Sangue, bombons e flores
Sangue, bombons e flores
O dia da mulher seria um dia de luto e de luta, deveria servir para reflexões sobre a condição feminina. Bobagem. O dinheiro e comércio apagam a história, destroem a memória, tiram o sentido dos atos e recria datas, o dia de luto virou dia de festa, o dia de luta virou dia de compras. O capitalismo tudo devora e vomita, o que é solido se desmancha em gases malcheirosos; ideias e sentimentos se transformam em mercadorias, tudo tem seu preço e seu valor em cifrões. O mundo é esse, não precisamos pensar, precisamos consumir. Mais uma data e nada de novo, as questões coletivas sucumbem diante dos interesses e caprichos individuais e a reflexão sobre a condição feminina, a violência e as relações de gênero deram espaço para a compra de presentinhos para qualquer pessoa que pareça ter um útero; e assim esquecemos o que poderíamos lembrar: da violência cotidiana, da inferioridade no mercado de trabalho, do machismo, do preconceito e tudo o que não aparece nas vitrines das lojas dos shoppings mas dizem respeito à mulher. Perdemos a compreensão e a capacidade de análise e nos contentamos com o discurso simplista e falso de que a mulher conquistou o mercado de trabalho e a igualdade de gênero, fingimos que elas desejam e precisam apenas de flores e chocolate. Então tá! Vamos esquecer que a cada 24 segundos uma mulher é espancada no Brasil, vamos esquecer que a cada dois minutos cinco mulheres são violentamente agredidas, que de cada cem mulheres assassinadas setenta foram mortas por seus companheiros ou ex-companheiros... Continue lendo:
Vamos deixar de lembrar que apenas em São Paulo, pelo menos oito mulheres são agredidas a cada hora, isso segundo a Secretaria de Segurança Pública que, como é obvio, não registra a maioria dos casos. Em nome da festa, vamos ignorar os abusos físicos, morais, psicológicos e sexuais, além do cárcere privado e do tráfico com fins de prostituição, afinal talvez nos conforte saber que maioria das vítimas sofrem abusos e exploração de seus próprios companheiros ou parentes. Vamos desprezar os dados da ONU que mostram que cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência no decorrer da vida e fingir que não sabemos que essa violência é uma forma de submeter e obter controle sobre a mulher e que é uma prática comum na maioria das sociedades. Isso não ajuda nas vendas. Quem se importa com isso? A vida é cor de rosa e o que importa é vender, comprar ou receber flores e bombons de chocolate.