Ele se despediu com um olhar parado. Talvez tenha dito adeus ou qualquer outra coisa, se disse eu o ignorei como se fosse possível ignorar as últimas palavras de um homem; já não me importavam as palavras, naquele momento já não havia o que ser dito. Sabia que era a última vez que o encontraria com um resto de vida, o tempo que lhe restava era curto, algumas semanas, alguns dias, talvez fosse apenas questão de horas. Sabia disso tanto quanto ele, talvez a diferença estivesse no fato de que eu não acreditava em milagres, não tinha um deus ou uma fé para recorrer, não esperava qualquer eternidade, e nisso ele levava alguma vantagem. Verdade, pode me chamar de sórdido, mas por um segundo imaginei que aquele homem quase morto, que aquele cadáver adiado poderia ter alguma vantagem sobre um vivo que escolheu não ter esperanças. Ainda que não quisesse fui obrigado a me colocar diante da morte. Imaginei como poderia ser cada ato e cada pensamento, o último isso e o último aquilo, como se cada ação ou pensamento trouxesse o fim de capítulo; era o fascínio da última página. Quando me estendeu um cumprimento já não tinha forças para apertar minha mão mas me olhou no fundo da alma, seus olhos profundamente fundos, parecia ter lágrimas de sangue (como se lágrimas e sangue se unissem para dar forma ao desespero, ao medo e à dor. Continue lendo:
Não era a morte que o apavorava, era a dúvida, a incerteza, a recusa de aceitar a própria destruição, a finitude, o tormento era ter um passado incompleto e não ter esperanças para o futuro. Ainda pensei em me despedir uma outra vez, arrumar um gesto ou uma palavra. Nada! Qualquer coisa só serviria para escancarar as feridas já abertas, seria mórbido, talvez cruel. Meu ceticismo então me varreu, naquele olhar me tornei terra devastada, sabia que a sua morte era parte do meu fim, imaginei que mesmo na dúvida sua fé talvez pudesse lhe dizer aonde ir e lhe prometia um recomeço, uma outra chance e novos sonhos, a minha descrença total me jogava para o mar sem fim. Nesse momento me vi náufrago envolto em uma tempestade de dúvidas sem respostas. Sabia que não era o único, no fundo acreditava que estávamos todos na mesma situação, mas diante da morte ele tinha um farol, ainda que envolto na neblina da dúvida; como eu ele era um náufrago perdido na mesma tempestade mas o seu farol, imaginário ou não, lhe conduziria para algum lugar, ainda que esse lugar fosse o nada, o vazio total no qual sempre vivemos, o lugar onde nunca se chega mas que é real o suficiente para determinar a direção da viagem e guiar o caminho a cada passo.
