, talvez Deus tenha planos para cada uma daquelas centenas de milhares de crianças que viveram cada segundo de agonia e dor; é possível que tenha guardado um lugar para aqueles que foram mortos sob tortura ou como cobaias em experiências de laboratório ou mesmo para aqueles que se mataram por não suportar o terror no Vale da Escuridão. Não sabemos, assim como não sabemos o que Ele enxergava nos olhos daqueles que viam seus pais entrarem vivos nos crematórios para dali sair direto para o céu, em forma de fumaça; também não saberemos quais as orações foram feitas ou como Deus as recebeu. A fé sem respostas pode acalentar a alma, mas nunca será confortável saber que os homens podem fazer o que bem entenderem enquanto o Senhor Deus ficará apenas olhando.