Século passado. Devia ter uns catorze ou quinze anos e gostava de super-heróis: Marighella, Lamarca, Lênin, Marx... talvez quem sabe como substitutos de um Papai Noel ou de um Deus que já não fazia parte do meu mundo. Acreditava na revolução, na luta armada, sonhava em pegar em armas e transformar o mundo... Lia Os carbonários, O mini-manual do guerrilheiro urbano, Combate nas trevas e alguns textos mais fáceis de teoria política como cadernos de formação para jovens revolucionários. Com essa pequena bagagem, com sonhos e desejos de fazer a revolução fui eu atrás daqueles que então acreditava serem os sujeitos preparados para mudar o mundo: os companheiros do Partido Comunista. Na minha tola ilusão ali estariam os grandes homens que desprendidos de interesses pessoais mesquinhos se organizavam para construir um mundo mais justo, mais livre, mais igual, melhor. Em semanas estava eu nas passeatas e manifestações, levantando bandeiras, distribuindo panfletos, militando na União da Juventude Socialista – braço do partido, debatendo nos bares e escolas, pregando as boas novas. Meu muro caiu rápido, logo vi que daquele mato não sairia coelho, que sob uma sigla e um símbolo, sob uma foice e um martelo, estavam sujeitinhos medíocres, políticos profissionais e amadores em busca de status pessoal, de mesquinharias, vivendo de migalhas de poder. Nos últimos anos o partido cresceu e piorou, de certa forma chegou ao poder, faz parte do governo federal e tem espaço para mostrar a sua cara, teria espaço para mostrar suas ideias caso quisesse, caso as tivesse. Quando agora vejo diversas acusações de corrupção pairando sobre a velha sigla, ou talvez mais precisamente sobre alguns dos seus líderes, não tenho qualquer reação de espanto; era uma questão de tempo, o que me parecia óbvio um dia se tornaria público, o que me espanta é que aos catorze ou quinze eu tenha deixado de jogar bola na rua para participar de uma farsa que não era minha, me espanta que eu tenha jogado algumas fichas de sonhos num joguinho de cartas marcadas. Que vergonha, que vergonha!
